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Finanças comportamentais: conheça a contabilidade mental

17/08/2020 às 15:00

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Neste texto, dando continuidade a série de finanças comportamentais, vamos explicar o conceito de contabilidade mental. Para facilitar o entendimento, o texto está dividido nos seguintes tópicos:

  • Introdução: uma situação hipotética
  • Contabilidade mental: o que é?
  • Contabilidade mental: quais são os seus efeitos?
  • Conclusão

Boa leitura!

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Introdução: uma situação hipotética

Vou começar esse texto lançando um questionamento. Vamos supor que você vai ver uma peça de teatro, e quando chega ao local do evento percebe que perdeu o dinheiro para pagar o espetáculo. Possivelmente, você dará um jeito de comprar esse ingresso, seja indo a um caixa eletrônico para sacar o dinheiro, ou até pedindo o dinheiro emprestado a alguém.

Mas, se você já tivesse comprado o ingresso antecipadamente e na hora de entrar no teatro percebesse que o tinha perdido, faria o mesmo esforço para recomprar outro ingresso? Talvez você esteja pensando: é claro que eu compraria outro ingresso, eu quero ver o espetáculo.

Esse pensamento não foi o mesmo da maioria dos sujeitos que participaram do experimento conduzido pelos renomados pesquisadores Kahneman and Tversky. Nesse estudo, a maioria dos respondentes se recusou a recomprar o ingresso na situação da perda do ingresso, e a maioria recompraria o ingresso caso tivesse perdido o dinheiro. Concordam comigo que o custo das duas situações é o mesmo? Ou seja, dois ingressos. Então por que as pessoas tendem a agir dessa forma?

De acordo com Kahneman e Tversky os sujeitos tendem a avaliar a perda de um ingresso e o preço de compra de um novo ingresso na mesma conta mental. Nesse sentido, perder um ingresso e desembolsar por um novo representaria duas perdas incorridas sucessivamente, debitadas do mesmo conjunto de ativos. A perda de dinheiro real, no entanto, e a compra de ingresso foram débitos avaliados separadamente. Portanto, a mesma perda agregada parecia menos drástica quando desembolsada em duas contas diferentes. O nome dado a esse processo de alocação de valores a contas diferentes em nossa mente é chamado de contabilidade mental.

Contabilidade mental: o que é?

Chamada assim pela primeira vez pelo professor Richard Thaler da Universidade de Chicago, a contabilidade mental descreve a tendência das pessoas de codificar, categorizar e avaliar os resultados econômicos agrupando seus ativos em qualquer número de contas mentais não fungíveis (não intercambiáveis). Ou seja, é como se a gente criasse contas mentais para nossos ativos e essas contas não se misturassem.

Uma pessoa completamente racional nunca sucumbiria a esse tipo de processo psicológico, mas lembre a principal ideia das finanças comportamentais: os agentes econômicos não são completamente racionais em suas decisões. Sendo assim, a contabilidade mental faz com que os sujeitos hajam de forma irracional, tratando várias somas de dinheiro de forma diferente com base onde essas somas são mentalmente categorizadas. Por exemplo, a forma como uma certa quantia foi obtida (trabalho, herança, jogo, bônus, etc.), ou a natureza do uso pretendido do dinheiro (lazer, necessidades, etc.).

Daí você deve estar se questionando: mas qual é o problema de categorizar nossas receitas, despesas, ativos e passivos? Isso não é bom?

Os problemas da categorização

O problema é que essa categorização mental que fazemos do nosso dinheiro pode nos levar a tomar decisões no mínimo bizarras. Vou dar um último exemplo para ilustrar o que é a contabilidade mental antes de falar dos problemas desse viés. Em um cassino, se você for sortudo o suficiente para ganhar dinheiro logo no início da noite, é possível que você separe o dinheiro que você trouxe do dinheiro que ganhou na aposta e considere que este dinheiro “ganho” pode ser apostado novamente sem problemas de ser perdido, uma vez que esse dinheiro foi “ganho na sorte”. Isso pode te levar a perder todo o seu dinheiro.

Esse exemplo é ilustrado no livro “Nudge” do professor Thaler. O professor comprovou essa lógica em outro experimento no qual ofereceu a um grupo de pessoas $30 e uma escolha correspondente: embolsar o dinheiro, sem amarras ou apostar no cara ou coroa, em que uma vitória adicionaria $9 e uma perda subtrairia $9 dos $30 iniciais doação. Setenta por cento das pessoas optaram pelo jogo, porque consideraram os $30 como dinheiro “encontrado”, ou seja, um pequeno ganho fortuito, não a soma de centavos meticulosamente economizados e não o salário de horas de trabalho em alguma tarefa árdua. Então, por que não se divertir um pouco com esse dinheiro? Afinal, o que esses sujeitos realmente tinham a perder? Nesse sentido, vou explicar agora os problemas com esse viés.

Contabilidade mental: quais são os seus efeitos?

Um efeito que a contabilidade mental pode causar é fazer com que pessoas possuam simultaneamente investimentos e financiamentos a taxas diferentes e onerosas. Em minha pouca experiência com educação financeira, não foi só uma vez que me deparei com pessoas que têm dinheiro investido na poupança que não paga mais do 1,4% ao ano, e ao mesmo tempo, possuem empréstimos e financiamentos a taxas que ultrapassam facilmente os 10% ao ano. Também no livro “Nudge”, do professor Thaler, é ilustrado um exemplo onde um cidadão possui $5.000 investido numa conta poupança que remunera menos de 5% ao ano e ao mesmo tempo tem uma dívida com o cartão de crédito no valor de $3.000 e a uma taxa de 18%.

Vieses da contabilidade mental

Além disso, de acordo com Pompian (2006), o investidor pode ser afetado pelo viés da contabilidade mental nas seguintes situações:

  • O viés da contabilidade mental pode fazer as pessoas imaginarem que seus investimentos ocupam “baldes” ou contas separados. Essas categorias podem incluir, por exemplo, reserva para faculdade ou dinheiro para aposentadoria. Conceber contas distintas para corresponder às metas financeiras, no entanto, pode fazer com que os investidores negligenciem posições que se compensam ou se correlacionam entre elas. Isso pode levar a um desempenho de portfólio agregado abaixo do ideal.
  • Além disso, as pessoas podem cair naquela cilada do cassino que foi citada logo acima, ou seja, podem usar os seus ganhos para reinvestir em opções de investimentos cada vez mais arriscadas na ideia de que o dinheiro que está sendo utilizado foi derivado de um “ganho”. Os investidores que exibem esse raciocínio se comportam de maneira irracional porque não tratam todo o dinheiro como fungível. A tomada de decisão financeira tendenciosa pode, é claro, colocar uma carteira em risco.
  • O viés da contabilidade mental pode fazer com que os investidores hesitem em vender investimentos que antes geravam ganhos significativos, mas, com o tempo, caíram de preço.
  • O viés da contabilidade mental pode fazer com que os investidores façam uma distinção irracional entre os retornos derivados dos dividendos e os derivados da valorização do preço da ação. Como muitas pessoas sentem a necessidade de preservar o valor investido, elas podem vender suas ações por causa da desvalorização do preço mesmo sendo uma ação que paga bons dividendos.

Conclusão

De uma forma geral, o viés da contabilidade mental pode levar as pessoas a tomarem decisões irracionais pelo simples fato de separarmos as decisões em contas que, na verdade, representam o mesmo dinheiro. Ou seja, usar o dinheiro que foi recebido por meio de juros, dividendos, ou seja, lá o for não diminui o risco da operação, pois continua representado o seu dinheiro. Desse modo, precisamos ficar atentos a esse viés que pode interferir na nossa tomada de decisão.

Referências

Pompian, M. M. (2006). Behavioral finance and wealth management: How to build optimal portfolios that account for investor biases. New Jersey: Wiley.

Richard H. Thaler, “Towards a Positive Theory of Consumer Choice,” Journal of Economic Behavior and Organization 1 (1980): 39–60.

Richard H. Thaler, “Mental Accounting Matters,” Journal of Behavioral Decision Making 12, no. 3: 183–206.

João Victor
João Victor
Atua como Pesquisador no Instituto universitário de Lisboa – ISCTE
Graduado em Ciências Contábeis e Gestão Financeira. Mestre em Ciências Contábeis. Foi professor/pesquisador do departamento de contabilidade da UFRN e de universidades particulares como UNP e UNIP. É investidor com base em análise fundamentalista.

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