TC School / Opinião

A Revolução Cultural do investidor Pessoa Física

27/08/2020 às 5:00

Felipe Pontes Felipe Pontes

Um ponto de disrupção

Mesmo sem querer, Kurt Cobain liderou um movimento cultural proeminente no início dos anos 1990. O músico ascendeu ao estrelato de forma explosiva, mas seu legado o transcendeu e sua influência é notória até hoje, seja na música, na moda, ou na cultura em geral. Pode não parecer, mas a revolução trazida pelo movimento Grunge, do qual Cobain foi um dos pioneiros, tem muito a ver com a mudança que estamos passando no mercado financeiro, principalmente no que diz respeito à liberdade de decisão que o investidor pessoa física está finalmente tendo. Assim como o Grunge se tornou um movimento musical libertador no seu momento, os pequenos investidores estão peitando o status quo financeiro de forma agressiva, com a ajuda das redes sociais, a educação financeira e a tecnologia.

Ilustração de pessoa com moeda representando investidor pessoa física

Pode ser difícil estabelecer uma ponte entre um movimento cultural musical e a busca pela liberdade de decisão financeira, mas não é impossível. De fato, as similaridades entre o exemplo que dei sobre o Grunge e a chamada “Revolução dos Sardinhas” são muitas. A independência financeira sempre foi relacionada a fatores que envolviam um suporte externo, e não à educação formal, ao uso de ferramentas tecnológicas e ao entendimento das necessidades próprias das pessoas. Por sua vez, a educação financeira sempre foi negligenciada nas famílias, nas escolas e nas faculdades.

Mas, por que estou falando que uma mudança nesse comportamento é uma revolução? Porque estamos no meio de uma das principais temporadas de resultados das empresas listadas em bolsa no mundo inteiro e meu WhatsApp não para de receber mensagens de pessoas que mal conheço perguntando detalhes sobre linearização de receitas, provisões, inadimplência, valor justo, lucros não-recorrentes etc. Os “sardinhas” – gíria usada para descrever o pequeno investidor incauto na bolsa – não estão mais afim de serem merendadas pelos tubarões, como são conhecidos os grandes investidores.

Estas mensagens seriam normais para mim, caso fossem de pessoas com quem já costumo discutir detalhes relacionados à análise fundamentalista de empresas para o investimento em ações. Mas não! As mensagens são de conhecidos de amigos do colégio, algum moço que me encontra no jiu-jitsu ou, em geral, pessoas que nunca haviam me perguntado sobre esse tipo de detalhe. Geralmente as pessoas que não são iniciadas no investimento em ações só me perguntavam que ação comprar para ficar rico dali a uma semana. Claro que a minha amostra é muito pequena e é composta por pessoas que sabem que eu sou educador financeiro e investidor, então o nível de educação financeira a que essas pessoas foram submetidas, a priori, em minhas redes sociais, já é maior do que a média anterior à esse boom de pessoas físicas na bolsa. Mas, de novo, o que acho revolucionário é a atitude de perguntar detalhes. Da atitude de esperar uma resposta longa. E da disposição das pessoas de perguntar de novo.

Quando me perguntam sobre uma ação para ficar rico rápido, normalmente eu respondo de uma forma ríspida, mas ao mesmo tempo engraçada e com um toque educacional. É lógico que ainda há muito trabalho a ser feito, mas nenhum trabalho realmente bom é feito do dia para a noite e é muito claro que teremos muitos “apostadores” entrando na bolsa sem saber o que estão fazendo. As melhores revoluções demoram um tempo para criar seu legado. E é aí que está a importância das redes sociais e da discussão de ideias entre todos os participantes do mercado, que além de aprenderem gratuitamente com outras pessoas, ainda podem utilizar as redes sociais no processo decisório conforme reportado em um recente estudo publicado no International Review of Financial Analysis[1].

As redes sociais têm seu lado tóxico, mas elas democratizaram, sim, o acesso a mais informação, e especialmente ao debate. Adicionalmente, com dados brasileiros, temos evidências[2] de que o Twitter representa o sentimento do mercado nacional e cercear o uso desta ferramenta é o retirar uma fonte de informação que é muito útil para os investidores.

Livres para escolher

Sendo assim, não podemos cercear a liberdade de escolha e de informação. Pelo contrário, precisamos cada vez mais falar sobre bolsa e investimentos adequados a cada perfil de risco, sendo as redes sociais pioneiras neste processo longo que nunca foi explorado de forma adequada pelas famílias, escolas e faculdades – não de forma suficientemente generalizada como deveria ser, nem mesmo pelo Estado. Uma bela evidência da importância do debate sobre investimentos é que temos visto um crescente interesse por “análise fundamentalista” no Google, e mais recentemente, sobre governança corporativa e até mesmo sobre o Professor Aswath Damodaran, que tem canal no YouTube para divulgação de boas práticas de análise de investimentos em ações.

E aí entra mais uma vez aquele movimento que foi popularizado no início dos anos 1990 por Cobain e sua banda. Krist Novoselic, baixista do Nirvana, disse certa vez que eles não levaram a música deles para as multidões, mas que eles trouxeram as multidões para a música deles. Todo mundo queria ter o cabelo igual ao de Kurt Cobain, eles só não sabiam que o cabelo dele era daquele jeito porque Cobain não tinha dinheiro para comprar shampoo[3]. Não tenho medo em afirmar que hoje estamos vendo um movimento semelhante com relação aos investimentos. Antes as pessoas só queriam ganhar dinheiro, sem nem saber dos riscos envolvidos no processo. Hoje elas querem estar bem informadas com veículos de comunicação que mostrem independência da grande imprensa e que tenham vozes especializadas e dispostas a compartilhar seu conhecimento por pouco dinheiro. Muitos “sardinhas” sentem que a imprensa tradicional não estava atendendo às suas demandas. Isso é uma grande revolução, que aqui começou com força em 2016.

Tubarões x sardinhas

Dito isto, o novo investidor pessoa física não está no mercado apenas para fazer parte e ser um “sardinha”, como foi por muito tempo. Ele está neste novo mercado para tomar o controle das suas próprias decisões. O processo de escolha mais livre do investidor pessoa física veio para ficar e ele não precisa de uma espécie de “tutela de urgência” por periculum in mora. Não estamos tratando de crianças que não sabem o que estão fazendo, estamos lidando com adultos, com mais capacidade técnica e tecnológica para tomar decisões mais inteligentes. No lugar de desincentivar o acesso ao mercado de capitais ou estimular o investimento indireto com “produtos” que ninguém entende, precisamos educar os adultos, porque, repito, o Estado e as escolas formais não conseguiram fazer isso em tempo hábil. E, mais importante, precisamos educar sua psique, para não perder a sensatez em um ambiente de tão difícil leitura e onde as coisas acontecem tão rápido, como nas finanças e nos investimentos.

Existe tempo para educarmos e para incentivarmos o acesso do investidor pessoa física ao mercado de capitais. Um país só se torna verdadeiramente desenvolvido quando tem instituições que servem aos cidadãos e cria uma moeda e um mercado de capitais sólido. Essas condições têm características simbióticas. Mas, para isso, precisamos produzir investidores com base sólida, sabendo o que estão fazendo e não sendo excluídos porque alguém acha que eles não sabiam o que estavam fazendo. O nosso mercado, neste momento, é impactado por uma economia que mostra fundamentos fracos. Espera-se, no geral, que o Brasil apresente uma das piores contrações do Produto Interno Bruto entre os emergentes, de mais de 5% neste ano e isso reforça o fato de que as pessoas precisam discutir ideias e também precisam ter acesso às mais diversas fontes de informação para tomarem suas decisões.

Ao mesmo tempo, vemos elevadas expectativas de mercado, com participantes que preveem crescimento dos lucros de 32% para as empresas que compõem o índice MSCI Brazil no período, apesar da crise econômica, sem mencionar a continuação da incerteza política local, e os riscos vindos do exterior – reforçando mais uma vez a importância do acesso às mais diversas fontes de informação por todos e não apenas por grupos exclusivos. O Grunge teve início e um fim melancólicos, mas, como pontuei no começo, o legado que persiste desse movimento é o da contestação agressiva de Cobain – muito parecida, na minha visão, com a do sujeito que quer decidir por si próprio, apesar de viver em um mundo que instiga nele a pressão para não falhar. As pessoas agora têm mais ferramentas para não falhar: elas querem se educar, agir com eficiência graças à tecnologia e, como dizemos no TradersClub, a operarem e se ajudarem neste processo. Esse é o legado que queremos ajudar a deixar no nosso mercado.

Por Felipe Pontes, Diretor de educação do TradersClub e Guillermo Parra-Bernal, Diretor geral da TC Mover

[1] https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1057521919304818

[2] https://tradersclub.com.br/tc-school/mercado-de-acoes/fintwit-sentimentos-e-reacoes-do-mercado/

[3] Informação retirada do livro “Kurt Cobain: a construção do mito”.

Felipe Pontes

Felipe Pontes

Diretor Educacional do TradersClub

Doutor em Contabilidade com foco em informações contábeis para o mercado de capitais pelo Programa UnB/UFPB/UFRN.
Professor de Contabilidade e Valuation.
Gestor de Clube de Investimento.

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