10/12/2019 às 5:00

19 – Aluguel de ações na bolsa de valores: é possível vender algo sem ter?

Felipe Pontes Felipe Pontes

Imagine que você acredita que um carro não vale o preço cobrado no mercado (imagine que o carro apresenta componentes ruins e dificuldade de manutenção). Neste caso, o que você poderia fazer para lucrar com a possível queda do preço do carro?

Você poderia vender agora antes que ocorra uma desvalorização no futuro. Essa é a decisão comum neste ramo. Mas e se você não possuir o carro e achar que ele está caro: como ganhar dinheiro com isso?

Neste caso, você poderia alugar o carro de alguém que o possui e vender para algum interessado no carro que tenha uma visão diferente da sua. Quando o preço do carro cair, você compra um carro igual no mercado por valor menor e entrega para o dono do carro que cedeu para você em aluguel.

O lucro, dessa forma, será definido pela diferença entre o preço que você vendeu o carro menos o preço do aluguel e o preço da recompra do carro por um preço menor.

Muito bom, não é? Eu sei que este tipo de operação não faz o menor sentido! Essa operação parece estranha porque vender algo sem ter é uma decisão pouco comum ou impossível no mundo dos investimentos físicos.

Contudo, fazer essa operação no mercado de ações é completamente possível. Neste artigo, iremos falar sobre o fator que está no cerne dessa operação: o aluguel de ações. Para facilitar, o texto está dividido em três partes:

  • O que é o aluguel de ações?
  • O que motivaria uma pessoa a alugar as suas ações?
  • Apostar na queda de uma ação
  • Operação de Long & Short
  • Arbitragem
  • Aumentar o poder de voto em Assembleias
  • Dividendos, Bonificações, Subscrições e Direito de Retirada

 

É preciso lembrar que tomar ações em aluguel implica em assumir alguns custos e riscos. Algumas operações são difíceis de prever, sendo algumas operações indicadas para investidores mais experientes.

Por outro lado, você também pode ser o investidor que empresta as ações para alguém que quer vender, lucrando com o aluguel. Essa é uma forma do investidor buy & holder obter uma rentabilidade extra sem precisar vender as suas ações, porque você ganha uma taxa de remuneração por ter emprestado as suas ações.

 

O que é o aluguel de ações? 

O Aluguel de ações é um sistema no qual os investidores tomam ações que ainda não possuem, ou que emprestam as ações que possuem, mas que não pretendem vender imediatamente. Este tipo de negociação é propiciada pelo Banco de Títulos da Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia (BTC).

Assim como em um empréstimo, a transação de aluguel acontece a uma taxa de juros fixada pelas duas partes que entram na transação. No entanto, existem algumas diferenças – crucialmente, a taxa de juros é determinada pelo mercado e livre de controle. A corretora contratada irá cobrar taxas sobre este aluguel. Por isso, é importante buscar essa informação antes de realizar a operação de aluguel.

No mercado brasileiro, é possível alugar uma série de ativos. No geral, os ativos mais alugados são as ações, as units (nada mais que uma pequena cesta de ações ordinárias e preferenciais) e as ações de companhias estrangeiras com ações negociadas no Brasil, as Brazilian Depositary Receipts (BDRs). Note que não estão inclusos os Fundos de Investimento em Ações (FIAs), Multimercado (FIMs) e nem os Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) (leia mais sobre os fundos de investimento).

 

O que motivaria uma pessoa a alugar as suas ações?

Os motivos para entrar em operações de aluguel de ações podem variar de acordo com o perfil dos investidores. No geral, o investidor que disponibiliza as suas ações para alugar é chamado de doador. O doador aluga as suas ações em busca de obter uma rentabilidade extra com o aluguel. Esta rentabilidade será proporcional ao número de ações que o investidor possui em sua carteira.

Já o investidor que toma as ações do doador emprestadas é chamado de tomador. Este tomador, por outro lado, possui diversas motivações para alugar ações, como:

  • Apostar na queda de uma ação (por meio da análise fundamentalista, análise técnica, fluxo ou notícia),
  • Para operações de Long & Short(e.g., o tomador vende, ou seja, faz short em alguma empresa e compra, ou seja, faz long, em outra empresa).
  • Em adição, o investidor também poderá usar o aluguel de ações para realizar arbitragem ao encontrar disparidades nos preços das units e nas ações que as compõem.
  • Outro motivo está no uso do aluguel de ações para montar estratégias de opções.

Abaixo, temos os principais motivos para alugar ações, com alguns exemplos específicos.

 

(A) Aluguel de ações para apostar na queda de uma ação

Este é o motivo principal para alguém alugar ações. A operação de vender ações é conhecida como venda a descoberto ou short-selling. Neste tipo de operação, o investidor especula que uma ação irá cair de preço no futuro (isso é feito utilizando análise fundamentalista, técnica ou quantitativa).

Por exemplo, imagine que um investidor aposte na queda do uso do papel e decida vender as ações das empresas Suzano e Klabin (duas empresas de papel e celulose). Ele acredita que estas empresas não terão tantas oportunidades de se reinventar e a sua rentabilidade futura diminuirá devido à queda na demanda por papel e celulose.

Esse investidor alugará as ações destas empresas – pagando um preço pelo aluguel – e realizará a venda a descoberto. Em seguida, quando essa queda na rentabilidade das empresas se confirmar e os preços caírem, ele comprará as ações pelo preço de mercado e entregará ao doador das ações. A diferença entre o preço de venda antes da queda e preço da compra depois da queda (menos o custo do aluguel) é o lucro obtido pela operação de venda.

 

(B) Aluguel de ações para operações de Long & Short

Imagine que um investidor acredite que os grandes bancos nacionais sofrerão bastante concorrência com a entrada de novos bancos e fintechs. Ele também acredita que os bancos digitais são o futuro do setor financeiro. Logo, em resumo, ele acredita que o preço das ações dos grandes bancos cairá, enquanto o preço das ações dos bancos digitais subirá no futuro.

Este investidor pode tomar aluguel das ações do Itaú, Banco do Brasil, Bradesco e Santander e vender todas elas pelo preço de mercado, ou seja, entrar short nos bancões. Em seguida, ele pode usar o capital para comprar ações dos bancos digitais, ou seja, entrar em uma operação long. Daí vem o nome da operação long & short.

Note que neste tipo de operação pode dar muito errado se acontecer o inverso: caso as ações das bancões subam e as fintechs caiam, o investidor perde dinheiro com a operação e com o aluguel das ações.

Abaixo, temos uma estratégia de long & short baseada no tamanho das empresas. A estratégia aposta na subida das ações das pequenas empresas, representadas pelo índice de ações Small Caps, e na queda das ações de grandes empresas, representada pelo IBrX-50 (saiba mais sobre os índices do mercado brasileiro).

Um investidor que deseja realizar essa operação vende o Exchange-Traded Fund (ETF) PIBB11 e compra o ETF SMAL11. O gráfico abaixo apresenta o resultado da estratégia sem considerar os custos de transação, supondo que o investidor fez essa operação no começo do ano de 2019.

Note que a estratégia não foi tão eficiente, já que ambos ETFs subiram. Em adição, os custos do aluguel não foram contabilizados.  Por fim, diversas combinações de long & short são possíveis, tanto entre carteiras de ações e ETFs diversificados, quanto com ações individuais.

 

(3) Aluguel de ações para estratégias de arbitragem

Arbitragem é a compra seguida da venda simultânea de um ativo para lucrar com um desequilíbrio no preço. No geral, o arbitrador busca lucrar explorando as diferenças de preço de instrumentos financeiros idênticos em diferentes mercados ou de diferentes formas. A arbitragem existe como resultado de ineficiências do mercado e, portanto, tende a sumir rapidamente com o aumento da eficiência dos mercados.

No mercado de ações, é possível fazer arbitragem com ações units e BDRs. Por exemplo, existem ações que são negociadas tanto na bolsa brasileira, quanto na bolsa americana (e.g., Petrobras, Vale e Braskem). Existe oportunidade de arbitragem ao comprar no mercado que apresentar cotação em queda, seguida da venda das ações no mercado que as ações estão subindo (leia mais sobre os índices de ações do mercado americano).

No caso das units, a operação é similar. Uma unit é uma pequena cesta de ações negociada em bolsa. Por exemplo, o Banco Inter possui ações ordinárias e preferencias, BIDI3 e BIDI4, respectivamente. Ele também possui as units BIDI11, que são formadas por duas BIDI4 e uma BIDI3. Logo, a cotação da BIDI11 deve ser a soma dessas três ações. Existe oportunidade de arbitragem quando o preço diverge da soma das partes.

Note que essas operações exigem o monitoramento dos preços diariamente. Logo, o melhor é agir utilizando robôs que operam em alta frequência. Em adição, a operação exige que as ações tenham liquidez, já que deve sempre existir alguém para comprar e vender as ações do outro lado. Os custos de transação também devem ser contabilizados.

 

(4) Aluguel de ações para aumentar o poder de voto em Assembleias

Quando os investidores entram em uma operação de aluguel de ações ocorre a transferência temporária da propriedade do doador para o tomador. Dessa forma, se a ação alugada for uma ação ordinária (ON com direito ao voto em assembleia), este direito passa a ser exercido pelo tomador, se ele continuar com a ação durante a convocação das assembleias de acionistas.

Dessa forma, alugar ações pode ser uma forma de elevar a quantidade de votos na assembleia de acionistas sem ter que comprar as ações efetivamente. Obviamente, os acionistas majoritários que possuem o controle da propriedade não irão disponibilizar as suas ações para aluguel.

 

Dividendos, Bonificações, Subscrições e Direito de Retirada

Para onde vão os proventos da ação alugada? Neste caso, diferente dos votos, o BTC reembolsará o doador e debitará os dividendos recebidos do tomador.

Leia mais sobre como obter renda passiva com dividendos e juros sobre capital próprio.

As bonificações e demais eventos como grupamento e desdobramento são diferentes, já que o doador recebe os ativos emprestados com as quantidades ajustadas pelo número de ações.

Por outro lado, na hipótese de subscrição (direito de comprar uma ação por um preço geralmente menor direto da empresa), o BTC possibilita que o doador das ações subscreva as ações que tem direito.

Por fim, existe um fato complicador em relação ao direito de recesso. Como ele exige a propriedade ininterrupta das ações entre a véspera da data da publicação do fato relevante que motivou o direito de retirada e a data da decisão da assembleia que deliberou sobre o assunto, o investidor que tiver alugado as suas ações no período perderá o direito de retirada.

 

Conclusão

Existem diversos motivos para alugar ações. Na Tabela abaixo temos um resumo das principais vantagens e possíveis desvantagens para os doadores e tomadores.

 

Lucas Nogueira
Mestre em Finanças pelo PPGA/UFPB
Contribui com textos educativos para o TC SChool

Felipe Pontes

Felipe Pontes

Diretor Educacional do TradersClub

Doutor em Contabilidade com foco em informações contábeis para o mercado de capitais pelo Programa UnB/UFPB/UFRN.
Professor de Contabilidade e Valuation.
Gestor de Clube de Investimento.

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