26/02/2019 às 13:13

7 – Demonstração dos fluxos de caixa: Cash is King

Felipe Pontes Felipe Pontes

Além do resultado abrangente (e, claro, o lucro/prejuízo), existe uma outra demonstração contábil muito importante e de uso obrigatório recente no Brasil que todo investidor deve conhecer.
Neste texto vocês conhecerão não apenas a demonstração dos fluxos de caixa em si, mas saberão a importância dos três tipos de fluxos de caixa que as empresas apresentam:

  • Fluxo de Caixa das Atividades Operacionais
  • Fluxo de Caixa das Atividades de Investimento
  • Fluxo de Caixa das Atividades de Financiamento

O QUE É A DEMONSTRAÇÃO DOS FLUXOS DE CAIXA (DFC)

Quando falamos em demonstração dos fluxos de caixa (DFC), é importante ressaltar que não estamos apenas falando de caixa de fato, mas também dos equivalentes de caixa. Por isso, primeiro precisamos entender o que são os equivalentes de caixa para então entendermos o conceito da DFC.

Enquanto o caixa é definido como o dinheiro de fato, em espécie, e os depósitos bancários disponíveis para saque, os equivalentes de caixa são, segundo o CPC 03 que trata da DFC:

(…) aplicações financeiras de curto prazo, de alta liquidez, que são prontamente conversíveis em montante conhecido de caixa e que estão sujeitas a um insignificante risco de mudança de valor.

No caso da Sanepar, eles têm como equivalentes de caixa algumas aplicações em um fundo de investimento exclusivo com carteira composta basicamente de títulos públicos federais e certificados de depósito bancário (CDB) que rendem até 102% do CDI. Essas aplicações são apresentadas no balanço patrimonial pelo valor original da aplicação mais os rendimentos auferidos mensalmente – todas essas informações podem ser obtidas nas notas explicativas.

Agora que você já entendeu o que são os equivalentes de caixa, podemos entender que a DFC é uma demonstração contábil que nos permite verificar como foi “formado” o estoque de caixa e equivalentes de caixa no período que se está analisando (trimestres ou anos), separando o que foi gerado por meio das atividades operacionais, de investimento e de financiamento.

PARA QUE SERVE A DEMONSTRAÇÃO DOS FLUXOS DE CAIXA (DFC)

Vocês já sabem, com base nos textos anteriores, que a demonstração do resultado do exercício (DRE) nos fornece como resultado final o lucro ou prejuízo do período, por meio do confronto das receitas com as despesas usando o regime de competência.

Na DFC nós não usamos o regime de competência, mas sim o regime de caixa que também foi explicado no texto sobre a DRE.

Assim, a DFC nos fornece o fluxo de entradas e saídas de recursos no período em que houve o movimento de caixa e equivalentes.

Desse modo, como a DFC não envolve estimativas e reduz os efeitos das escolhas que a gestão da empresa faz para a utilização de critérios contábeis, comparar o desempenho da empresa pela DFC pode gerar uma informação adicional útil para os investidores.

Vamos ao exemplo das propriedades para investimento (PPI) cuja norma é relativamente recente no Brasil. Quando da adoção da norma de PPI, algumas empresas que exploram a atividade de administração de shopping centers poderiam optar (escolha contábil) por continuar usando o custo histórico com depreciação ou passar a utilizar o valor justo com ajuste periódico na mensuração das suas propriedades para investimentos.

A escolha pelo valor justo poderia tornar os lucros mais voláteis, porque a empresa passaria a reconhecer as alterações no valor de mercado dos ativos diretamente no seu resultado (lucro ou prejuízo), o que poderia afetar, por exemplo, a distribuição de dividendos.

Para o investidor que usa indicadores baseados nos números das demonstrações contábeis, das 6 (seis) empresas de capital aberto que atuavam no setor de exploração de shoppings, à época da adoção inicial da norma, apenas duas escolheram usar o valor justo.

O efeito disso, para os desavisados e os que não conheciam a norma contábil, é que a comparação de desempenho pelo lucro poderia levar a conclusões equivocadas, por isso a importância de olhar também, especialmente nesse caso, a geração de caixa e equivalentes de caixa, pois a variação do valor justo não tem efeito de caixa no curto prazo e poderá ser revertido, dependendo de fatores que não são controlados pela empresa.

Outro ponto que faz com que os investidores desse tipo de empresa fiquem mais atentos à geração de fluxo de caixa e não apenas ao lucro é que a periodicidade da mensuração à valor justo também está sujeita à uma escolha contábil.

Agora vamos a um exemplo de modo a saber outras informações que podemos tirar da DFC (Alpargatas).

Vejam que a DFC começa pelo lucro líquido. Isso quer dizer que a empresa está apresentando a DFC pelo método indireto (mais comum), dessa forma se inicia pelo lucro líquido e a empresa efetua os ajustes para conciliar o lucro com o caixa e equivalentes de caixa.

Esses ajustes são, basicamente, adicionar de volta as despesas que não afetam o caixa do período (depreciação, por exemplo), subtrair ganhos que não afetam o caixa do período (benefícios para empregados, por exemplo), adicionar e subtrair fatores que afetam o caixa e não afetaram o lucro do período (compra de estoques e fornecedores a pagar, por exemplo).

Dessa maneira, podemos verificar que a Alpargatas gerou caixa positivo nas suas atividades operacionais (indicando que a operação está funcionando), gerou caixa positivo nas suas atividades de investimento (indicando que as vendas e resgates de investimento superou as aplicações e as compras de novos investimentos) e gerou caixa negativo nas atividades de financiamento (indicando que a empresa tem desembolsado mais caixa para pagar aos investidores e financiadores do que recebido dinheiro deles).

Felipe Pontes

Felipe Pontes

Diretor Educacional do TradersClub

Doutor em Contabilidade com foco em informações contábeis para o mercado de capitais pelo Programa UnB/UFPB/UFRN.
Professor de Contabilidade e Valuation.
Gestor de Clube de Investimento.

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