18/02/2019 às 16:54

3 – A natureza das contas e os conceitos básicos de contabilidade

Felipe Pontes Felipe Pontes

Agora que vocês já sabem o que é débito e crédito em contabilidade e que quando uma empresa compra um bem o lançamento é feito com um débito na conta do bem e um crédito na conta de quem pagou o bem.

Se uma empresa compra um carro financiado, nós debitamos o valor do carro na conta “veículos”, que fica no ativo (bens da empresa), e credita o valor da dívida na conta “empréstimos e financiamentos” do passivo (obrigações).

Mas por que isso acontece? Por que a coisa “boa” (o bem) é débito e a coisa “ruim “ (a obrigação de pagar) é crédito? Já pensou nisso? Neste texto eu explicarei o porquê e ainda apresentarei para vocês os conceitos básicos que serão úteis para entender as demonstrações contábeis, como o balanço patrimonial e a demonstração do resultado do exercício.

A NATUREZA DEVEDORA E CREDORA DAS CONTAS

Débito tem origem no latim (debita) que quer dizer um montante devido a alguém, enquanto que crédito (creditum) se refere a um empréstimo com confiança. Sabendo disso, quando uma empresa inicia as suas atividades, qual é o primeiro evento contábil mais simples que pode existir? Se você pensou que são os donos do capital (sócios) emprestando dinheiro para a empresa,
você pensou corretamente.

Assim, se a empresa iniciou as atividades com R$ 100.000,00 em uma conta bancária e um carro no valor de R$ 40.000,00, os sócios da empresa têm um crédito no valor de R$140.000,00 na empresa. Enquanto isso, a empresa usará os R$ 100.000,00, mais o carro no valor de R$ 40.000,00, sendo essa a dívida que a empresa tem para com os sócios.

Por isso as contas do ativo têm natureza devedora (os ativos são bens usados pela empresa, porém ela deve isso a quem financiou as suas atividades) e as do passivo têm natureza credora
(é o crédito que os financiadores têm na empresa).

Contabilmente, o lançamento da constituição da empresa no exemplo dado é o seguinte:

Débito – Banco: R$ 100.000,00
Débito – veículos: R$ 40.000,00
Crédito – Capital Social: R$ 140.000,00

DEFINIÇÕES DOS PRINCIPAIS CONCEITOS DE CONTABILIDADE

Patrimônio

O primeiro conceito que acaba por resumir uma das principais funções da informação contábil é o patrimônio. O patrimônio da empresa (entidade) é representado pelos ativos (aplicações
dos recursos), passivos e patrimônio líquido (são as origens dos recursos que foram aplicados). Esses 3 (três) itens que formam o patrimônio são usados para mensurar a posição patrimonial
e financeira da empresa e podem também ser representados pela equação patrimonial, em que Ativos = Passivos + Patrimônio Líquido.

Ativo, Passivo e Patrimônio Líquido: as contas patrimoniais

Como foi apontado na natureza das contas, é no ativo que alocamos as aplicações dos recursos que a empresa captou. Contabilmente usamos uma definição mais sofisticada, em que o ativo é um recurso controlado pela empresa como resultado de eventos passados e do qual se espera que a empresa obtenha benefícios econômicos futuros (seja por meio de recebimento de receitas ou redução de despesas).

Já o passivo é uma fonte de captação (origem) de recursos para a empresa, que, contabilmente, é definida como uma obrigação presente, derivada de eventos passados, cuja liquidação se espera que resulte na saída de recursos da empresa que poderiam ser usados para gerar benefícios econômicos no futuro. Essa fonte de captação pode ser onerosa (empréstimos e financiamentos), ou seja que paga juros, ou não onerosa (salários e outras contas a pagar que tiveram o pagamento levado para meses posteriores).

Tanto os ativos quanto os passivos são apresentados no Balanço Patrimonial conforme a ordem de liquidez ou realização (que é o prazo de transformação do ativo em dinheiro e do pagamento do passivo). Em geral, nós classificamos os ativos e passivos em circulante (prazo de até 12 meses) e não circulante (prazo posterior a 12 meses).

Por sua vez, com relação à mensuração da posição patrimonial e financeira, tem-se o patrimônio líquido (PL), que, assim como o passivo, também é uma origem de recursos para as empresas, visto que é composto pelo capital que foi aportado pelos sócios para investir na empresa e os lucros que não foram distribuídos como dividendos. Formalmente, o PL é definido como sendo o interesse residual nos ativos da entidade depois de deduzidos todos os seus passivos. Ou seja, considerando os valores de entrada dos ativos e passivos, é o que sobraria dos ativos após quitar todos os passivos.

Definidos os elementos que nos auxiliam na mensuração da posição patrimonial e financeira, precisamos agora entender os elementos que nos auxiliam na mensuração da performance da empresa.

Receitas e Despesas: as contas de resultado

Quando falamos de performance, pensamos em resultado. É o resultado que nos auxilia, por exemplo, a calcular alguns indicadores de retornos que veremos em artigos futuros. O resultado do período é encontrado por meio do confronto das receitas com as despesas. Quando o resultado do confronto entre as receitas e as despesas é positivo, nós o chamamos de lucro e quando é negativo nós o chamamos de prejuízo.

As receitas são as “entradas” de recursos na empresa que são obtidas (dinheiro de fato ou contas a receber), por meio da venda de produtos ou serviços.

Formalmente elas são definidas como aumentos nos benefícios econômicos durante um período que está sendo analisado (normalmente no decorrer de trimestres e anos), sob a forma da entrada de recursos ou do aumento de ativos ou diminuição de passivos, que resultam em aumentos do PL, e que não estejam relacionados com a contribuição dos detentores dos instrumentos patrimoniais (os investidores).

Dessa definição nós extraímos que o aumento do PL por meio da emissão de ações não pode ser considerado uma receita, enquanto que a venda de produtos pode, apesar de as duas terem gerado aumento dos ativos.

Por fim, mas não menos importante, temos as despesas, que são definidas como decréscimos nos benefícios econômicos durante um período que se está sendo analisado (normalmente no decorrer de trimestres e anos), sob a forma da saída de recursos ou da redução de ativos ou aumento de passivos, que resultam em decréscimo do PL, e que não estejam relacionados com distribuições aos detentores dos instrumentos patrimoniais (os investidores).

A partir dessa definição, entende-se que os dividendos, apesar de gerarem uma redução do PL, não são despesas e que o pagamento de juros, salários etc são despesas. Esses são os conceitos básicos que precisaremos para entender as demonstrações contábeis. Quem quiser se aprofundar mais nos conceitos, recomendo a leitura da Estrutura Conceitual para Elaboração e Divulgação de Relatório Contábil-Financeiro.

A partir do próximo texto começaremos a estudar as principais demonstrações contábeis:

  • Balanço Patrimonial: uma foto numérica do patrimônio da empresa
  • Demonstração do Resultado do Exercício: o lucro é realmente tão importante assim?
  • Demonstração do Resultado Abrangente: o lucro é o fim?
  • Demonstração dos Fluxos de Caixa: cash is king
  • Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido: para onde os lucros são destinados?
  • Demonstração do Valor Adicionado: como a riqueza é distribuída?
  • Notas Explicativas: ou nem tanto assim
  • Analisando os números contábeis em conjunto
  • O valor contábil é o valor de fato da empresa
  • Você já sabe tudo sobre Contabilidade?

Felipe Pontes

Felipe Pontes

Diretor Educacional do TradersClub

Doutor em Contabilidade com foco em informações contábeis para o mercado de capitais pelo Programa UnB/UFPB/UFRN.
Professor de Contabilidade e Valuation.
Gestor de Clube de Investimento.

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