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Pare de acreditar no governo (Bruno Garschagen)

26/06/2020 às 15:00

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Nesta resenha, falarei do livroPare de acreditar no governo” escrito por Bruno Garschagen. Para comentar sobre o livro, abordarei os seguintes tópicos:

  • O brasileiro e o estado – um caso de amor
  • Um carimbo “sinhô”, por favor – a presença massiva do estado em nossas vidas
  • Por que os investidores deveriam ler este livro?

Boa leitura!

pare de acreditar no governo

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O brasileiro e o Estado: um caso de amor

Ah o caso de amor entre o brasileiro e o Estado…é coisa antiga, hein!? Afinal, o brasileiro A-DO-RA um Estado grande, provedor e paternalista. Entretanto, como é possível que, mesmo tendo uma “quedona” pelo Estado, o brasileiro tenha tanta repulsa pelos políticos (que gerem o Estado)!? É este o paradoxo que Bruno Garschagen discute no livro “Pare de acreditar no governo“.

É “história antiga”

A princípio, o autor inicia a jornada visando entender este paradoxo com a chegada de Cabral ao Brasil, nos idos de 1500. Como todos sabemos, o descobrimento da terrae brasilis foi registrado pelo nosso ilustre escrivão Pero Vaz de Caminha, que aproveitou a oportunidade de escrever ao Rei de Portugal anunciando o descobrimento do Brasil para pedir um pequeno favor pessoal, que Vossa Majestade mandasse buscar seu genro, Jorge d’Osouro, que estava exilado nas ilhas São Thomé. É meus amigos, o “jeitinho brasileiro” vem de berço.

Um compêndio de história do Brasil

No livro, o autor expõe o caso de amor entre o brasileiro e o Estado desde o descobrimento até o fim do Governo Dilma Rousseff. É explicado, sucintamente em cada uma das fases da nossa história, quais foram os meandros empregados pelos nossos governantes para implementar ações que conduziram ao aumento do Estado. Consequentemente, ao intervencionismo (econômico, político, social e cultural) e como o brasileiro passou a gostar de contar com a assistência do “pai Estado” para tudo, sendo um processo que se retroalimenta, fazendo com que, quanto mais Estado o povo peça, mais Estado se faz necessário, em um loop infinito.

Desta forma, o livro conta boa parte da nossa história desde o descobrimento, com grande riqueza de detalhes e alicerçado em fatos históricos, o que permite àqueles que não conhecem bem a história brasileira terem um ótimo panorama histórico.

Desvio de foco

Nesse sentido, penso que o autor desvia, de certa forma, o foco do livro. Pela capa, somos levados a acreditar que desde a primeira página veremos discussões sobre o paradoxo amor ao Estado x ódio aos políticos, porém, esse ponto específico é tratado lá no último capítulo. É aquela velha máxima: nunca devemos julgar um livro pela capa. É óbvio que toda a reconstrução histórica realizada pelo autor é importante para o adequado entendimento do ápice da discussão no último capítulo, porém, talvez pudesse ser um pouco abreviada.

Um carimbo “senhô”, por favor

E por que o brasileiro gosta tanto do Estado? Ora, desde o descobrimento somos obrigados a depender dele para tudo. É ele quem decide se vai ou não bater o carimbo para você abrir uma empresa, se vai ter ou não alvará, se a licença será ou não aprovada. Enfim, nos acostumamos, forçosamente, a depender do Estado para tudo.

Além disso, nas camadas mais pobres da sociedade a situação é ainda pior, pois o Estado é visto como o provedor de saúde, educação, segurança, habitação, lazer, cultura, alimentação, emprego, direitos sociais e trabalhistas, enfim, ele é visto como o pai que não deixa faltar nada a seus filhos. É claro que tamanha participação desse “pai presente” na vida dos seus filhos vai gerar uma relação de amor incondicional.

Eu sei que atrapalho sua vida, mas é na melhor das intenções

Essa intervenção do Estado nas nossas vidas é, nas palavras do autor, apresentada à sociedade de maneira astuta, envelopada na “melhor das intenções”. Todavia, quanto mais o Estado provê, mais a população exige e menos produz (pois tem a falsa impressão que o Estado proverá). O Estado prestando serviços mínimos já é ruim, imagina prestando a quantidade de serviços solicitada por parcelas da população. Isso gerará reclamações populares, que serão devidamente capitalizadas por algum político oportunista e gerará uma promessa de mais e melhores serviços públicos, ou seja, é um processo que se retroalimenta infinitamente.

Como é possível amar um e odiar o outro?

Mas se desejamos tanto mais Estado em nossas vidas, por que não confiamos nos políticos? Ora, políticos e Estado são como Amor e Beijinho, Bochecha e Claudinho, Futebol e Bola, Piu-Piu e Frajola, um não existe sem o outro. Como é possível amar um e odiar o outro?

Na visão de Garschagen, o brasileiro tem uma visão romantizada, Rousseauniana de Estado. Enxergamos o Estado como um ente abstrato, imparcial e virtuoso, necessário ao bem-estar social e que contribui para uma sociedade melhor. No entanto, esquecemos de associar, nesse nosso sonho dourado, que são os “políticos” quem tocam o Estado, que ditam a regra de como ele vai funcionar, que tomam as decisões que afetam diariamente as nossas vidas.

Esse amor, louco amor, pelo Estado, está fortemente relacionado a dois fatores: nível de escolaridade e faixa de renda. O autor destaca que quanto menos escolarizada a população, maior seu amor pelo Estado. Da mesma forma, quanto menor o nível de renda, maior a dependência do Estado, consequentemente, maior o amor envolvido.

Tem solução?

E como solver esse problema? Segundo Garschagen, isso passa por uma “mudança de mentalidade da população”, em que é necessário mostrar às pessoas que a dependência do Estado é prejudicial tanto para os indivíduos como para a nação. Em outras palavras, quanto mais o Estado cresce, menor é a liberdade do indivíduo, menor seu raio de ação, maior a intervenção em nossas vidas e mais difícil fica escapar das garras do Leviatã.

pare de acreditar no governo

Fonte: Brainly

É claro que a saída apontada pelo autor é simplista por demais. Dizer que isso passa por uma “mudança de mentalidade” da população é tipo aquele argumento mágico do “vá estudar” quando alguém está perdendo a discussão e quer sair por cima. Mas é claro: o tema é complexo e não existem soluções fáceis para mudar um fenômeno que existe aqui desde 1500. Com isso, entendo a “saída” apontada por Garschagen, embora discorde e (confesso) esperasse um argumento melhor.

E daí? Por que um investidor deveria ler esse livro?

E no fim das contas, qual a relação desse livro com o perfil de leitores do TC? Por que um “investidor capitalista selvagem” deveria ler o livro? Ora meus caros, para o investidor, o empresário, o gerador de riquezas, o Estado é um problema. No caso do Estado brasileiro, obeso e burocrático, é um problema dobrado. Para tentarmos de alguma forma combater o problema, primeiro é preciso entendê-lo, conhecer seus meandros.

Pare de acreditar no governo apresenta uma ótima reconstrução, desde “os tempos mais primórdios”, da forma como o Estado intervém na nossa vida, e como nos acostumamos, como população, a concordar com isso, e até apreciar essa intervenção. A “mudança de mentalidade” que soluciona o problema da interferência do Estado em nossas vidas, como sugerido pelo autor, passa por conhecer o problema. Nesse sentido, a leitura do livro é importante.

pare de acreditar no governo

Fonte: Youtube

Eu dou uma nota 7,0 para o livro. Passa “na média”. Não é nenhum primor, ficou aquém das minhas expectativas, mas ainda assim é uma leitura importante e que contribui para entender melhor o estado atual das coisas nesse nosso Brasilzão de Meu Deus. Vale um voto de confiança.

E por fim, pare de acreditar no governo!

André Sekunda

André Sekunda
Professor Universitário com Mestrado em Contabilidade
Contribui com textos educativos para o TC School.

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