27/02/2019 às 14:51

11 – Analisando os números contábeis em conjunto

Felipe Pontes Felipe Pontes

Agora que vocês já conhecem todas as demonstrações contábeis e sabem que podem obter informações adicionais por meio da leitura das notas explicativas, é preciso entender as relações entre as demonstrações contábeis de modo a extrair informações relevantes para a tomada de decisão.

Ressalto que antes de analisar os números contábeis, é importante que o analista ou investidor leia atentamente o relatório de auditoria, de modo a verificar se existem problemas que inviabilizam a análise das demonstrações contábeis.

O objetivo deste texto é apresentar para vocês alguns conceitos que poderão ser aprofundados sobre a análise dos números contábeis, sem a pretensão de ser exaustivo no assunto, começando com a integração entre as demonstrações contábeis e finalizando com uma introdução à análise dos números.

COMO AS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS INTERAGEM ENTRE ELAS

Nos textos anteriores nós conhecemos o balanço patrimonial (BP), a demonstração do resultado do exercício (DRE), demonstração do resultado abrangente (DRA), demonstração dos fluxos de caixa (DFC), demonstração das mutações do patrimônio líquido (DMPL) e a demonstração do valor adicionado (DVA).

É possível que você pense nelas de forma separada, inicialmente, mas todas essas demonstrações têm algum nível de interação.

Quando apuramos o resultado líquido e abrangente do exercício e o apresentamos na DRE e DRA, é possível verificarmos que esse resultado está representado também na DMPL, que nada mais é que um “raio-x” do patrimônio líquido da empresa, dando detalhes sobre várias contas que estão dentro dele. O patrimônio líquido, por sua vez, é uma conta importantíssima do BP – como veremos mais à frente, base para diversos índices.

A DRE também interage muito com a DVA, visto que várias informações da DRE são usadas como inputs para a DVA, como as receitas e despesas em geral.

Já a DFC, que é uma demonstração contábil bem longa e detalhada, nos explica bem como foi formado o saldo final da conta de caixa e equivalentes de caixa. A partir da análise detalhada da DFC, podemos entender melhor como a empresa tem usado os seus recursos e como tem se financiado.

Todas essas demonstrações interagem e é preciso enxergá-las como sendo um conjunto completo de demonstrações contábeis e não peças separadas.

O QUE PODEMOS ANALISAR COM BASE NAS DEMONSTRAÇÕES CONTÁBEIS

A partir dos números contábeis nós podemos extrair muitas informações, mas de uma forma geral, a análise pode ser segregada em análise vertical e horizontal, além da análise de indicadores, com o objetivo de inferir sobre a liquidez, endividamento e rentabilidade das empresas.

Análise Vertical e Análise Horizontal
Na análise vertical (AV) nós podemos verificar o peso de cada conta em relação a um referencial. Na DRE o referencial é a receita bruta e no BP o referencial é o ativo total. Na análise horizontal (AH), nós devemos analisar a evolução das contas ao longo do tempo.

Para facilitar o entendimento, vamos a um BP simplificado (de uma empresa real de capital fechado). Como o objetivo da AV é nos apresentar os pesos das contas em relação ao ativo total, podemos ver, por exemplo, que essa empresa é quase que totalmente financiada pelo capital dos sócios e reinvestimento dos lucros, porque o patrimônio líquido tem peso de 96,26% do ativo total.

Na AH nós vemos a evolução de um ano para o outro e podemos perceber que o patrimônio líquido cresceu 129,33% (o que afeta essa conta? Pense na primeira parte do texto e no texto sobre BP e DRE), enquanto que os passivos foram reduzidos.

Contabilidade financeira - TC School

Na DRE, por meio da AV, nós tiramos informações que também são muito úteis, como a margem líquida, que, no caso do exemplo abaixo, foi de 41,18%. Isso quer dizer que 41,18% da receita da empresa acaba por se tornar lucro líquido, após compensar todas as despesas.

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Análise da Rentabilidade
Um dos principais índices de rentabilidade para os investidores é o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE – return on equity). Esse indicador nos indica quanto rendeu o lucro líquido da empresa com relação ao capital que foi investido pelos sócios (mais os lucros retidos).

Existem 3 (três) formas de se calcular o ROE e a diferença entre elas está no denominador do índice: 1) PL do ano anterior, 2) PL do ano atual, ou 3) PL da média entre o ano atual e anterior. Eu considero, com base nas informações que normalmente temos disponíveis, que a forma mais correta é a primeira, por usar como base o patrimônio investido no início do período que foi usado para gerar lucro durante o ano todo:

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O ROE da empresa usada como exemplo foi absurdamente alto, afetado por eventos não recorrentes. ROEs bons, normalmente, são superiores a 10% (mas é preciso comparar com o custo do capital, que vocês poderão entender na grade de textos sobre valuation).

Análise da Liquidez
Liquidez é a capacidade que a empresa tem de converter seus ativos em caixa. Assim como na rentabilidade, existem diversas medidas de liquidez da empresa. No caso dos indicadores de liquidez, eles indicam não só a capacidade que a empresa tem de transformar seus ativos em caixa, mas também a capacidade de pagamento dos passivos com os ativos analisados.

Um dos indicadores mais famosos é o de liquidez corrente. Para a nossa empresa de exemplo, nós sabemos que ela tem, com base nos seus ativos circulantes, a capacidade de pagar o equivalente a mais de 11 vezes os seus passivos circulantes – o que é muito bom.

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Todavia, liquidez corrente demais pode ser um problema, pois afetará a rentabilidade da empresa, uma vez que o dinheiro poderá estar “parado” em aplicações financeiras que rendem pouco. Mas isso tem que ser avaliado de forma mais qualitativa, caso a caso, porque algumas empresas podem ficar com dinheiro parado e rendendo pouco, mas aguardando uma boa oportunidade de investimento que trará muito mais retorno no futuro.

Análise do Endividamento
Por fim, nos grandes grupos de análise por indicadores, estão os indicadores de endividamento. O mais famoso deles é o endividamento geral, que nos dá a dimensão do endividamento da empresa.

Considerando que capital de terceiros é a soma do passivo circulante com o passivo não circulante, temos que para cada R$ 1,00 de ativos que a empresa tem, ela tem obrigações com terceiros de R$ 0,0774, o que é um nível aparentemente bom.

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Assim como nos demais indicadores, eu apresentei apenas um exemplo de cada. É preciso que os investidores se aprofundem em mais indicadores e selecione os indicadores adequados para cada caso. Por exemplo, no endividamento geral é possível que tenhamos um compromisso muito forte de curto prazo, que comprometa a saúde financeira da empresa, mas que no geral parecia bom.

Existe um mundo bem amplo relacionado à análise das demonstrações contábeis!

Felipe Pontes

Felipe Pontes

Diretor Educacional do TradersClub

Doutor em Contabilidade com foco em informações contábeis para o mercado de capitais pelo Programa UnB/UFPB/UFRN.
Professor de Contabilidade e Valuation.
Gestor de Clube de Investimento.

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