26/02/2019 às 13:25

8 – Demonstração das mutações do patrimônio líquido: para onde os lucros são destinados?

Felipe Pontes Felipe Pontes

No texto anterior, sobre a demonstração dos fluxos de caixa (DFC) vocês puderam ter uma ideia de como o “estoque” de caixa e equivalentes de caixa é formado no balanço patrimonial, por meio da segregação entre o que é relativo à atividade operacional, de investimento e de financiamento da empresa.

Neste texto vocês poderão responder a perguntas do tipo: como o patrimônio líquido (PL) que está no balanço patrimonial foi alterado de um ano para o outro, semelhante à relação entre DFC e balanço patrimonial? Como os lucros do período foram distribuídos entre dividendos e reservas?

O QUE É A DEMONSTRAÇÃO DAS MUTAÇÕES DO PATRIMÔNIO LÍQUIDO (DMPL)?

A demonstração das mutações do patrimônio líquido (DMPL) é a demonstração contábil que talvez tenha o nome mais didático. Como o nome diz, é por meio da DMPL que podemos verificar todas as alterações (mutações) que ocorreram dentro do patrimônio líquido (PL), seja por transações com sócios, distribuição do resultado do período entre as contas de reservas que existem dentro do PL, ou transferência de saldo entre as reservas que já existem.

A forma como essa demonstração é apresentada difere significativamente das demais demonstrações que já foram apresentadas nesta série de textos, porque a apresentação se dá em forma matricial, conforme vocês poderão observar no exemplo no parte final desse texto.

PARA QUE SERVE A DEMONSTRAÇÃO DAS MUTAÇÕES DO PATRIMÔNIO LÍQUIDO (DMPL)?

A DMPL é uma demonstração contábil importante, mas esquecida por analistas e investidores. Como ela demonstra como o PL foi alterado, podemos extrair informações importantes com relação a evolução da conta.

No exemplo abaixo trazemos a DMPL da Itaúsa em 2018, porém com um extrato da DMPL referente ao ano de 2017.

Essa DMPL foi especialmente selecionada porque normalmente os investidores criam suas planilhas de análise das empresas à medida em que as informações são divulgadas, todavia, mesmo as informações já divulgadas podem sofrer alterações e causar distorções na análise comparativa de anos anteriores.

Essa é uma primeira vantagem básica de se analisar a DMPL. Com o conjunto de informações contábeis de 2018, é possível verificar que foram feitos ajustes com relação a 2016 que afetaram o PL de 2017, de uma maneira muito objetiva e logo no início da demonstração.

A DMPL da Itaúsa em 2018 nos informa qual nota explicativa trata desses ajustes (Nota 2.2. b sobre “Novos Pronunciamentos e Alterações e Interpretações de Pronunciamentos Existentes”), que foram feitos na conta de “Investimentos em Associadas e Entidades Controladas em Conjunto”.

Na DMPL, em termos gerais, podemos encontrar informações importantes sobre as alterações do PL originadas por (a) transações de capital com os sócios, (b) resultado abrangente e (c) mutações internas do PL.

Nas transações de capital com os sócios, no exemplo abaixo, temos diversas transações, dentre as quais podemos destacar que a empresa tinha R$ 204 milhões de ações em tesouraria no início de 2017, tendo adquirido mais R$ 449 milhões em ações para manter em tesouraria durante o ano, das quais R$ 653 milhões foram posteriormente canceladas. Dessa forma, o saldo de ações em tesouraria da empresa foi zerado ao término de 2017.

Outra conta importante para destacar, principalmente para os mais iniciantes em contabilidade, é a de “Dividendos e Juros sobre o Capital Próprio (Reserva de Lucros)”, que teve uma movimentação de R$ 5,002 bilhões no período aprovados (“Proposta de Distribuição de Dividendos Adicionais”), cujos valores foram originados da conta de “Lucros/(Prejuízos) Acumulados”.

Ou seja, a empresa teve lucro no período, que está demonstrado na DRE, e o lucro do período foi alocado na conta de “Lucros/(Prejuízos) Acumulados”, cujo saldo tem que ser distribuído totalmente entre proventos ou outras reservas do PL. Após a apuração desse lucro, a administração da empresa propôs pagar os R$ 5,002 bilhões como dividendos.

Com relação ao resultado abrangente (“Total do Resultado Abrangente”), a DMPL apresenta a diferenciação entre resultado abrangente e resultado líquido (lucro ou prejuízo), mas aqui não há muita novidade, pois já vimos isso na DRE.

A novidade está em olhar na coluna de “Lucros/(Prejuízos) Acumulados” em que vemos realmente toda a destinação do lucro do período:

  • “Dividendos e Juros sobre o Capital Próprio Reserva de Lucros” no valor de R$ 2,294 bilhões;
  • “Dividendos e Juros sobre o Capital Próprio Reserva de Lucros” (Reserva de Lucros), como proposta de distribuição de dividendos adicionais, no valor de R$ 5,002 bilhões;
  • Destinação de parte do lucro para “Reserva Legal”, no valor de R$ 407 milhões; e
  • Destinação de parte do lucro para “Reservas a Integralizar”, no valor de R$ 407 milhões.

Por falar em reservas, essas também são as mutações internas do PL, pois aconteceu apenas o deslocamento de uma conta do PL para outra conta do PL, não havendo aumento ou redução do total com esse movimento.

Atributo à participação dos acionistas controladores

Felipe Pontes

Felipe Pontes

Diretor Educacional do TradersClub

Doutor em Contabilidade com foco em informações contábeis para o mercado de capitais pelo Programa UnB/UFPB/UFRN.
Professor de Contabilidade e Valuation.
Gestor de Clube de Investimento.

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