06/02/2020 às 5:00

Operações Long & Short: o que é e como funcionam as estratégias?

Felipe Pontes Felipe Pontes

Vamos supor que você acredita na revolução dos bancos digitais sobre os bancos tradicionais. Neste caso, se tal cenário se confirmar, é possível imaginar que uma carteira de ações formada por ações de bancos digitais irá apresentar um maior retorno em comparação com uma carteira de ações de grandes bancos. Algo similar ao ilustrado na figura abaixo.

Como você poderia agir para lucrar com essa situação? Uma forma simples seria comprar a carteira de fintechs e esquecer a carteira dos grandes bancos. Porém, assim você estaria aproveitando apenas a parte que subiu, mas a carteira que andou de lado ou caiu não gerou rentabilidade.

E se fosse possível usar a carteira que andou de lado para financiar a compra da carteira que subiu? E se além de ganhar com a carteira que sobe, você pudesse ganhar com a carteira que cai?

Neste artigo vamos explicar o básico das operações de Long & Short. O artigo é dividido nas seguintes partes:

  1. O que é Long e o que é Short?
  2. Operações Long & Short (L-S)
  3. Exemplos de operações L-S

 

O que é Long e o que é Short?

No mercado financeiro, a operação mais básica é a compra de algum ativo. Quem investe em um ativo, espera que este ativo apresente uma valorização no futuro: ao comprar uma ação, espera-se um aumento no preço ou recebimento de dividendos.

Quem compra um título espera o recebimento de cupons ou a valorização do título. Quem investe em fundos imobiliários busca receber os aluguéis e assim por diante. O ato de comprar, ou iniciar uma operação de compra, é chamado de long.

Em compensação, alguns investidores podem acreditar que um ativo vai apresentar rentabilidade aquém do esperado, seja com os preços “andando de lado” ou quando acontece uma queda nos preços.

No caso das ações, isso pode acontecer por reduções nos fluxos de caixa esperados ou elevações no custo de capital. Em geral, o investidor que vende ações a descoberto, está fazendo uma operação de short.

Falamos sobre este tipo de operação, de forma introdutória, no texto “Aluguel de ações na bolsa de valores: é possível vender algo sem ter?

 

Operações Long & Short (L-S)

Ok, agora vamos juntar as duas operações. O long & short é uma estratégia de investimento que toma posições long (compradas) em ações que devem se valorizar e posições short (vendidas) em ações que devem se desvalorizar (ou pelo menos, “andar de lado”) – tudo na opinião do investidor.

A estratégia funciona ao explorar posições compradas em ações (ou carteiras de ações) que foram avaliadas como subvalorizadas (baratas) e ao vender ações (ou carteiras de ações) consideradas supervalorizadas (caras).

Como são identificadas empresas baratas ou caras? Neste caso, existem diversas formas de encontrar pares de carteiras e ações que estejam desvalorizadas/supervalorizadas. Alguns investidores utilizam análise técnica, outros buscam desenvolver uma análise fundamentalista. Por fim, existem técnicas quantitativas (estatísticas) adotadas para encontrar pares de ações e carteiras aptas para a aplicação do long & short.

No mercado de ações, as estratégias long & short também podem ser diferenciadas por mercados (e.g., economias desenvolvidas vs. mercados emergentes) por estratégia setorial (e.g., Fintechs vs. Bancões, Locadoras de DVD vs. Serviços de Streaming, Energias renováveis vs. Não-renováveis) ou por estilos de investimento (e.g., Carteiras compostas por ações de valor vs. Carteiras de ações de crescimento, Ações de Small Caps vs. ações de Blue Chips, Ações de alta rentabilidade vs. Baixa rentabilidade), e assim por diante.

 

Exemplos de operações L-S

Vamos supor que você monte uma Carteira A em posição comprada. Você acredita que esta carteira performará bem ao longo dos próximos meses. Em seguida, você também montou uma outra Carteira B, da qual você acredita que performará ruim. Neste caso, você pode vender as ações da Carteira B e utilizar o dinheiro para comprar ações da Carteira A.

No final, do período, você encerra a operação. A diferença entre a operação vendida e compra foi de R$ 100 mil. Obviamente, esse é um exemplo hipotético. O grande desafio é estimar a carteira que subirá mais que a outra. É preciso lembrar que as operações vendidas geram taxa de aluguel.

Abaixo, temos alguns exemplos de estratégias de long & short. É preciso lembrar que os exemplos servem para ilustrar a estratégia. É obvio que muitas delas não deram certo e geraram perdas. Assim como é obvio que algumas estratégias geraram ganhos, mas isso não quer dizer que sempre irão funcionar.

 

Long & Short em Mercados

Na figura abaixo, temos uma operação long & short do mercado nacional vs. mercado americano. Vamos supor que o investidor decidiu entrar long no Ibovespa e short no S&P500. Ou seja, temos aqui dois grandes índices que representam os mercados de ações do Brasil e dos EUA.

 

Leia mais sobre os índices do mercado nacional no nosso artigo “Índices do Mercado de Ações Brasileiro: entenda o Ibovespa, IBrX e IBrA”. Os índice de mercado dos EUA são tratados no nosso artigo “Índices do Mercado de Ações Americano: S&P 500, Dow Jones e Nasdaq”.

 

Uma forma de viabilizar essa operação é por meio dos Exchange-Traded Fund (ETFs): BOVA11 e IVVB11. Logo, abaixo apresentamos o retorno comparado dos dois investimentos para o ano de 2018, iniciando no primeiro dia útil do ano.

 

 

Perceba que tanto o BOVA11 quanto IVVB11 subiram no período. Logo, quem usou o capital da posição vendida no IVVB11 para financiar a compra do BOVA11, provavelmente, perdeu dinheiro. O gráfico abaixo, apresenta o prêmio das duas operações (ou seria a não existência de prêmio?).

 

Long & Short em Setores

Para ilustrar a situação de um long & short setorial, adotamos o exemplo de uma estratégia que compra ações de fintechs e vende uma carteira igualmente ponderada dos grandes bancos.

Na carteira de Bancos Digitais, escolhemos o único banco digital com capital aberto em 2018 na B3: o Banco Inter (BIDI4). As ações mais líquidas deste banco são negociadas em forma de units, por isso o final 11 no código da operação (leia mais sobre units no nosso artigo “Units: o que são, por que existem e como são compostas essas ações especiais da bolsa?”).

Na carteira dos bancões, decidimos realizar um short nos bancos Itaú (ITUB4), Banco do Brasil (BBAS3), Bradesco (BBDC4) e Santander Brasil (SANB4). Escolhemos as ações mais líquidas de cada um com base no volume negociado.

O gráfico abaixo ilustra o desempenho das duas carteiras, supondo que o investidor montou a operação no dia 14 de maio de 2018 (não existiam dados anteriores para o BIDI4).

Abaixo, temos o prémio prêmio das duas operações. Note que neste caso, a operação de long & short foi extremamente bem-sucedida.

 

Long & Short por estilos de investimento

Existem diversas opções de long & short por estilos de investimento, como por exemplo:

  • Smallcaps vs. Blue Chips
  • Valor vs. Crescimento
  • Alta Rentabilidade vs. Baixa Rentabilidade

A escolha dessas estratégias é feita por critérios de risco e valuation: empresas Small Caps deveriam ser mais arriscadas e gerar maiores retornos esperados. De acordo com a análise fundamentalista, empresas de valor, provavelmente estão desvalorizadas em relação às empresas de crescimento. Empresas de alto ROE, possuem maior rentabilidade esperada em relação às empresas de baixo ROE.

Abaixo, temos uma forma de viabilizar a operação Smallcaps vs. Blue Chips: a comparação de uma operação long no ETF SMAL11 – um ETF que segue o índice Small Caps da B3 – e short no ETF PIBB11 – um ETF que segue o índice IBrX 50, composto pelas 50 maiores empresas da Bolsa brasileira.

Abaixo, temos o prêmio da operação. Note que neste caso, a operação de long & short só gerou rentabilidade a partir de julho de 2018. Os investidores que zeraram a operação em qualquer período entre janeiro de 2018 até julho de 2018, acabaram perdendo dinheiro.

 

Long & Short em pares de ações

Por fim, também é possível realizar operações com pares de ações. No exemplo abaixo, temos uma operação bastante comentada no ano de 2019: o long & short de duas ações das varejistas Via Varejo S.A. (VVAR3) vs. Magazine Luíza S.A. (MGLU3).

Por fim, temos o prêmio das duas operações. Neste caso, a operação de long & short apresentou boa rentabilidade no final da operação. Principalmente, após o rally da bolsa em dezembro de 2019.

 

Conclusão

Operações long & short são comuns em fundos de investimento e são realizadas por investidores que já possuem conhecimento sobre as dinâmicas e o funcionamento dos mercados. Para realizar essas operações, é preciso estimar o valor futuros das ações ou do grupo de ações para escolher qual será comprada e qual será vendida.

Operações bem-sucedidas geram retornos acima do mercado, já que a ponta vendida é usada para financiar a ponta comprada. Porém, em operações cujas duas pontas caminham juntas (e.g., tanto a ponta long, quanto a ponta short sobem), é possível que o investidor não tenha prêmio na operação.

 

Lucas Nogueira
Mestre em Finanças pelo PPGA/UFPB
Contribui com textos educativos para o TC School

Felipe Pontes

Felipe Pontes

Diretor Educacional do TradersClub

Doutor em Contabilidade com foco em informações contábeis para o mercado de capitais pelo Programa UnB/UFPB/UFRN.
Professor de Contabilidade e Valuation.
Gestor de Clube de Investimento.

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