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Avaliação de empresas e os desafios que vão além do fair value

03/07/2020 às 16:00

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Nesse texto, farei uma resenha do livro avaliação de empresas e os desafios que vão além do fair value. Para facilitar o entendimento, abordarei os tópicos que achei mais relevantes na obra, e que a diferenciam de livros mais populares sobre avaliação de empresas:

  • Avaliação de empresas – medidas mais utilizadas no processo de avaliação
  • O lado sombrio das fusões e aquisições – os laudos de avaliação dos grandes bancos são independentes?
  • O sistema tributário brasileiro – qual a sua influência na avaliação de empresas
  • Um passeio aleatório na avaliação – avaliação do valor justo por intervalos com a simulação de Monte Carlo

Boa leitura!

Avaliação de empresas e os desafios que vão além do fair value

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Medidas utilizadas na avaliação de empresas

Antes de tudo, em um livro sobre avaliação de empresas, não podem faltar as metodologias clássicas de valuation, as quais podemos destacar:

  • Fluxo de caixa descontado
  • Uso de múltiplos
  • Abordagem contábil

Em essência, o que diferencia a obra de outros livros sobre avaliação de empresas é o fato do autor elencar os desafios do profissional brasileiro nos processos de avaliação, na medida em que “tropicalizar” medidas tradicionais pode acarretar uma série de vieses no processo de avaliação. Nesse sentido, as características do mercado local aumentam a complexidade de um trabalho de avaliação. Complexidade esta que deve ser levada em consideração por todas as pessoas interessadas em valuation.

Contabilidade na avaliação de empresas

Em diversas obras sobre valuation, a contabilidade por vezes é vista como um tipo de vilã, por não fornecer as informações em um “formato” que indique o valor da empresa que reporta a informação. Nesse sentido, o autor indica que a contabilidade brasileira é precária, sendo voltada essencialmente para atender obrigações fiscais. Antes de tudo, essa afirmação pode ser verdadeira. Mas em partes, visto que a contabilidade de micro e pequenas empresas, de forma geral, é de fato voltada ao fisco.

Por outro lado, antes de criticar a contabilidade é necessário lembrar de uma premissa importante: a função da contabilidade não é a de fornecer o valor da empresa. A contabilidade, conforme sua estrutura conceitual (CPC 00), tem como objetivo evidenciar informações que sejam úteis para uma gama de usuários, por exemplo:

  • Investidores
  • Credores
  • Governos
  • Gestores

Cada um com diferentes interesses e demandas informacionais. Nesse sentido, a contabilidade não é voltada para o processo de avaliação, cabendo ao avaliador ajustar as informações para que se atenda suas necessidades específicas. Deixe-se aos investidores a utilização dos modelos finais de avaliação e a decisão sobre qual ou quais devam, no futuro, ser praticados (IUDÍCIBUS, MARTINS 2007).

O lado sombrio das fusões e aquisições

Um aspecto bastante relevante na obra está relacionado aos conflitos de interesse existentes nos processos de avaliação. Este é um debate extremamente relevante e atual (e.g., bancos x corretoras) e que por vezes é deixado de lado nos livros de finanças. Afinal, a avaliação é feita por pessoas, e todas as pessoas possuem algum tipo de viés.

Para ilustrar os conflitos de interesse existentes, o autor aborda uma série de cases de empresas famosas em nosso mercado, evidenciando inclusive trocas de emails entre grandes instituições financeiras, como por exemplo: “compartilha comigo o WACC e o beta que você está usando, estou achando o meu muito baixo…” Laudo de avaliação independente que chama não é?

Sistema tributário brasileiro e sua influência na avaliação

Qual a influência do sistema tributário brasileiro nos processos de avaliação de empresas, em especial, nos processos de M&A? Como sabemos, nosso sistema tributário é demasiado complexo e bastante oneroso. Nesse sentido, a obra discute como o planejamento tributário pode promover valor adicionado para as empresas, na medida em que aborda os regimes tributários que as empresas podem seguir, desde o simples nacional até o lucro real. Além disso, evidencia como a escolha do regime tributário adequado (se permitida por lei), pode alavancar o valor da empresa.

Um passeio aleatório na avaliação de empresas

Independente de sua experiência, seria muita pretensão por parte de qualquer avaliador dizer que o valor de uma empresa “cabe” em uma planilha de Excel. Por mais que desenvolvamos modelos estatísticos complexos, nossa capacidade preditiva é extremamente limitada (ainda mais no Brasil). O conceito de valor, levando em conta a sua subjetividade, não pode ser evidenciado como um valor determinístico em si, mas sim um intervalo do valor justo, o qual poderíamos ver onde está a zona de maior probabilidade do valor , com a utilização de diferentes cenários. Nesse sentido, ao invés de mensurar determinísticos e perigosos fluxos de caixa tradicionais, deveríamos mensurar os diversos fluxos alternativos às probabilidades vinculadas a sua ocorrência no futuro, estimando faixas de valor, e não um valor específico (MARTINS, 2000).

Dessa forma, este é um dos pontos que mais gostei no livro, pois faltava um passo a passo nos livros de avaliação sobre como estimar essas faixas de valor. A obra aborda essas premissas e inclusive apresenta uma ferramenta para utilizá-la na prática, permitindo a simulação de diversos cenários a partir da abordagem de Monte Carlo, o qual atribui um componente aleatório na avaliação.

Por que o investidor deveria ler este livro?

De forma geral, o conhecimento da valoração de ativos é primordial para todos os investidores. Não é sensato saber o preço de tudo e não enxergar o valor de nada. Não que o investidor pessoa física precisará estimar modelos complexos para todas as empresas que pretende investir, mas entender todos os fatores que norteiam a avaliação, como os conceitos de valor, existência de conflitos de interesse, relevância do sistema tributário nacional, etc., farão com que este tome decisões mais plausíveis acerca de seus investimentos.

Por último, recomendo a leitura da obra na medida em que ela se diferencia de outros livros principalmente por abordar as características intrínsecas do mercado brasileiro. Ou seja, além de tratar dos conceitos essenciais inerentes à avaliação de empresas, o autor tende sempre a adaptar a discussão ao nosso cenário, visto a sua experiência prática.

Referências

IUDÍCIBUS, Sérgio de; MARTINS, Eliseu. Uma investigação e uma proposição sobre o conceito e o uso do valor justo. Revista Contabilidade & Finanças, v. 18, p. 09-18, 2007.

MARTINS, Eliseu. Avaliação de empresas: da mensuração contábil à econômica. Caderno de estudos FIPECAFI, n. 24, p. 28-37, 2000.

 

Arlindo Souza
Arlindo Souza
Analista de conteúdo | Mercado financeiro no TradersClub
Contador, Mestre em Ciências Contábeis. Foi professor/pesquisador do departamento de contabilidade da UFRN e atuou em contabilidade de S.A. É investidor com base em análise fundamentalista.

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