19/05/2020 às 16:29

O último homem: o que temos a re(aprender) na relação Economia e o meio ambiente?

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Por Márcia Batista da Fonseca, professora associada do Departamento de Economia da UFPB

O atual momento que estamos atravessando, serve para refletirmos um pouco sobre a relação entre a economia e meio ambiente. Olhando pelo lado ambiental, o atual modelo economico precisa ser repensado. Mas, quais os direcionamentos para atingir este fim?

Economia e o meio ambiente

Para um melhor entendimento, leia também nossos textos sobre o Covid-19 e seus efeitos econômicos:

“Onde estava a praga? ‘Aqui – em todos os lugares!’, Exclamou uma voz de horror e consternação, quando, nos dias agradáveis de um ensolarado maio, o Destruidor do homem pairava novamente sobre a terra, forçando o espírito a abandonar sua crisálida orgânica, a entrar e a viver sem experimentar. Do mesmo modo, com uma poderosa varredura de sua arma potente, toda cautela, todo cuidado, toda prudência foram reduzidas: a morte sentou-se às mesas dos grandes, reprimiu o homem corajoso que resistia: o desânimo entrou em todos os corações, a tristeza obscureceu todos os olhos”, trecho de “O último homem” de Mary Shelley, 1826.

Mary Shelley e o último homem

Mary Shelley, é conhecida por sua obra Frankenstein, publicada oito anos antes de “O último homem” que veio a público pela primeira vez em 1826. O texto gótico, apocalíptico, trata de uma pandemia provocada por uma peste que afeta Londres, Europa, Américas e o resto do mundo no século XXI. A medicina não consegue, verão após verão, encontrar uma solução, e os homens vão morrendo consecutivamente acometidos pela praga. Enquanto os homens desaparecem, a natureza volta com toda sua força a se mostrar bela. Cidades são tomadas por espécies que não estariam ali, se o homem continuasse a existir na mesma proporção.

Todavia, o romance foi escrito em plena revolução industrial, exploração do trabalho e destruição desenfreada do ambiente natural. As espécies da natureza se adaptando a mudança sob a égide do Darwinismo, onde só os fortes sobrevivem. A poluição do ar, da água, dos rios, passa a chamar a atenção dos grandes centros na Europa. A a teoria econômica mostra que o homem deveria retirar da natureza todos os recursos que necessitasse e que não haveria produção sem degradação. Entretanto, para equacionar o problema de escolha, encontra-se o conceito de externalidade, formulado originalmente por Pigou (1920). Nesse sentido, apesar de ocorrerem no processo produtivo, as externalidades negativas poderiam ser internalizadas para resolver a falha do mercado. Isso seria feito através de instrumentos regulatórios ou econômicos que provocassem uma alocação mais eficiente dos recursos.

Lições para a atualidade

Ainda assim, esse trade off entre economia e meio ambiente vigora ainda hoje. Além disso, mesmo com a internalização das externalidades, em pleno século XXI, as questões ambientais continuam sendo relegadas a segundo plano. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), afirmou em relatório de 2016, que a medida em que habitats selvagens são destruídos pela ação humana, há grande probabilidade de que ocorram pandemias. Mais objetivamente, ameaças aos ecossistemas e à vida selvagem, entre elas, a redução e fragmentação de habitats, a poluição, a proliferação de espécies invasoras e, cada vez mais, as mudanças climáticas, estão diretamente relacionadas a existência de pandemias.

Nesse sentido, o enfoque do One Health, preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), aparece como uma solução transversal. Na medida em que relaciona sociedade e natureza na implementação de programas, políticas, legislação e pesquisa, nas quais vários setores se comunicam e trabalham juntos para alcançar melhores resultados de saúde pública nos países.

E o Brasil?

Voltando-se especialmente para o caso do Brasil e a situação provocada pela pandemia, o país caminha para ser o novo epicentro da covid-19 no mundo, devido a velocidade da evolução dos casos. Entre março e maio de 2020 acumulam-se 17.000 mortes por covid-19 no Brasil. De acordo com dados da OMS, o país já é o 18º no mundo em maior número de casos de mortes por milhão de habitantes, tendo 76 mortes por mil/hab, ficando acima da média mundial de 39 casos e bem acima de seus parceiros no Mercosul, Argentina com 8,1, Uruguai com 5,6 e Paraguai 1,5 casos de mortes por milhão de habitantes provocadas pela Covid-19. Por outro lado, as restrições ambientais estão sendo afrouxadas, desrespeitam-se os acordos e convenções internacionais, e a economia caminha em passos largos para profunda derrocada.

Podemos conciliar Economia e o meio ambiente?

Numa situação dessas, pergunta-se qual o caminho? Existe caminho?

Sim! e isso vem sendo protagonizado por iniciativas, tais como a da economista inglesa Kate Raworth que em 2017 criou o Modelo Donut. Este modelo, tem como objetivo a busca do equilíbrio entre as necessidades econômicas de países, cidades e pessoas e os recursos ambientais disponíveis. De acordo com a autora, vive-se em um cenário de constante crise financeira, desigualdade econômica extrema e a produção de bens e serviços que provoca constante pressão sobre o meio ambiente.

Em síntese, o modelo econômico atual não promove o equilíbrio entre economia e meio ambiente. Apesar disso, em maio de 2020 os Países Baixos começam a retornar a vida pós covid-19. Com o relaxamento das restrições de isolamento social, Amsterdam será a primeira cidade no mundo a implantar o modelo Donut. Pioneiros que são, os neerlandeses, pretendem usar sua capital para testar o modelo que prevê uma vida com menos consumo e mais respeito as condições ambientais, dando ênfase a elementos, estabelecidos de acordo com os objetivos de desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), como água, alimento e saúde, passando também por educação, igualdade de gênero e voz política. Por fim, para nossa realidade “estes ainda são loucos sonhos”, frase contida na última página de “O último homem” de Marry Shelley!

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