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Como o excesso de confiança afeta os investidores?

11/08/2020 às 5:00

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Quando temos que tomar alguma decisão, geralmente buscamos o máximo de informações disponíveis e nos baseamos nessas informações para fazer nossas escolhas. Mas a verdade é que não tomamos decisões influenciadas apenas pelas informações disponíveis, o nosso comportamento também é um fator muito importante no nosso processo de tomada de decisão.

Estudos na área de finanças comportamentais mostram que existem diversos vieses comportamentais que “atrapalham” a forma como tomamos decisões. Um exemplo desses vieses é o Excesso de confiança. Neste texto, vamos descobrir o que é excesso de confiança e como esse viés pode afetar o investidor. Dessa forma, para facilitar o entendimento, o texto está dividido nos seguintes tópicos:

  • Excesso de confiança: o que isso significa?
  • Teste prático: como saber se sou suscetível ao excesso de confiança?
  • Quais os efeitos do excesso de confiança?
  • Conclusão

Boa leitura!

Leia mais sobre finanças comportamentais:

Excesso de confiança: o que isso significa?

“Muitas pessoas supervalorizam o que não são e subestimam o que são” – Malcolm S. Forbes

De uma forma bem simples, podemos dizer que o excesso de confiança é uma fé injustificada no raciocínio intuitivo. Ou seja, é quando confiamos demais nos nossos julgamentos a habilidades. Isso ocorre porque tendemos a superestimar nossas próprias habilidades e também confiamos demais nas informações que possuímos, achando que temos mais e melhores informações do que os outros.

Segundo Bogea e Barros (2008), diversos estudos evidenciam que a maior parte das pessoas se consideram acima da média em relação às suas habilidades pessoais, como dirigir, senso de humor, relacionamento interpessoal e capacidade de liderar outras pessoas. Tratando de investidores, a maioria considera que a sua habilidade de vencer o mercado é maior do que a média das outras pessoas. Assim, não observam as informações que podem indicar um alerta de que aquele investimento pode não ser rentável ou que deve ser vendido naquele momento para não dar prejuízo.

Em outras palavras, as pessoas pensam que são mais inteligentes e têm melhores informações do que realmente possuem. Por exemplo, eles podem receber uma dica de um consultor financeiro ou ler algo na internet e, em seguida, estão prontos para agir com base na vantagem percebida do conhecimento. Porém, esse viés pode prejudicar no processo decisório das pessoas, proporcionando, muitas vezes, um resultado diferente do desejado. O excesso de confiança tem sido mais percebido em homens e em atividades consideradas como masculinas (Barber & Odean, 1999; Barber & Odean, 2001). Tendo em vista que nos mercados financeiros a maior parte dos participantes são homens, as bolsas de valores se apresentam como um cenário ideal para o excesso de confiança.

Teste prático: como saber se sou suscetível ao excesso de confiança?

O problema com o excesso de confiança é que, na verdade, somos mal calibrados para fazer estimativas. Quer ver? Vamos fazer um pequeno teste adaptado de Pompian (2006).

1 – Forneça estimativas altas e baixas para o peso médio de uma baleia cachalote macho adulto em toneladas. Escolha números distantes o suficiente para ter 90% de certeza de que a verdadeira resposta está em algum ponto intermediário. Exemplo: A baleia pesa entre X e Y toneladas.

2 – Forneça estimativas altas e baixas da distância da terra até a lua em quilômetros. Escolha números distantes o suficiente para ter 90% de certeza de que a verdadeira resposta está em algum ponto intermediário.

3 – Suponha que você seja solicitado a ler esta declaração: “Capetown é a capital da África do Sul”. Você concorda ou discorda? Agora, quão confiante você está de que está correto?

  • 100% certo
  • 80% certo
  • 60% certo
  • 40% certo
  • 20% certo

Responderam? Querem saber as respostas? Na verdade as respostas aqui são pouco importantes. Nas questões 1 e 2 o mais importante é o intervalo que você deu para as respostas. Na pergunta sobre o peso da baleia, a resposta é aproximadamente 40 toneladas. Se você forneceu um intervalo muito pequeno para essa questão, como “entre 2 e 3 toneladas”, você pode ser suscetível ao excesso de confiança. O mesmo vale para a questão 2. A distancia entre a terra e a lua é de aproximadamente 384 400 km, portanto, se você deu um intervalo muito pequeno para essa questão, também é possível que você seja suscetível ao viés. Na questão 3, Capetown não é a capital da África do Sul. Então, se você concordou e marcou que estava 100% certo disso, é possível que você seja suscetível ao viés do excesso de confiança.

Quais os efeitos do excesso de confiança?

O excesso de confiança pode fazer com que uma pessoa tenha problemas porque ela pode não se preparar adequadamente para uma situação, ou pode entrar em uma situação perigosa a qual não está preparada para lidar. Um exemplo disso é a quantidade de pessoas que começam a operar opções sem entender como funciona o mecanismo desse tipo de investimento. Desse modo, vou citar algumas consequências para o investidor de se confiar demais em suas estimativas e habilidades.

  • Investidores com excesso de confiança superestimam sua capacidade de avaliar uma empresa. Como resultado, eles ficam cegos a qualquer informação negativa sobre a empresa, pois confiam que sua análise foi bem feita. Isso pode levar o investidor a tomar decisões equivocadas.
  • Investidores com excesso de confiança podem negociar excessivamente, ou seja, compram e vendem demais. Isso ocorre porque eles acreditam que possuem conhecimentos superiores aos outros investidores. O problema é que estudos mostram que operar demais pode levar a retornos ruins no longo prazo, isso sem contar as taxas de operação.
  • Investidores excessivamente confiantes podem subestimar seus riscos, como resultado disso, podem sofrer em momentos de incerteza.
  • Por fim, investidores excessivamente confiantes tendem a não diversificar sua carteira. Ou seja, investem em poucas empresas ou em empresas do mesmo setor. O problema é que acabam correndo mais riscos por “colocar todos os ovos na mesma cesta”.

Conclusão

Assim, de uma forma geral, os investidores excessivamente confiantes acreditam que podem escolher ações ou fundos de investimentos que apresentam retornos superiores ao mercado, quando, na verdade, estudos mostram que isso é muito difícil. Desse modo, os investidores suscetíveis ao excesso de confiança devem estar atentos a todos os quatro comportamentos prejudiciais identificados acima. Nenhuma dessas tendências, é claro, é inevitável, mas cada uma ocorre com alta frequência relativa em investidores com excesso de confiança. Por fim, é importante que o investidor esteja atento a importância do seu comportamento na tomada de decisão, para não escolher seus investimentos de forma tendenciosa.

Referências

Barber, B. M., & Odean, T. (1999). The courage of misguided convictions. Financial Analysts Journal, 55(6), 41-55.

Barber, B. M., & Odean, T. (2001). Boys will be boys: gender, overconfidence, and common stock investment. The Quarterly Journal of Economics, 116(1), 261- 292.

Bogea, F., & Barros, L. A. B. C. (2008). Processo de tomada de decisão do investidor individual brasileiro no mercado acionário nacional: um estudo exploratório enfocando o efeito disposição e os vieses da ancoragem e do excesso de confiança. Revista Gestão & Regionalidade, 24(71), 6-18.

Pompian, M. M. (2006). Behavioral finance and wealth management: How to build optimal portfolios that account for investor biases. New Jersey: Wiley.

João Victor
João Victor
Atua como Pesquisador no Instituto universitário de Lisboa – ISCTE
Graduado em Ciências Contábeis e Gestão Financeira. Mestre em Ciências Contábeis. Foi professor/pesquisador do departamento de contabilidade da UFRN e de universidades particulares como UNP e UNIP. É investidor com base em análise fundamentalista.

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