29/06/2020 às 16:00

Governança corporativa: entenda a teoria de agência

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Esse é o nosso primeiro texto sobre Governança corporativa, um tema tão importante para os investidores, quanto os números de performance financeira presentes nas demonstrações contábeis. Para iniciar essa série de textos, falaremos sobre a teoria de agência e sua relação com os investidores. Para um melhor entendimento, abordaremos os seguintes tópicos:

  • Teoria de agência – conflitos de interesse entre os indivíduos
  • Custos de agência – como esses conflitos podem gerar gastos para as empresas?
  • Importância para os investidores – porquê conhecer a teoria de agência pode ajudá-lo em seus investimentos

Boa leitura!

teoria de agência

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Teoria de agência: agente x principal

Para entendermos a teoria de agência, precisamos antes entender como funciona a relação entre os indivíduos principal e agente. A princípio, quando uma empresa é pequena, o seu proprietário pode administrá-la e controlá-la diretamente (NASCIMENTO e REGINATO, 2008). Nesse sentido, como o proprietário e o gestor são o mesmo indivíduo, em teoria, existe um alinhamento entre seus interesses. Ou seja, o que é bom para o gestor também será para o acionista.

Por outro lado, na medida em que a empresa cresce, seu funcionamento se torna complexo, fazendo com que seja necessário a contratação de administradores na gestão dos negócios (ROCHA et al., 2012).

Utilizando as empresas abertas como exemplo, os acionistas (principais) remuneram os gestores (agentes) da empresa, para que estes tomem decisões em seu lugar. Nessa relação entre principal x agente, podem surgir conflitos de interesse entre esses dois indivíduos.

A teoria de agência serve de base para diversas linhas de pesquisa nas finanças, ao estudar os conflitos de interesse entre principal e agente.

Relações de agência

As relações de agência podem então ser definidas como qualquer contrato em que o principal delega outro indivíduo, (agente) para tomar decisões em seu nome (JENSEN E MECKLING, 1976). Para resumir algumas dessas relações inerentes à teoria de agência, vejamos o quadro de relações principal/agente, presente na pesquisa de Rocha et al. (2012):

teoria de agência

Fonte: Rocha et al. (2012)

Veja que as relações entre principal e agente não se restringem a acionistas e gestores. Pelo contrário, ela abrange qualquer relação em que um indivíduo contrata outro para agir em seu nome.

Custos de agência

Os custos de agência podem ser entendidos como as despesas necessárias para monitorar as ações do agente (JENSEN e MECKLING, 1976). Por exemplo, as demonstrações contábeis das empresas listadas na B3 vêm acompanhadas do relatório de auditoria independente. Esse trabalho de auditoria busca assegurar que as informações contidas nas demonstrações contábeis, representam a realidade, em seus aspectos mais relevantes.

Pensando na relação de agente x principal, podemos entender o trabalho de auditoria como uma das formas que os proprietários possuem de observar as ações dos agentes.

Alinhamento de interesses?

Uma das formas para atenuar o conflito de interesses é o compartilhamento de riscos entre principal e agente. Em outras palavras, é o gestor dividir riscos com o acionista. Como exemplo, podemos pensar nos programas de pagamento baseado em ações. O objetivo principal destes programas é fazer com que os interesses dos gestores se alinhem aos interesses dos acionistas, na medida em que, parte de sua remuneração está atrelada a maximização do valor da empresa. Ou seja, as decisões do agente seriam direcionadas para este fim.

Por outro lado, este tipo de remuneração pode criar um novo tipo de conflito de interesse: o aumento artificial do preço das ações e possíveis manipulações de mercado. Vejamos por exemplo o caso recente da IRB. A companhia tinha um programa de bônus para executivos que premiava a diretoria pela valorização das ações. Conforme a reportagem da Folha de São Paulo, os executivos da empresa informaram a analistas de mercado que o fundo Berkshire Hathaway havia adquirido participação relevante na empresa, onde as ações subiram 6,6% no dia seguinte.

Essa informação foi logo desmentida pela Berkshire, o que elevou ainda mais a desconfiança do mercado sobre as informações prestadas pela empresa, gerando uma série de investigações sobre a IRB.

Por que os investidores devem conhecer a teoria de agência?

A teoria de agência, como vimos, não resume-se apenas a relação acionista x gestores. Ela está presente em qualquer relação entre pessoas, e onde exista conflitos de interesse entre elas. Esses conflitos podem ser potencializados pela assimetria informacional entre os indivíduos. Nesse sentido, o conhecimento da teoria de agência pode não livrar você desses conflitos de interesse, mas vai te ajudar a refletir e a decidir melhor sobre quem você confia os seus investimentos.

Por fim, recomendo a todos os investidores a leitura do livro arriscando a própria pele (veja nossa resenha), em que Nassim Taleb expõe uma série de assimetrias no que tange o compartilhamento de riscos entre os indivíduos, não apenas no mercado financeiro.

Referências

JENSEN, M. C.; MECKLING, W. H. Theory of the firm: Managerial behavior, agency costs and ownership structure. Journal of Financial Economics, v. 3, n. 4, p. 305–360, 1976.

NASCIMENTO, A. M.; REGINATO, L. Divulgação da informação contábil, governança corporativa e controle organizacional: uma relação necessária. Revista Universo Contábil, v. 4, n. 3, p. 25–47, 2008.

ROCHA, I. et al. Análise da produção científica sobre teoria da agência e assimetria da informação. Revista de Gestão, v. 19, n. 2, p. 329–342, 2012.

 

Arlindo Souza
Arlindo Souza
Analista de conteúdo | Mercado financeiro no TradersClub
Contador, Mestre em Ciências Contábeis. Foi professor/pesquisador do departamento de contabilidade da UFRN e atuou em contabilidade de S.A. É investidor com base em análise fundamentalista.

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