07/02/2020 às 5:00

O Andar do Bêbado

Felipe Pontes Felipe Pontes

Vitor Azevedo, TC Mover

 

O Andar do Bêbado é um livro de não-ficção lançado em 2008 por Leonard Mlodinow, escritor estadunidense com formação em física.  Mlodinow ajudou Stephen Hawking na escrita do famoso “Uma Breve História do Tempo”, foi roteirista das séries MacGyver e Star Trek –  grandes sucessos da TV Americana,  e é colunista do New York Times. Patentes à parte, Mlodinow se destaca mesmo é por convidar o leitor a conhecer particularidades das ciências exatas de forma didática e instigando a curiosidade.

 

Uma visão geral sobre “O Andar do Bêbado”

Os seres humanos tendem a ignorar a participação do acaso em suas rotinas: gostamos de acreditar que estamos no controle das nossas vidas, e não que ela está submetida à aleatoriedade igual um dado ao ser lançado.

Esse gosto pelo controle é demonstrado por Mlodinow em seu livro de forma científica: em um estudo feito em um asilo, idosos que podiam controlar a disposição da mobília dos seus quartos tinham níveis de stress menores do que os que não podiam mudar os móveis de lugar, e, inclusive, tiveram taxa de mortalidade diminuta durante o período de tempo da pesquisa.

Por não gostarmos do acaso, nosso cérebro tende a criar alguns mecanismos para nos convencer de que estamos no controle. Um dos conceitos apresentados no livro é o “viés da disponibilidade”, associado ao fato de darmos mais importância a algumas memórias do que a outras.

Segundo o escritor de “O Andar do Bêbado”, quando esperamos em uma fila e a ela demora mais do que as demais, tendemos a acreditar que este é o nosso karma. “Nunca a nossa espera é a mais rápida” (o mesmo acontece, inclusive, com alguns traders iniciantes).

Isso acontece basicamente pelo fato de nossa rede neural se incomodar com a situação de demora: a memória de esperar por muito tempo tem a capacidade de ofuscar as memórias dos dias em que passamos rapidamente pelo caixa.

Outro padrão de pensamento humano apresentado no livro é o viés da confirmação. Quando acreditamos em algo, tendemos a reforçar as ideias que fortaleçam nossas crenças. Uma pessoa que gosta de determinado político acusado de corrupção tende a ignorar as informações que aumentam as chances de ele ser considerado culpado e a valorizar as que podem o livrar da pena.

O mesmo pode acontecer no mercado financeiro: um investidor que gosta da empresa X pode dar mais peso aos dados que demonstram uma boa gerência e ignorar aqueles que parecem alarmantes.

No livro, Mlodinow tenta nos ensinar como reconhecer mais a presença do acaso e os nossos vieses, apesar disso não ser nada fácil. Tendemos a acreditar que ao olhar o passado podemos entender parte do futuro e a desmerecer o impacto da aleatoriedade nas nossas vidas.

Como, por exemplo, identificar que parte do sucesso de uma pessoa se deve aos seus dons e aos esforços e que parte se deve ao acaso? Segundo o próprio autor de O Andar do Bêbado, “não é fácil determinar que proporção de um resultado se deve à habilidade e que proporção se deve à sorte”.

Um dos exemplos utilizados no livro é de Bill Miller, um grande investidor que trabalhava no Legg Mason Value Trust Fund. Na década de 1990, Miller acumulou uma sequência de 15 anos onde o desempenho do fundo que controlava foi melhor do que a carteira de ações do S&P500. Um feito notável. Mas não tanto ao olhar da teoria da aleatoriedade.

Por exemplo, a chance de que uma pessoa em particular consiga após lançar 15 vezes uma moeda apenas caras é de 1/32.768. Quando existem, porém, mil pessoas sendo analisadas, a chance de alguma delas conseguir o feito aumenta consideravelmente.

A mesma ideia, para a aleatoriedade, pode ser aplicada para quem “ganha do mercado”: Mlodinow calculou que ao considerarmos mil investidores (o que ele pontua ser um número bem menor do que a quantidade real de investidores existentes), a chance de que algum deles consiga uma sequência de 15 anos ganhando do índice S&P500 em um intervalo de análise de quatro décadas era de ¾, ou seja, a chance de um investidor conseguir a sequência era de 75%. O estranho seria se nenhum gestor nunca houvesse atingido a marca.

O nome desse conceito é conhecido como “falácia da boa fase”: quando uma sequência aleatória é vista como um feito extraordinário.

 

Será, então, que Bill Miller não possui mérito nenhum pelo seu feito? Tudo pode ser respondido apenas analisando números e probabilidades?

Bem, em um mundo não perfeito, podemos analisar alguns “vícios”. Mlodinow no seu texto conta a história de Joseph Jager, um empresário da indústria têxtil, que acreditou que as roletas do cassino de Monte Carlo, por estarem em um mundo real, não deveriam ser perfeitas. Com a ajuda de seis auxiliares, Jagger estudou as roletas e percebeu que elas possuíam tendências, vícios. Em quatro dias, o empresário conseguiu US$300 mil apenas apostando nelas.

Ao acumular dados sobre o funcionamento das roletas, Jagger percebeu um padrão e concentrou seus palpites nos números que mais apareciam. Deu certo. O fato de elas estarem em um mundo não perfeito acaba fazendo-as apresentarem alguns resultados mais constantemente  (e talvez o fato de serem construídas por humanos acabe por fortalecer essa tendência). Então, segundo a teoria da aleatoriedade, alguns números sempre aparecerão mais do que outros. Os donos do cassino passaram a embaralhar as roletas e os números todos os dias, para evitar que os apostadores identificasssem qual apresentava um padrão x e qual apresentava um padrão y.

Entre os resultados de um sistema fora de controle, costuma existir uma média. Com esse conceito, chegam outros, muito utilizados no mundo do mercado financeiro: a distribuição normal, ou padrão de Gauss, o retorno à média, o teorema áureo, a lei dos grandes números, o de falsos positivos e falsos negativos, e por aí vai.

 

Por que ler “O Andar do Bêbado”? 

O Andar do Bêbado não é um livro exatamente sobre investimentos, mas ele traz conceitos que acabam sendo utilizados no meio, e não apenas nele: a aleatoriedade acaba por se apresentar em boa parte das coisas com as quais nos deparamos no nosso dia a dia.

O livro tenta nos ajudar a entender a aleatoriedade, transformando-a em algo simples e interessante, e a perceber como o caos impacta nosso cotidiano, e, recorrentemente, também o mercado financeiro.

“Acadêmicos e escritores dedicaram muito esforço ao estudo de padrões de sucesso aleatório nos mercados financeiros. Há muito indícios, por exemplo, de que o desempenho das ações é aleatório – ou tão próximo da aleatoriedade que, na ausência de informações privilegiadas e na presença de um custo para comprar e vender ou para gerenciar uma carteira de títulos, não temos como lucrar com qualquer desvio da aleatoriedade.”

Apesar de defender que boa parte das coisas que acontecem na nossa vida estão ligadas ao puro acaso, o Andar do Bêbado termina nos dando uma lição: quanto mais tentamos, mais sujeitos estamos a alcançar o sucesso. Como diz Thomas Watson, pioneiro da IBM, “se você quiser ser bem-sucedido, duplique sua taxa de fracassos”. Parafraseando o final do livro:

“Acredito que seja importante planejar a vida, se o fizermos de olhos bem abertos. Porém, acima de tudo, a experiência me ensinou que devemos identificar e agradecer a sorte que temos e reconhecer os eventos aleatórios que contribuem para o nosso sucesso, a aceitar os eventos fortuitos que nos causam sofrimento, e, acima de tudo, ensinou-me a apreciar a ausência de azar, a ausência de eventos que poderiam ter nos derrubado e a ausência de doenças, da guerra, da fome e dos acidentes que não – ou ainda não – nos acometeram.”

Felipe Pontes

Felipe Pontes

Diretor Educacional do TradersClub

Doutor em Contabilidade com foco em informações contábeis para o mercado de capitais pelo Programa UnB/UFPB/UFRN.
Professor de Contabilidade e Valuation.
Gestor de Clube de Investimento.

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