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Finanças comportamentais: viés do senso de controle

31/08/2020 às 15:00

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Dando seguimento a nossa série sobre os vieses comportamentais que interferem na nossa tomada de decisão, hoje vamos discutir sobre o viés do senso de controle e como ele afeta os investidores. Assim, para facilitar o entendimento, o texto está dividido nos seguintes tópicos:

  • Senso de controle: entenda o conceito
  • Teste: você é suscetível ao viés do senso de controle?
  • Exemplo: como o senso de controle afeta os investidores
  • Reflexão: a importância de conhecer o viés do senso de controle

 Boa leitura!

viés do senso de controle

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Senso de controle: entenda o conceito

Primeiramente, cabe destacar que as pessoas se preocupam muito com os resultados de suas decisões, essa preocupação gera um viés chamado senso de controle. O viés do senso de controle descreve a tendência dos seres humanos de acreditar que podem controlar ou pelo menos influenciar os resultados quando, na verdade, não podem. De acordo com Tavares et al (2013), a ideia do senso de controle relaciona-se com a forma pela qual as pessoas se sentem responsáveis por suas ações e pelo direcionamento resultante de suas decisões.

A anedota de Pompian

Em seu livro, intitulado “Behavioral Finance and Wealth Management” Michael M. Pompian ilustra o viés do senso de controle por meio de uma anedota.

Em uma pequena cidade chamada Smallville, um homem vai até a praça da cidade todos os dias às 18:00h, carregando uma bandeira quadriculada e uma trombeta. Assim, quando o homem chega a um local determinado, ele agita a bandeira e sopra algumas notas na trombeta. Em seguida, ele retorna para casa para o deleite de sua família. Dessa forma, um policial percebe a exibição diária do homem e, eventualmente, pergunta a ele:

-“O que você está fazendo?”

-O homem responde: “Mantendo os elefantes afastados”

-“Mas não há elefantes em Smallville”, responde o oficial.

-“Bem, então, estou fazendo um bom trabalho, não estou?” Com isso, o oficial revira os olhos e ri. Esta história um tanto absurda ilustra a falácia inerente à ilusão de viés de controle.

Teste: você é suscetível ao viés do senso de controle?

Adicionalmente, para trazer outra ilustração de como funciona o viés do senso de controle, eu vou te fazer algumas perguntas:

  • Quando você está jogando baralho com seus amigos, você acha que tem mais chances (maior probabilidade) de ganhar uma partida quando as cartas são distribuídas por você mesmo?
  • Quando você compra um bilhete de loteria, você se sente mais encorajado a respeito de suas chances de ganhar se você mesmo escolher os números ao invés de usar números gerados pelo computador?

Se você respondeu sim para as duas respostas é possível que você seja suscetível ao viés do senso de controle, pois, não há nada indicando que as chances de você ganhar uma partida de baralho e de acertar os números da loteria não se alteram quando você distribui as cartas ou escolhe os números.

Estudos mostram que o viés do senso de controle afeta as pessoas de forma diferente. No Brasil, o trabalho realizado por Mendes-da-Silva e Yu (2009) detectou que as pessoas de menos idade e de faixa etária mais avançada apresentam um menor nível de senso de controle, se comparado a indivíduos com idades mais próximas de um adulto jovem. Entretanto, em média, as pessoas de faixas etárias mais avançadas e que possuem um bom nível de educação e saúde, tendem a apresentar maior nível de senso de controle.

Nesse sentido, você já deve estar se perguntando: como esse viés afeta os investidores? Assim, vamos às situações que podem ocorrer no mercado.

Exemplo: como o senso de controle afeta os investidores

De forma geral, no mercado financeiro, o senso de controle pode causar consequências não esperadas pelo investidor ao tomarem suas decisões, obtendo assim, muitas vezes, resultados indesejados.

Pompian (2006) descreve algumas consequências desse viés para os investidores:

  • O senso de controle pode levar os investidores a negociar mais do que é prudente. Pesquisadores descobriram que os investidores acreditam ter mais controle sobre os resultados de seus investimentos do que realmente têm. Assim, esse excesso de negociação pode resultar em retornos decrescentes.
  • Senso de controle pode levar os investidores a manter carteiras não diversificadas. Pesquisadores descobriram que os investidores mantêm posições concentradas porque acabam escolhendo empresas cujo destino eles acreditam possuir algum controle. Nesse sentido, esse domínio se mostra ilusório, e a falta de diversificação prejudica as carteiras dos investidores.
  • O senso de controle contribui, de forma geral, para um investidor com excesso de confiança.

Reflexão: a importância de conhecer o viés do senso de controle

Se você está acompanhando essa série de textos, deve ter percebido que o viés do senso de controle está relacionado com o excesso de confiança, pois os dois vieses dão a falsa sensação de que estamos totalmente no controle da situação, mesmo sabendo que muitas vezes os resultados das nossas ações são derivados de eventos aleatórios.

Além disso, apesar de ter trazido exemplos ligados a jogos de carta e loterias, é importante frisar que o mercado de ações está longe de ser algo parecido com esses dois tipos de apostas, onde estamos totalmente à mercê da sorte. No entanto, é necessário que o investidor saiba que está vulnerável aos diversos vieses comportamentais que afetam a tomada de decisões dos seres humanos.

Por fim, é importante que, além de estudar sobre as variáveis financeiras e econômicas que afetam as empresas, o investidor também esteja atento às variáveis comportamentais, pois elas também geram tendências de mercado que muitas vezes não são racionais.

Referências

MENDES-DA-SILVA, W.; YU, A. S. O. Análise Empírica do Senso de Controle: Buscando Entender o Excesso de Confiança. Revista de Administração Contemporânea-RAC, Curitiba, v. 13, n. 2, p. 247-271, Abr./Jun. 2009.

POMPIAN, Michael M. Behavioral Finance and Wealth Management: How to Build Optmal Portfolios That Account for Investor Biases. New Jersey: Wiley. 2006.

TAVARES. M. F. N.; FERNANDES. J. L. T.; MÓL. A. L. R.; PAULO. E. Um estudo empírico sobre o viés cognitivo do senso de controle aplicado às decisões de investimentos In: XIII Congresso USP de controladoria e contabilidade. São Paulo, 2013.

João Victor
João Victor
Atua como Pesquisador no Instituto universitário de Lisboa – ISCTE
Graduado em Ciências Contábeis e Gestão Financeira. Mestre em Ciências Contábeis. Foi professor/pesquisador do departamento de contabilidade da UFRN e de universidades particulares como UNP e UNIP. É investidor com base em análise fundamentalista.

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