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Resenha de livro: O Príncipe (Nicolau Maquiavel)

24/07/2020 às 16:00

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Nesta resenha, vamos abordar um dos livros mais famosos de todo mundo: O Príncipe, de Nicolau Maquiavel.  Para facilitar, dividi o texto nos seguintes tópicos:

  • O manual do político: todos os políticos aplicam as lições deste livro no cotidiano
  • Um livro de gestão: quais ensinamentos de Maquiavel para o príncipe?
  • Maquiavel e o nossos investimentos: por que os investidores deveriam ler esse livro?

Boa leitura!

o príncipe Maquiável

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O manual do político

Todo político, ainda que nunca tenha lido O Príncipe, aplica-o no seu dia a dia. O livro é um verdadeiro manual de como fazer política, de como jogar com elegância o jogo do poder e se dar bem.

Maquiavel escreveu O Príncipe em 1513, logo após ser banido de Florença (na Itália), que deixou de ser uma república e passou a ser governada por um Príncipe, Lourenço de Médici II. Nesse período em exílio, escreveu a obra, que segundo historiadores, foi escrita com objetivo de conseguir um “carguinho” no novo governo. No entanto, a obra somente foi publicada postumamente, em 1532.

No contexto em que foi escrita a obra, o Príncipe (ou seja, qualquer espécie de governante) não ascendia ao poder exclusivamente pelo critério hereditário. Por isso, o risco de perder o trono era real, o que ensejou a coletânea de pequenas cartas, destinadas ao novo príncipe, com dicas práticas sobre como ele deveria se portar no “novo cargo”, de modo que tivesse longevidade como príncipe. Era o Game of Thrones da vida real meus amigos!

Fonte: Tianix

A política como atividade humana

Maquiavel tratou a política de uma perspectiva que nenhum outro autor tinha abordado até então. A partir de Maquiavel, a política deixa de ser analisada como uma questão divina, um presente de Deus, e passa a ser vista como uma atividade humana, em que é necessária a estratégia certa para manutenção do poder.

Por isso seu livro se tornou um clássico. Ele fala a linguagem simples, ensina o “arroz com feijão”, fala a língua do povo, com conceitos simples e prontamente aplicáveis pelo Príncipe para permanecer sentadinho na cadeira do poder. Basta ler o livro para enxergarmos isso… lemos um livro escrito no século XVI, em pleno século XXI, com uma facilidade incrível. Não espanta, portanto, o sucesso que a obra possui.

O Príncipe: um livro de gestão

Além disso, o livro não se aplica apenas aos assuntos da política. Se você é um gestor de equipes, um empreendedor ou tem algumas pessoas trabalhando sob sua tutela, seguramente muitos dos ensinamentos (óbvio, desde que devidamente contextualizados!) são úteis para você.

O que chama atenção é o fato de que as “dicas” que Maquiavel dá ao Príncipe não são aquelas que tradicionalmente pensaríamos…”seja bondoso, honesto, fale sempre a verdade…”, nada disso! No livro, o que vemos, são recomendações para que o Príncipe faça todo o possível para manter-se no poder, falseando a verdade quando necessário. Manipulando, usando o temor para garantir a paz do seu Estado, dentre outros, porque os homens são ingratos e infiéis, por isso razão não há para ser diferente com eles.

O que Maquiavel ensina ao príncipe?

O livro é repleto de ensinamentos objetivos ao príncipe, os quais evidentemente são úteis para que nós saibamos nos defender da lábia empregada pelos políticos. Não é possível analisar todos, mas vejamos 7 ensinamentos importantes extraídos da leitura.

Problemas do Estado são como a tuberculose

Quando se trata de assuntos do Estado, o bom gestor (Príncipe) deve ter a habilidade de se prevenir da ocorrência de problemas. Para Maquiavel, problemas do Estado são como a tuberculose: no início, o mal é fácil de curar, mas difícil de detectar. Sem o tratamento, e com o passar do tempo, o diagnóstico se torna muito fácil, mas difícil de tratar. Em assuntos do Estado (de empresas, de negócios, etc.) o princípio é o mesmo.

Quanto mais sábio é o Príncipe, maior sua habilidade de prevenir problemas que possam o atrapalhar futuramente, e que demandarão mais recursos (guerra, mortes, maiores impostos, etc.) para serem solvidos.

Muito cacique pra pouco índio é confusão na certa

Quando o príncipe não toma as rédeas da gestão do Estado, dando muito poder a Ministros e outros asseclas, seu governo corre risco, pois o povo precisa obedecer a um só senhor, e desde que não seja oprimido, irá amá-lo. Quando muito poder é dado a assessores do Príncipe, o povo fica confuso sobre quem é, de fato, seu senhor, o que pode trazer muitos problemas ao Príncipe. Nesse sentido, Maquiavel cita o exemplo da França, com seus diversos barões locais, que faziam com que o rei tivesse pouca autoridade.

Por isso o poder deve ser altamente concentrado, para que o povo perceba, nitidamente, quem é o seu senhor e a quem ele deve obediência.

P.S.: nesse sentido, nossos governantes parecem ter entendido bem a mensagem de Maquiavel. É comum que, toda vez que um ministro ou um assessor começa a ganhar destaque, o governante sumariamente corte o sujeito. Governantes aplicando Maquiavel.

O mal deve ser feito de uma só vez, e a bondade administrada aos poucos

Todo príncipe deve saber como fazer o mal, e fazê-lo ou não de acordo com a necessidade. Esse princípio se aplica a todo governante, gestor ou pessoa em posição de liderança. O gestor não pode passar a impressão de que é “liberal demais”, pois isso será a sua ruína.

Por isso, o político inteligente, na visão Maquiavélica, deve fazer o mal todo de uma vez, e a bondade deve ser administrada aos poucos, para que o povo possa melhor apreciá-la. Justamente por isso, ao sentar na cadeira do poder, o Príncipe deveria propor todas as reformas necessárias de uma vez, goela abaixo. Isso seguramente fará com que o povo fique um pouco contrariado, porém, uma vez realizadas no começo, e de uma vez só, podem ser compensadas com benefícios administrados em doses homeopáticas posteriormente.

Além de que, os homens (e aqui, meninas, vocês também estão contempladas!) têm memória fraca e lembram-se mais dos poucos benefícios concedidos recentemente do que de todo o mal infligido anteriormente.

Isso explica porque em todo início de mandato logo vemos o chefe do Executivo propondo alguma reforma. São os princípios de Maquiavel sendo aplicados.

A regra de ouro para manter o poder

Maquiavel fala ao Príncipe que, acima de todas as coisas, não se deve oprimir o povo. A estrutura da sociedade é estabelecida, desde os primórdios, para que sempre haja, em qualquer assunto, alguém que se vê como oprimido, e alguém que se vê como opressor. O papel do príncipe, nessa dualidade, é mediar as tensões de forma que o povo não se sinta oprimido, o que, eventualmente, demandará alguma habilidade em negociar com os “opressores” e fazer algumas concessões estatais para acalmar os ânimos.

Se bem explorado esse aspecto, o povo verá o príncipe como o provedor de segurança e estabilidade do Estado, e precisará dele (do Príncipe e do Estado) para ter direitos básicos, como proteção, saúde e outros. Com isso, o Príncipe sábio deve fazer com que o povo sempre e em qualquer situação precise do Estado, e veja na figura do Príncipe o provedor desses benefícios, de tal forma que o Estado e o Príncipe até mesmo se confundam. Fazendo isso, o Príncipe terá sempre o povo em suas mãos.

Esse princípio é muito visível nas práticas populistas da nossa querida América Latina (sim, aquela que tem as “veias abertas”!). Não são raros os exemplos de presidentes que quiseram se confundir com a própria figura do Estado, e usaram (e usam ainda hoje) práticas populistas para controlar a massa. Santo Maquiavel, dando a receitinha do bolo na mão dos políticos.

A importância do Exército

Maquiavel fala que o Príncipe não deve proteger o reino com milícias ou mercenários, e sim deve possuir sua própria armada. Este ensinamento é fantástico e se aplica para o Estado, para empresas, enfim, para muitas situações. Diz respeito à confiança, sobre poder contar com as pessoas certas na hora do enrosco. Maquiavel disse que a Itália do séc. XVI “chegou aonde chegou” (a situação estava feia) por entregar sua proteção à milícias e soldados mercenários, pois não tinha uma armada própria. Isso propiciou diversas invasões e muito caos à época.

Com isso, o Príncipe não deve confiar a segurança do seu reino a esse tipo de agentes, princípio que vale para as empresas e negócios. Você não pode confiar em pessoas que não “jogam o mesmo jogo” que você, que não tem a mesma visão e não tem os mesmos objetivos.

Isso porque em todo o caso o Príncipe estará em maus lençóis com esse tipo de gente: se vence a guerra com esse tipo de milícias, estará prisioneiro delas para sempre. Se fracassa, dificilmente sobrará pedra sobre pedra, pois eles não lutarão pelo seu Príncipe como uma armada própria faria.

Por isso é preciso formar um exército (um time de executivos, um grupo de empregados, etc.) confiável, em que se possa confiar na hora da dificuldade. E por isso, no âmbito do Estado, que os políticos adulam tanto o Exército. Na hora das reformas, sempre dão um jeitinho de beneficiar a turma verde-oliva. Claro, nada mais lógico.

Voltando à obra, ao ser oferecida ajuda por alguma forma de milícia, o Príncipe deve fazer como Davi ao recusar a armadura dada por Saul para a luta com Golias. É melhor contar com seus próprios recursos do que depender de terceiros. Esse é o grande ensinamento desta passagem do livro.

É melhor ser temido ou ser amado?

Ser as duas coisas não é possível, portanto, para Maquiavel, é melhor ser temido, pois os homens têm menos escrúpulos em ofender quem amam do que quem temem, pois o amor é preservado pelo vínculo da obrigação, que, por serem os homens maus, é quebrado quando necessário, mas o medo os mantém unidos, devido ao pavor do castigo, que jamais vai embora. Que aula senhores, que aula! Porém, o temor que o príncipe deve infligir deve ser tal que não desperte o ódio no povo.

Por isso, o temor pode levar o príncipe mais longe do que o amor. Claro que contextualizando o tema para os dias atuais, talvez existam algumas ressalvas, e nem em todo tipo de situação ou organizações esse princípio seja plenamente válido.

Maquiavel

Fonte: me.me

A raposa e o leão

Aqui Maquiavel fala da manutenção, ou não, da palavra pelo príncipe. Segundo o autor, o príncipe não deve manter sua palavra quando isso possa, de alguma forma, lhe trazer algum prejuízo ou quando as circunstâncias que existiam à época da promessa não existem mais. Por outro lado, ele deve ser hábil o suficiente para, com astúcia, transtornar o intelecto dos homens e dissuadi-los das promessas que fez.

Por isso, o príncipe deve ser como a raposa, que sabe como escapar de armadilhas, e também como o leão, que sabe aterrorizar os lobos, usando um ou outro de acordo com as circunstâncias.

A não manutenção da palavra geraria algum problema para o príncipe caso os homens fossem inteiramente bons, porém, como eles são maus e não mantém sua palavra para com o príncipe, não há razão do príncipe manter sua palavra para com os homens.

Essa quebra de palavra, no entanto, deve ser feita com muita astúcia, e a todo momento o príncipe deve dar a impressão de que sua palavra é uma rocha indestrutível, para que os homens não sintam dúvida em relação ao príncipe.

Em especial o príncipe deve aparentar ter piedade, fé, humanidade, integridade e religião. Não importa se não possui essas características, mas é essencial para a governabilidade que aparente tê-las.

Esse capítulo parece ter sido escrito olhando para o Brasil, não é verdade? Essa cartilha, sem dúvida, é seguida ipisis literis pelos políticos brasileiros.

O sujeito maquiavélico

Após a publicação da obra, Maquiavélico tornou-se um adjetivo e designa pessoas falsas, astutas, diabólicas. Porém, sejamos justos com Maquiavel…ele não foi o inventor dessas táticas de fazer política. Elas já existiam há séculos e ele foi apenas a pessoa com a sabedoria suficiente para fazer a compilação e formalizá-las por escrito.

Por que os investidores deveriam ler esse livro?

Ora jovem gafanhoto(a), a relação do investidor com o Estado é umbilical. Qualquer movimento estatal, por menor que seja, é suficiente para causar um verdadeiro rebu nas empresas que investimos. Novas imposições legislativas, um novo tributo, uma regulação setorial, enfim, qualquer ação do Estado tem potencial para interferir nas nossas empresas, o que demandará ajustes no portfólio.

Entender a lógica do pensamento dos representantes do Estado é, portanto, fundamental. O Príncipe proporciona isso. Ele oferece uma visão tridimensional da lógica de funcionamento do Estado e seus representantes, por isso a leitura é tão importante.

É como na arte da guerra: Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Portanto, conhecer o inimigo (Estado), pode contribuir muito para a adoção da melhor estratégia de investimentos. É óbvio que nossa “batalha” com o Estado é metafórica, pois não temos forças para vencê-lo, porém, ao conhecer seus meandros, podemos pensar na melhor estratégia de defesa.

É um livro nota 10, curtinho (edição eu li tem 206 páginas) e um clássico, que por si só, vale a leitura.

André Sekunda
André Sekunda
Professor Universitário com Mestrado em Contabilidade
Contribui com textos educativos para o TC School.

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