02/06/2020 às 9:28

Hedge Accounting: Entenda a contabilidade de derivativos

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O hedge accounting tem sido um dos assuntos mais falados nos últimos dias, devido principalmente ao resultado da Suzano S.A. Nesse sentido, vamos simplificar a parte técnica do conteúdo e tratar sobre o hedge accounting que é uma metodologia especial que as empresas podem empregar para contabilizar os derivativos utilizados para fins de proteção.

Boa leitura!

Hedge accounting

Entendendo os conceitos

Antes de entrar no assunto propriamente dito, falarei sobre alguns conceitos para melhor auxiliar na compreensão do assunto.

Tomadas de decisões que diminuem o risco de volatilidade dos retornos de uma entidade são denominadas pela literatura como atividades de Hedge (Silva, 2014). Porém, dentro desse conceito existem duas possíveis classificações que podem existir que são: hedge econômico e hedge accounting.

O hedge econômico é aquele em que o operador busca reduzir exposições a diversos riscos, por exemplo:

  • Taxa de juros
  • Risco cambial
  • Oscilações de preços em geral
  • Entre outros

Por outro lado, o hedge accounting é uma metodologia contábil que busca reduzir as variações geradas nos resultados contábeis ocasionadas por hedges econômicos.

Assim, devemos entender que sempre que existir um hedge accounting, deverá existir antes um hedge econômico. Mas a existência de um hedge econômico não implica necessariamente em ocorrer um hedge accounting, visto que essa é uma metodologia opcional de contabilização de derivativos.

Outros conceitos importantes para o entendimento do hedge accounting são:

  • Compromisso firme
  • Transação prevista
  • Instrumento de hedge
  • Posição protegida

De acordo com o CPC 39, o instrumento de hedge é um instrumento derivativo ou um ativo financeiro não derivativo designado ou um passivo financeiro não derivativo.

O CPC 39 também aborda que a posição protegida é um ativo, passivo, compromisso firme, transação prevista altamente provável ou investimento líquido em operação no exterior que:

  1. Expõe a entidade ao risco de alteração no valor justo ou nos fluxos de caixa futuros e
  2. Foi designada como estando protegida

Compromisso firme é um acordo obrigatório para a troca de itens a um preço especificado em uma(s) data(s) futuras especificas (CPC 39).

Após abordar os principais conceitos, iremos tratar agora sobre os itens que são objetos do hedge accounting.

Itens objetos do hedge accounting

  • Ativos ou Passivos que compõe o Balanço Patrimonial – Contas a Receber, Contas a Pagar, Empréstimos em moeda estrangeira, entre outros.
  • Compromissos firmados, porém, ainda não reconhecidos no Balanço Patrimonial – Contratos de Importação/Exportação de ativos, entre outros.
  • Transação futura altamente provável – Compras altamente prováveis de matérias primas para cobertura de risco de variação de preços.
  • Receita futura de exportação altamente provável em moeda estrangeira, para cobertura do risco de variação cambial.

Derivativos com fins de proteção

Nesse sentido, visando proteger as suas operações de determinados riscos, a empresa pode utilizar de instrumentos financeiros derivativos. Por exemplo, a empresa pode entrar em um contrato a termo (derivativo), fixando hoje o preço de determinada operação (item coberto) que ocorrerá no próximo mês.

Ao contabilizar as variações do derivativo e do item coberto pela forma “convencional”, ou seja pelo regime de competência, podemos ter um problema de descasamento temporal, o que pode gerar oscilações no resultado, diminuindo a sua relevância informacional, por exemplo:

Hedge Accounting

Nesse sentido, para evitar que esses descasamentos ocorram, a hedge accounting visa deixar os dois registros (derivativo e item coberto) na mesma competência do resultado contábil (DRE).

Divulgação do hedge accounting

O CPC 40 traz alguns requisitos que as empresas devem cumprir quando fazem o processo de hedge accounting:

  1. Estratégia realizada pelo gerenciamento de risco e como ela é aplicada
  2. Como o hedge pode afetar o valor, a época e a incerteza de seus fluxos de caixas futuros
  3. Quais são os efeitos da contabilização sobre os demonstrativos financeiros da empresa

O CPC 40 reitera que essas informações devem ser informadas por meio de notas explicativas. Além de tudo, para a implementação da hedge accounting, a empresa deve manter documentação comprobatória de que aquela operação é de fato um hedge (e não especulação), além de comprovar a efetividade do hedge na proteção.

Divulgação da hedge accounting na prática

Ativos e hedge accounting

Vejamos abaixo o exemplo do hedge accounting que a Suzano realizou no 1T20 para um melhor entendimento do leitor.

Hedge Accounting

Fonte: DFP 1T20

Conforme a figura acima, vemos que foi evidenciado no Balanço Patrimonial da Suzano, um Ativo com um valor total de R$ 1.088.394 bilhões que representa a soma do ativo circulante e não circulante. Esses valores são evidenciados na nota explicativa de número 4.

Passivos e hedge accounting

Hedge Accounting

Fonte: DFP 1T20

Conforme a figura acima, depois de serem evidenciados os derivativos no ativo, agora é a vez de evidenciar o valor dos derivativos no passivo. Neste caso foi evidenciado que a companhia possui R$ 11.793.326 bilhões em derivativos, somando tanto o curto prazo quando o longo prazo. Esses valores são expostos na nota explicativa 4.5

Resultado e hedge accounting

Hedge Accounting

Fonte: DFP 1T20

Após evidenciar a presença dos derivativos tanto no Ativo quanto no Passivo, agora é a vez de evidenciar a presença dos derivativos na Demonstração do Resultado da Suzano. Conforme destacado, observa-se que a companhia teve um prejuízo nas operações com derivativos de R$ 9.058.792 bilhões.

Fluxo de caixa e hedge accounting

De acordo com os dados do 1T20 da companhia, esse resultado surgiu principalmente devido à expressiva desvalorização cambial do dólar x real, bem como a alta volatilidade sobre as operações dos hedges tanto da dívida quanto de fluxo de caixa que a companhia realiza.

Hedge Accounting

Fonte: DFP 1T20

O mesmo valor apresentado como negativo na demonstração do resultado da Suzano, aparece como um dos ajustes a serem realizados na elaboração da Demonstração de Fluxo de Caixa da companhia.

Hedge Accounting

Fonte: DFP 1T20

A nota explicativa acima, é a nota explicativa de número 4, que vai evidenciar todos os derivativos em aberto pela companhia. Conforme a nota, observa-se que a companhia realiza 3 tipos de hedges:

  1. Hedge operacional
  2. Algumas formas de hedge da dívida (em moeda estrangeira)
  3. Além de hedge de commodities

Além disso, é possível identificar quais são os instrumentos de cada um desses hedges.

Resultado financeiro

Suzano S.A.

Fonte: DFP 1T20

Em seguida, apresenta-se na nota explicativa 26, o resultado financeiro, que dentro dele, vai ser exposto o resultado dos instrumentos financeiros. Conforme destacado o resultado negativo foi de R$ 9.093.595 bilhões.

Pesquisas acadêmicas sobre Hedge Accounting

Dentre os estudos acadêmicos da área, temos o estudo de Cardoso e Rosa (2017) que teve como objetivo analisar se as organizações brasileiras de capital aberto listadas no Novo Mercado da BM&FBovespa contrataram hedge para suas operações nos anos de 2015 e 2016. As autoras identificaram que entre os anos de 2015 e 2016  houve uma considerável utilização de hedge pelo segmento, totalizando 45 empresas em 2015 e 54 em 2016, sendo o setor de Consumo Cíclico o que mais contratou operações desse tipo em ambos os anos e  que pouco menos de 50% das empresas que possuíam hedge em 2015 e 2016 apresentavam receita com exportação e mais que 85% das empresas foram auditadas por uma empresa Big 4, sendo esse o resultado mais expressivo.

Por outro lado, o estudo de Fonseca, Galdi e Hartwig (2017) que tinha como objetivo analisar se o fato de os bancos brasileiros adotarem o hedge accounting seria capaz de trazer um aumento na persistência nos lucros. O resultado encontrado foi que o hedge accounting é capaz de aumentar a persistência de lucros dos bancos.

Considerações Finais sobre Hedge Accounting

Em resumo, após essas explicações, entende-se que é possível para o investidor buscar todas as informações necessárias para entender qual é o instrumento de hedge, objeto do hedge, tipo de risco e quais são os impactos do hedge.

Por fim, entende-se a importância de os investidores entenderem todos os aspectos sobre o hedge accounting, uma vez que o número de empresas que fazem o uso dessa metodologia vem aumentando e precisamos estar atentos a seus possíveis efeitos na análise fundamentalista.

Saiba mais sobre hedge accounting com o caso da Suzano, no vídeo abaixo:

Referências

CARDOSO, Juliane Mews; ROSA, Bruna Heloisa. Operações de hedge: análise dos aspectos determinantes de sua utilização pelas empresas listadas na BM&FBOVESPA. Revista Produção Industrial e Serviços, v. 4, n. 2, p. 115-130, 2017.

FONSECA, Weven da Silva Viana; GALDI, Fernando Caio; HARTWIG, Andréia. A adoção de hedge accounting e a persistência dos resultados divulgados pelos bancos em atuação no mercado brasileiro. Contabilidade Vista & Revista, v. 30, n. 3, p. 106-127, 2019.

SILVA, Fernando Chiqueto da. Hedge accounting no Brasil. 2014. Tese de Doutorado. Universidade de São Paulo.

Ígor Leite
Ígor Leite
Contador e Mestre em Ciências Contábeis pelo PPGCC/UFPB
Contribui com textos educativos para o TC School

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