TC School / Livros

Resenha de livro: Democracia, o Deus que falhou

07/08/2020 às 15:00

TC School TC School

Mais uma semana chegando ao fim, sabe o que isso significa? É dia de resenha no TC School! O texto de hoje é sobre um livro bastante polêmico, escrito por Hans-Hermann Hoppe: Democracia, o Deus que falhou. Para facilitar o entendimento, o artigo está dividido nos seguintes tópicos:

  • Democracia: dos males o menor
  • Democracia: perfeita ou não, eis a questão
  • Conclusão: a democracia é um Deus que falhou?
  • Reflexão: este é um livro para investidores?

Boa leitura!

Leia outras resenhas de livro no TC School:

Democracia: dos males o menor

Já dizia Winston Churchill que a democracia é a pior forma de governo, com exceção de todas as demais. No livro Democracia, o Deus que falhou, Hans-Hermann Hoppe faz, talvez, uma das críticas mais contundentes à democracia, que ganhou força em todo o mundo após a revolução francesa de 1789. Surgindo como um novo regime, sob a promessa de acabar com o absolutismo monárquico e restabelecer liberdades individuais.

O livro é organizado em 13 capítulos, que segundo o próprio autor, podem ser lidos “fora de ordem”, sem nenhum prejuízo à adequada compreensão do texto. É importante sabermos que o autor, no livro, faz uma defesa aberta ao anarcocapitalismo, sendo, inclusive, saudado fortemente como ícone dessa ideologia por defensores desta corrente. Embora o título do livro possa sugerir que o autor, ao criticar a democracia, faz uma defesa ao retorno da monarquia, ele deixa claro que não é esse seu objetivo, mas sim a instauração de uma sociedade sem Estado. Porém, também diz que, entre a democracia e a monarquia (não a absolutista), a monarquia é preferível. Isso fica evidente ao longo de toda a leitura.

Democracia: perfeita ou não, eis a questão

Mas qual o problema da democracia, segundo Hoppe? São vários problemas, discutidos à exaustão no livro. Porém, o foco dado pelo autor, segundo minha leitura, é na destruição gradativa da propriedade privada, causada pela democracia. Isso acarreta uma série de outros problemas, como distribuição forçada de renda (expropriando a propriedade de uns em favor de outros), políticas de imigração “frouxas”, em que “qualquer um” é aceito em qualquer país, com pouquíssimos controles, dentre muitas outras mazelas que, segundo o autor, vem à reboque da democracia.

A redistribuição de renda e a dilapidação patrimonial

A questão da redistribuição de renda é um dos pilares da discussão sobre a dilapidação patrimonial causada pela democracia. Isso porque é afável aos ouvidos de quase todo mundo a ideia de pegar um pedaço do patrimônio de quem tem para distribuir a quem não tem. Isso, para Hoppe, constitui um grande incentivo à inércia, à estagnação, pois aqueles indivíduos “mais capazes” se sentirão encorajados a produzir cada vez menos. Dessa forma, saindo da posição de geradores de riquezas para a posição de recebedores de riquezas daqueles que a geram. No limite, isso produz um país com baixos níveis de inovação, afetando a geração de riquezas e desaguando no empobrecimento.

A redistribuição de renda e a preferência temporal

Políticas de distribuição de renda afetam, ainda, a preferência temporal de uma sociedade, o que afeta seus níveis de poupança. É de se esperar que uma sociedade próspera possua uma baixa taxa de preferência temporal, ou seja, poupe recursos e invista-os para utiliza-los no futuro. Porém, com os ditames democráticos e a expropriação patrimonial para distribuição aos “mais pobres”, a taxa de preferência temporal da sociedade cresce vertiginosamente. Isso faz com que as pessoas parem de pensar no longo prazo e pensem apenas de forma imediata, dado que não haverá incentivo à poupança por conta da expropriação patrimonial perpetrada pelo Estado. Segundo o autor, no regime monárquico, o aumento da taxa de preferência temporal dos indivíduos ocorre em um ritmo muito menor do que na democracia.

Democracia e os aumentos de carga tributária e endividamento

Hoppe ainda tece duras críticas à democracia no sentido de que após a instauração das democracias no pós-1918 houve um aumento vertiginoso da carga tributária. Além disso, processos inflacionários se espalharam pelas democracias após a substituição do padrão-ouro pelas moedas fiduciárias.

Ainda, sob os auspícios da democracia, a dívida soberana dos países cresceu em níveis nunca vistos, uma vez que o presidente, por ser apenas um zelador constitucional e temporário, não tem interesse com objetivos de longo prazo com a nação. Enquanto isso, o monarca respondia pessoalmente com seus bens no caso de inadimplência do reino, o que garantia sempre níveis de endividamento razoáveis.

Democracia e outros problemas

A democracia e sua política de livre imigração são, segundo o autor, incompatíveis com o livre comércio, pois em uma sociedade livre, ninguém poderia ser obrigado a conviver com indivíduos com os quais não concorda que permaneçam no país. Para o autor, apenas poderiam imigrar para o país pessoas à convite de um residente, que se responsabilizaria pessoalmente por todos os danos que o visitante eventualmente causasse.

Hoppe tece, ainda, críticas ao liberalismo, e argumenta que a posição liberal de aceitar um “governo mínimo” é responsável por todo o descrédito que essa corrente de pensamento econômico possui atualmente. Para Hoppe, a derrocada do liberalismo ocorreu quando, em sua doutrina, admitiu a existência de um governo mínimo, o que é incompatível, inclusive, com as ideias liberais.

Conclusão: a democracia é um Deus que falhou?

Além dessas, Hoppe tece muitas críticas à democracia, as quais não são citadas, todas, por falta de espaço. Se trata de uma leitura “pesada”, densa, com grande profundidade e que exige dedicação. Não é aquele livro para se ler em um fim de semana.

À primeira leitura, o texto é pesado, e em muitos momentos soa com um tom preconceituoso. Ao discutir questões como imigração, o tom empregado pelo autor é bastante forte e contundente, o que pode assustar o leitor no primeiro contato.

Apesar da qualidade da discussão e dos argumentos empregados por Hoppe, penso que a construção argumentativa feita pelo autor é, no mínimo, ingênua. O autor parte de pressupostos fortes, como de que os homens são capazes de viver em uma sociedade sem qualquer intervenção do Estado e se autorregular, que a segurança pública poderia ser feita por empresas seguradoras, dentre outras.

Nitidamente, o autor escreve um texto normativo, ou seja, não parte da realidade, mas sim idealiza uma sociedade anarcocapitalista nunca vista. Além disso, indica com grande riqueza de detalhes como ela deveria funcionar, pouco levando em consideração a sociedade como ela é atualmente.

É óbvio que a proposição do autor é justamente criticar a democracia e indicar, segundo sua visão, como deveria ser uma sociedade sem Estado. Entretanto, ao ficar inteiramente no mundo idealizado, o texto perde um pouco da sua verossimilhança.

Reflexão: este é um livro para investidores?

Este é um livro que discute uma parte importante do funcionamento da sociedade capitalista. Em especial os processos de redistribuição de renda constituem ponto de relevante interesse ao investidor, que antes de investir suas economias deixa parte da riqueza gerada na mão do Estado, que fará a distribuição desse recurso conforme seus interesses. Além disso, muitos pontos discutidos pelo autor afetam questões econômicas, como livre imigração, livre comércio, regulação estatal, críticas ao liberalismo, dentre outros, que são muito úteis a quem deseja pensar o capitalismo com mais qualidade, em especial o investidor.

Como seria o funcionamento de uma sociedade sem o Estado? Como ficaria a questão dos impostos? Quem construiria as estradas? Essas são perguntas que, talvez, seu “eu-investidor” já tenha feito. Todos esses pontos, ainda que discutidos com um tom normativista, são abordados por Hoppe no livro.

Uma compreensão dos argumentos que embasam essa discussão pode aumentar seu portfólio de ideias para propor mudanças em direção a uma sociedade “mais livre” (ou, quem sabe, sem Estado?). Porém, para que se discutam temas nessa direção, é preciso ter argumentos, e pode-se encontrar alguns no livro.

Embora com algum grau de utopia em alguns argumentos, julgo que é um bom livro, com uma crítica muito contundente à democracia que merece ser lida. Dessa forma, não ficaremos repetindo aquele argumento clichê de que “a democracia é o melhor regime existente”. Será mesmo? É isenta de críticas? O livro mostra que não.

No conjunto da obra dou uma nota 7,0 (em especial pelo caráter normativo do texto), ressaltando que é um texto que deve e merece ser lido. E você, acha que a Democracia é um Deus que falhou?

André Sekunda
André Sekunda
Professor Universitário com Mestrado em Contabilidade
Contribui com textos educativos para o TC School.

TC School

TC School

Disclaimer: Este material é produzido e distribuído somente com os propósitos de informar e educar, e representa o estado do mercado na data da publicação, sendo que as informações estão sujeitas a mudanças sem aviso prévio. Este material não constitui declaração de fato ou recomendação de investimento ou para comprar, reter ou vender quaisquer títulos ou valores mobiliários. O usuário não deve utilizar as informações disponibilizadas como substitutas de suas habilidades, julgamento e experiência ao tomar decisões de investimento ou negócio. Essas informações não devem ser interpretadas como análise ou recomendação de investimentos e não há garantia de que o conteúdo apresentado será uma estratégia efetiva para os seus investimentos e, tampouco, que as informações poderão ser aplicadas em quaisquer condições de mercados. Investidores não devem substituir esses materiais por serviços de aconselhamento, acompanhamento ou recomendação de profissionais certificados e habilitados para tal função. Antes de investir, por favor considere cuidadosamente a sua tolerância ou a sua habilidade para riscos. A administradora não conduz auditoria nem assume qualquer responsabilidade de diligência (due diligence) ou de verificação independente de qualquer informação disponibilizada neste espaço. Administradora: TradersNews Informação & Educação Ltda. Todos os direitos reservados.

TradersClub

O app essencial para investidores do mercado financeiro brasileiro.

Uma comunidade com milhares de investidores, ferramentas e serviços que vão ajudar você a investir melhor!

TradersClub