04/06/2020 às 16:27

E as vivandeiras alvoroçadas voltam a bolir com os granadeiros

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Por Paulo Amilton Maia Leite Filho

“Eu os identifico a todos. E são muitos deles, os mesmos que, desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias do Poder Militar.” (Marechal Castelo Branco)

A palavra revolução vem do latim “revolutio” (virar, dar voltas) e tem várias interpretações. Uma delas é modificar a evolução de um estado de coisas, dar voltas num sentido de encontrar uma nova evolução. É muito empregada para designar a revolta contra algum poder estabelecido que está tendo uma evolução entendida como ruim para a sociedade toda ou uma parte da mesma. O poder que perpetra as revoluções é o poder de fato, aquele que detém as armas para convencer a sociedade da necessidade da mudança de uma evolução para outra. Nesse sentido, o poder político só tem o poder da palavra para fazer o mesmo. O poder político são as vivandeiras que tentam utilizar os granadeiros, o poder de fato, para fazer as mudanças que elas preconizam como corretas.

vivandeiras alvoroçadas

Revolução x economia

Como o ser humano é um animal designado como “Homus Economicus”, a situação considerada ruim quase sempre envolve aquela em que a economia está apresentando uma evolução aquém da esperada. Se for realizada uma pesquisa na literatura mundial encontraremos revoluções que tiveram as condições econômicas não satisfatórias como pano de fundo, embora a classe política sempre utilize outra justificativa. A revolução de 1964 teve a luta contra o comunismo como justificativa, e as condições econômicas como fermento. Desemprego e inflação em alta eram os indicadores mais vistosos. Novamente, a balburdia política sendo alimentada pelas condições econômicas adversas.

Naquele ambiente, o poder de fato, os militares (os granadeiros), tomaram para si o poder político. A princípio amealhou grande simpatia da classe empresarial (outro tipo de vivandeiras) brasileira. Movimentos de apoios eclodiram em todas as grandes cidades do Brasil. O novo governo rapidamente corrigiu as expectativas negativas anteriores pela adoção de várias medidas. Uma delas de grande importância econômica foi a transformação da Superintendência da Moeda (SUMOC) no Banco Central do Brasil (BACEN).

Década perdida

Essas modificações econômicas surtiram efeitos positivos na economia. O desemprego caiu, a inflação se estabilizou e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) permitiu até a criação dos lemas “milagre econômico brasileiro” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”. O Brasil se tornou um caso de sucesso decantado em prosa e verso em todo o mundo e como todos sabem, o sucesso é igual aos filhos das meretrizes, têm vários pais.  Todos queriam atribuir para si a paternidade do sucesso brasileiro.

Como dizem os médicos, todo ser vivo que está saudável pode adoecer se for submetido a condições insalubres, e o tecido econômico é um ser vivo.  Em 1973 a condição insalubre apareceu no aumento, nunca visto na história da humanidade, do preço do petróleo. O novo governo militar para se contrapor ao novo patamar do preço do petróleo implementou, no governo Médici, o 1º Plano Nacional de Desenvolvimento (PND). Não deu certo. Depois, já no governo de Geisel, dobrou a aposta errada com o 2º PND. O resultado foi uma dívida pública impagável e uma década perdida, como se denomina a década de 80. Isto caracteriza um insucesso, e este, ao contrário do sucesso, é um filho órfão. Dessa forma, os empresários que hipotecaram apoio aos militares sumiram e a culpa da década perdida caiu no colo dos militares.

O canto das vivandeiras

Por que estou relatando isto? As vivandeiras voltaram a bolir com os granadeiros. Todo domingo tem passeatas com pedidos de intervenção militar. Mas agora é uma revolução que pedem um autogolpe. Não pedem a derrubada do atual governo, mas sim fornecer poderes ditatoriais ao mesmo, para que este mude a evolução da vida política e econômica do Brasil.

O que os granadeiros devem observar é que as condições econômicas não estão nada boas e tendem a piorar muito. O PIB já vinha desacelerando antes da pandemia. Sua evolução foi negativa em 1,5% no primeiro trimestre do ano, pegando apenas 15 dias de covid-19.  As expectativas do novo normal pós pandemia são de desemprego elevadíssimo que gerarão consumo das famílias muito baixo, endividamento do setor público em alta, investimentos, tanto nacional como internacional, em queda livre e saída de capital estrangeiro com consequências não previsíveis na balança comercial. Se somarmos a implicância das vivandeiras mais agitadas com a China, o comércio exterior terá uma solução de continuidade, e aí, senhores, teremos um futuro que nem o inferno de Dante vai conseguir descrever.

Então, senhores granadeiros, faço-lhes o seguinte aviso, cuidado com o canto das vivandeiras. Vocês passaram muito tempo sendo acusados de coisas injustas e assumiram os erros de vivandeiras passadas. Essas são aves espertas e traiçoeiras. Na primeira visão de que as coisas vão dar errado, passarão, como abutres covardes que são, a culpa para nossas forças armadas, fingindo que não tiveram culpa nenhuma. Errar é humano, mas cometer o erro duas vezes é burrice mesmo.

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