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A nova nota de duzentos reais no Brasil: sobre economistas e lobo guará

25/08/2020 às 17:00

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Lobo guará: uma figura não tão nova assim nas cédulas brasileiras

O lobo guará (Chrysocyon brachyurus) é um animal solitário que procura se manter distante dos humanos, da família dos cães e raposas da América do Sul. Aqui no Brasil, é o animal símbolo do bioma cerrado. Apesar de ser um animal extremamente elegante e icônico, é constantemente ameaçado por ações antrópicas. Ele encontra-se junto ao Ministério do Meio Ambiente classificado na categoria de risco de extinção “vulnerável”, nível de proteção grau 3. Espera-se vê-lo até o fim de agosto de 2020 na nova cédula de circulação de R$200 na economia brasileira. Segundo o Banco Central do Brasil (BACEN), a previsão é de impressão de 450 milhões de cédulas de R$200 este ano.

Destaque-se que o lobo guará já estampou a cédula de CR$100 (Cruzeiros Reais) entre dezembro de 1993 e setembro de 1994. Foi nesse período em que o país saiu de uma hiperinflação e passou a ter estabilidade da moeda com a introdução do Real em julho de 1994. Assim, para se ter um a ideia da situação, em 1993, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) atingiu 2.477% ao ano, mais de 200% de aumento médio de preços ao mês. A taxa de inflação hoje se situa na faixa de 2,31%, acumulada nos últimos doze meses e de 0,36% em julho de 2020. Depois de vinte seis anos do Real será a primeira vez em dezoito anos que a moeda terá nova nota. Os investidores têm com o que se preocupar?

Ilustração da nova nota de duzentos reais

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Indícios: devemos nos preocupar com a nova nota de duzentos reais?

O que está ocorrendo no Brasil é uma combinação de piora da economia global que se arrasta desde a crise de 2008, crise interna, expansão dos gastos públicos desde 2014, queda dos juros internacionais e a recente crise sanitária. Juntas, estas varáveis provocam incerteza e afetam a variável “expectativa” dos agentes. Por falar em crise sanitária, o Brasil já ultrapassou os 540 mortos por milhão, com mais de 3,6 milhões de infectados e mais de 115 mil mortos. Tudo isso em cinco meses da decretação da crise sanitária. E para sobreviver a este caos, já que as previsões mais otimistas de queda no Produto do Interno Bruto (PIB) chegam a uma redução de 5%, o governo instituiu o programa da Renda Básica Emergencial (RBE). Isso provoca um aumento no, já elevado, déficit público.

A RBE, que inicialmente previa a distribuição de R$200 reais como apoio aos trabalhadores informais que ficaram sem renda neste período pandêmico, devida a ação do parlamento, chegou a um valor de R$ 600 pagos por três meses e fora prorrogada por mais dois meses. Este auxílio temporário atendeu até o presente mais de sessenta milhões de brasileiros. Assim, o aumento da demanda por moeda provocado pela concessão do benefício foi uma das justificativas do governo para o lançamento próximo da nova cédula. O problema é o impacto causado pela RBE sobre o déficit público. Segundo o Relatório de Acompanhamento Fiscal dada a situação de pandemia, e supondo-se uma redução da atividade econômica da ordem de 8%, num cenário pessimista em 2020, o déficit ultrapassaria os 100% do PIB.

Nosso histórico não joga a favor

Para um país com a história econômica recente do Brasil, qualquer expansão da oferta monetária é vista com certo resguardo. Existe a preocupação de que a emissão de moeda esteja sendo usada para financiar o déficit público no curto prazo. Há uma corrente muito forte na economia chamada de monetarista, descendente de Milton Friedman. Assim, essa linha de pensamento afirma que aumentos na oferta de moeda sem o equivalente aumento na produção de bens e serviços, o PIB, podem significar inflação, que é a doença da moeda. “A inflação é sempre e em qualquer lugar um fenômeno monetário” dizia Friedman. Nesse sentido, o rigor no controle dos gastos públicos é essencial para evitar o drama inflacionário.

A principal função da moeda é servir de meio de troca, permitindo a realização de pagamentos e as transações comerciais. Assim, a moeda também carrega a função de unidade de valor. Nesse sentido, ela torna-se referencial para as trocas, onde os bens e serviços possam ser expressos em quantidade de moeda. A função de reserva de valor garante a possibilidade de transferência de poder de compra do presente para o futuro. Quando os agentes procuram em outros ativos funções intrínsecas da moeda, esta começa a mostrar sinais de fraqueza.

Brasil: devemos nos preocupar com nota de duzentos reais?

Há expectativa de inflação para o Brasil? Com a taxa do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia para Títulos Federais (Selic) estando na faixa de 2% ao ano há uma redução no interesse dos investidores por títulos e um aumento da demanda por papel moeda (entesouramento). Além disso, surge interesse para a compra de ativos que possam apresentar reserva de valor. Prova disso é a valorização de ativos considerados mais seguros, tais como o ouro. Nesse sentido, esse ativo em 2019 teve uma valorização de 18% e agora no primeiro semestre de 2020 já teve uma valorização de 30%. A prata, por sua vez, acumula valorização de 54,6% na bolsa de New York também este ano.

Por fim, escrevo este texto para Beatriz, uma jovem millenium, nascida em 2001 e que atualmente não consegue entender como em um período de inflação tão baixa, economistas se encontram em polvorosa com o ressurgimento da nova nota de duzentos reais. Apesar do lobo guará tornar-se em breve o símbolo da cédula mais valiosa do Brasil, sua passagem anterior na história monetária do país não traz bom presságio. A estabilidade do real é sensível e a inflação é silenciosa e rápida quando existem elementos, como o elevado déficit público, que podem propiciar seu retorno.

Por Márcia Batista da Fonseca, professora associada do Departamento de Economia, Universidade Federal da Paraíba

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