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Opinião: teremos um Dilma 2?

19/08/2020 às 5:00

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Por Paulo Amilton Maia Leite Filho, doutor em Economia e Chefe do Departamento de Economia da UFPB

O populismo sempre oferece o caminho do direito fácil sem deveres, de realizações sem esforços. (Sebastián Piñera).

Quando tudo eram flores

O segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff foi caracterizado por uma recessão nunca vista na história deste país. Tal fato aconteceu porque no primeiro mandato o governo empreendeu um conjunto de políticas públicas que levaram o orçamento público a ter déficits crescentes. Na ocasião não se percebeu por conta das maquiagens proporcionadas pela contabilidade criativa empregada pelo secretário do tesouro nacional à época.

Relembro tal fato porque parece que teremos a repetição do mesmo cenário de gastos acima da capacidade de arrecadação do primeiro governo Dilma. O plano inicial do atual governo era bem liberal. Com anúncios de privatizações, reformas tributárias e trabalhistas pró mercado com a intenção de manter a inflação em níveis aceitáveis e crescimento econômico elevado, de tal forma que a reeleição em 2022 fosse crível.

As pedras no caminho

Mas aí veio o Covid-19 para estragar a festa. Num primeiro momento, se ensaiou um respeito obsequioso ao orçamento, com o governo se posicionando contra a concessão de várias transferências de renda, tanto diretamente para as famílias como para as empresas. O Congresso Nacional informou que aquele respeito não seria levado em consideração e encaminhou várias propostas de transferências, sendo a mais comentada a ajuda emergencial a pessoas em situação de vulnerabilidade pela perda de renda devido ao distanciamento social.

A princípio o governo rejeitou a ideia, denominando-a de o caminho seguro ao socialismo. Depois passou a aceitar, mas no valor R$200. A Câmara dos Deputados, na pessoa de seu presidente Rodrigo Maia, indicou que seria de R$500. Seguindo o ditado do Barão de Itararé, que dizia, “sou pela moralidade, mas se não for possível, que locupletemos todos”, aumentou para R$600 e apenas em três vezes. Depois percebeu que o caminho seguro ao socialismo podia ser, na realidade, o caminho seguríssimo para a reeleição, e prorrogou por mais dois meses. Com o anúncio pelo Datafolha da pesquisa que indica substancial melhora nos índices de aceitação da população ao governo, principalmente nas camadas mais pobres e no eleitorado nordestino, já fala em torná-lo permanente. Ou seja, que locupletemos todos.

As mudanças trazidas pela pandemia

A pandemia provocou uma reviravolta no atual governo. Com medo do impeachment, trocou a estratégia política e de comunicação. Na área política, mandou embora, ou mandou calar a boca, a maioria dos apoiadores raiz do governo ao dar a articulação política no congresso ao Centrão. Na área de comunicação, nomeou um expoente deste bloco político, senhor Fábio Farias, para o ministério das comunicações. Este exigiu que as entrevistas no cercadinho cessassem e, além do mais, mandou que ele passasse a falar português e abandonasse seu típico Bolsonarês castiço.

No campo econômico, passou a flertar com atitudes bem populistas. O teto de gasto passou a ser um problema. Privatizar, nem pensar. Usar o mercado para financiar projetos estruturadores aproveitando dos juros baixos atuais, nem de longe. Precisasse abrir os cofres públicos para garantir apoio dos políticos.

Provavelmente, o atual governo tenta não sofrer das consequências políticas da interrupção da ajuda emergencial. Como bem lembrou o professor Affonso Celso Pastore em sua coluna semanal no Estadão de 16/08/2020, Richard Thaler, prêmio Nobel de economia de 2017, dizia que as pessoas avaliam de forma mais forte perdas do que ganhos. Ou seja, a perda do benefício terá mais impacto negativo do que a satisfação de um dia o ter recebido.

Para não ver sua popularidade ir de morro abaixo, e ver todo seu esforço de se reconstruir ao controlar sua verborragia insana, o presidente já começou o discurso político para que o teto do gasto seja abandonado. Pediu mais patriotismo aos empresários e que o ministro Paulo Guedes não seja tão radical na defesa do controle de gastos.

Conclusão

Dilma dizia que gastos sociais eram vidas e que controle orçamentário era privilégio de sociedades ricas e menos desiguais. Para Bolsonaro, gastos sociais representam sua continuidade política. Com o estouro e maquiagem do orçamento, Dilma viu seu segundo mandato ser encurtado. Com o desrespeito a lei do teto de gastos, o governo atual promete outro estouro. A história vai dizer se vai acabar em outro encurtamento de mandato presidencial. Mas o populismo de soluções fáceis sempre cobra seu preço. Como dizia Nicolau Maquiavel, quem sempre procura facilidades, termina encontrando dificuldades.

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