10/06/2020 às 5:00

Remuneração de executivos no Brasil – Entenda os fatores determinantes

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Nesse texto, vamos lançar luz sobre os principais aspectos que influenciam a remuneração de executivos no Brasil. Para tanto, abordaremos os seguintes tópicos:

  1. Remuneração de executivos – quais os fatores determinantes?
  2. Pesquisa realizada – quais as variáveis influenciam a remuneração dos executivos no Brasil.
  3. Relevância do tema – Por que os investidores devem estar atentos a estes fatores.

Boa leitura!

Remuneração de executivos

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Investigando os determinantes da remuneração de executivos

Antes de tudo, você já se perguntou quais os fatores determinantes das remunerações, sejam elas fixas ou variáveis, recebidas pelos executivos das companhias listadas na B3? Para te ajudar a responder a essa pergunta, analisamos a influência de determinadas variáveis na concessão das diversas formas de remunerações existentes, em especial:

  • Salário
  • Bônus
  • Participação nos Resultados e nos Lucros (PRL)
  • Planos de remuneração baseados em ações (stock options)

Com base na literatura, elegemos um conjunto de variáveis inerentes à abordagem do poder gerencial, assimetria de informações, risco moral e ações discricionárias. Sendo assim, examinamos, de forma estendida, os aspectos potencialmente influenciadores dos diferentes tipos de remunerações dos executivos.

A seguir, será possível conhecer como a pesquisa foi desenvolvida, o que descobrimos com ela e que ensinamentos podem ser extraídos.

O passo a passo da pesquisa

O primeiro passo foi coletar dados das remunerações dos executivos e do conselho de administração, da diretoria e da firma, presentes nos formulários de referências. Além desses, foram coletados dados referentes ao desempenho econômico-financeiro das empresas.

A coleta de dados abrangeu o período 2010-2016, que contempla o ano inicial das obrigatoriedades da divulgação dos dados de remuneração no formulário de referência. Entretanto, dada a necessidade de defasar algumas variáveis, isso com base em pesquisas científicas que sugerem que as remunerações dos executivos são influenciadas pelo resultado do exercício anterior, a análise residiu no período de 2011 a 2016.

Coleta dos dados

No âmbito da coleta, excluímos as companhias do segmento financeiro, por possuírem características específicas e atividades distintas das demais. Nesse sentido, também foram excluídas as companhias que não apresentaram todos os dados necessários para a realização da pesquisa. Dessa forma, a amostra final do estudo compreendeu 162 companhias.

Modelagem dos dados

O passo seguinte foi estimar modelos estatísticos para cada forma de remuneração concedida, abrangendo o mesmo conjunto de variáveis independentes. Aqui, selecionamos variáveis a partir das contribuições de aportes teóricos como teoria da agência, teoria dos contratos (Nova Economia Institucional) e poder gerencial.

Análise das variáveis

Para dinamizar o estudo, as variáveis independentes foram divididas da seguinte forma:

  • Características da firma – idade, oportunidade de crescimento, valor da firma, rentabilidade, tamanho, nível de governança corporativa e de gerenciamento de resultados.
  • Conselho de administração – grau de independência, número de conselheiros que fazem parte de conselhos de outras empresas (board interlocking), tamanho, existência de comitê de remuneração, existência de presidentes que já foram membros da diretoria e dualidade do CEO.
  • Diretoria executiva – existência de um diretor que é fundador da companhia ou que é membro da família fundadora, tempo de exercício no cargo, mudança de membros da diretoria (turnover), idade dos membros, participação acionária dos diretores, nível de formação acadêmica, gênero, relações de parentesco, diretores eleitos pelo controlador e tamanho.

Após a estimação dos modelos estatísticos, descobrimos o que será apresentado a seguir.

Determinantes da remuneração de executivos

No âmbito da firma, as seguintes variáveis influenciaram de forma significativa as diferentes formas de remuneração de executivos:

  • idade e tamanho,
  • oportunidade de crescimento do exercício anterior,
  • valor de mercado atual e do exercício anterior,
  • rentabilidade atual e do exercício anterior e a
  • presença em níveis diferenciados de governança corporativa

Além disso, em relação ao conselho de administração, a influência residiu na independência e tamanho do conselho, board interlocking, existência de comitê de remuneração, dualidade do CEO e presença de ex-diretor presidindo o conselho.

Por fim, tratando-se da diretoria, com exceção da variável turnover, todas as outras exerceram influência sobre a concessão de remunerações para os executivos.

Influência de cada variável analisada

A análise da remuneração de executivos busca refletir sobre os diferentes elementos inerentes às estruturas das companhias. Além disso, exige considerar os objetivos e a natureza das formas de remuneração concedidas, culminando em diferentes resultados quando olhamos para o tipo de compensação.

Idade da empresa

A idade da firma influencia negativamente todas as formas de remuneração, com exceção da PRL. Dessa forma, sugere-se que firmas com maior tempo de registro na CVM podem ter construído estruturas de governança mais sólidas. Além disso, firmas com esta característica podem apresentar maior alinhamento de interesses devido à continuidade no mercado, não recorrendo aos pacotes excessivos de remuneração.

Tamanho

Por sua vez, o tamanho da firma influencia positivamente todas as formas de remuneração, com exceção da PRL. Isso denota, portanto, que a complexidade das ações, dos negócios e do volume de informações exige maiores esforços dos executivos, suscitando maiores níveis de remuneração.

Governança corporativa

Os níveis diferenciados de governança influenciam positivamente a PRL e a concessão de stock options. Assim sendo, empresas inseridas nesses níveis possuem preocupação de conceder remunerações ligadas à geração de resultado e maximização de valor com vistas a alinhar interesses. Além disso, reflete a preocupação em garantir que as ações tomadas pelos executivos assumam um caráter de longo prazo.

Presença de mulheres na diretoria

A presença de mulheres na diretoria influencia positivamente a remuneração fixa, o que pode estar atrelado a menor oferta de mulheres dispostas a assumir esse cargo. Sendo assim, aumenta-se o poder de barganha nas negociações de salários.

Formação acadêmica

Já o nível de formação acadêmica influencia negativamente a remuneração fixa. Nesse sentido, outros aspectos, como a expertise no segmento, podem adquirir maior importância na determinação dos salários vis-à-vis a existência de pós-graduação. Por outro lado, essa variável influencia positivamente a concessão de stock options. Isso pode ser explicado pelo interesse das empresas em reter executivos de maior nível educacional em uma perspectiva de longo prazo.

Número de conselheiros

O número de conselheiros independentes influencia negativamente a remuneração fixa. Por outro lado, influencia positivamente PRL e stock options, demonstrando a preocupação de se alinhar a remuneração com resultados. Com base nesses achados, defende-se a necessidade de os conselhos serem independentes, uma vez que, nessas instâncias, existem aspectos que tornam o monitoramento mais frágil. Nesse sentido, pode-se mencionar o tamanho do Conselho e a dualidade do CEO, que influenciaram positivamente a remuneração fixa.

Comitês de remuneração

A existência de comitês de remuneração tem o papel de conceder remunerações mais justas, atreladas aos resultados gerados. No entanto, esses órgãos podem revelar estruturas de governança frágeis, por serem mais suscetíveis à influência dos executivos. Essa influência pode ocorrer pela própria presença desses agentes nesses comitês, fato observado em algumas empresas analisadas no estudo. Isso auxilia na compreensão da influência positiva dessa variável na remuneração fixa.

Reflexões para os investidores

Em suma, trata-se de um tema complexo e que se encontra longe de um consenso, potencializado pela existência de diferentes estruturas de remuneração. Nesse contexto, emerge a importância e a dificuldade de se estruturarem pacotes capazes de estimular o alinhamento de interesses. No contexto dessa concessão, deve levar em consideração, também, a transparência das ações e as boas práticas de governança.

Do ponto de vista dos investidores, portanto, é de fundamental importância compreender melhor os aspectos que influenciam a remuneração dos executivos. Nesse sentido, é relevante identificar, ainda, se os agentes estão utilizando de ações discricionárias para atingir pacotes mais elevados de remuneração. A compreensão da realidade do instrumento remuneratório de executivos no Brasil pode, por último, oferecer insights aos órgãos reguladores do mercado de capitais (CVM).

Além deste trabalho, vocês podem conferir outro estudo, publicado no volume 31, número 82, da Revista Contabilidade & Finanças da USP, que objetivou investigar os principais aspectos que determinaram a utilização da remuneração baseada em ações.

Vanessa Medeiros
Vanessa Medeiros
Contadora e Mestre em Ciências Contábeis
Foi professora/pesquisadora do departamento de Contabilidade da UFRN e atuou em empresa de auditoria independente.

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