23/06/2020 às 15:00

Modelo de Fleuriet – o que é e suas aplicações

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Nesse texto falarei sobre o modelo de Fleuriet que é uma das forma de realizar análises sobre a situação econômico-financeira das companhias, em especial a sua liquidez. Para um melhor entendimento do modelo, o texto está dividido nos seguintes tópicos:

  1. Entendendo o conceito
  2. Classificações
  3. Exemplo
  4. Dica de análise – como o investidor pode utilizar o modelo de Fleuriet

Boa leitura!

modelo de fleuriet

Entendendo os conceitos do modelo de Fleuriet

A princípio, o modelo de Fleuriet foi desenvolvido por meio da pesquisa do pesquisador Michel Fleuriet e uma equipe de pesquisadores da Fundação Dom Cabral no ano de 1978. A ideia do projeto era criar um modelo dinâmico, uma vez que os modelos anteriores utilizavam dados estáticos. O modelo Fleuriet por outro lado, traz uma forma dinâmica de analisar uma empresa.

Nesse sentido, o modelo considera três indicadores que são o Capital de Giro (CDG), a Necessidade de Capital de Giro (NCG) e o Saldo em Tesouraria (ST).

CDG

O CDG é calculado através da equação:

CDG = PNC + PL – ANC

Onde:

  • PNC é passivo não circulante
  • PL é o patrimônio líquido
  • ANC é o ativo não circulante

O Passivo Não Circulante são os passivos de longo prazo da companhia. Ou seja, passivos que têm um prazo de liquidação superior a 1 ano. O Patrimônio Líquido representa o capital dos sócios na empresa e o Ativo Não Circulantes são os ativos de longo prazo da empresa.

Assim, o indicador CDG representa uma fonte permanente de fundos para a empresa financiar sua necessidade de capital de giro.

NCG

A NCG por sua vez, é calculada através da seguinte fórmula:

NCG = ACC – PCC

Onde:

  • ACC é Ativo Circulante Cíclico
  • PCC é Passivo Circulante Cíclico

O ACC são os ativos que são utilizados no operacional da companhia, ou seja, ativos de curto prazo. Dentre os exemplos para ativos cíclicos podemos elencar: estoques, contas a receber, adiantamento e outros valores que compõem o operacional da companhia.

Já o PCC segue a mesma lógica. São os passivos utilizados no operacional da companhia, dentre os exemplos temos: fornecedores, salários, impostos, e outros valores que podem compor o operacional da companhia.

Assim, o indicador NCG irá representar o saldo das contas cíclicas relacionadas com as operações da companhia.

 ST

Por fim, podemos mensurar o ST  através da equação:

ST = CDG – NCG

Esse indicador vai representar o saldo financeiro da empresa. Nesse sentido, se for positivo indicará disponibilidade no curto prazo, caso o contrário, significa que a companhia não tem disponibilidade para o curto prazo.

Classificações do Modelo de Fleuriet

Podemos utilizar esse indicador para classificar as empresas. Marques e Braga (1995), sugerem a seguinte forma de classificação:

Após realizada a classificação das empresas, podemos fazer as seguintes inferências, de acordo com o seu tipo:

  • 1 – Excelente. É uma situação que a empresa possui alto nível de liquidez, sendo garantido pelo saldo de tesouraria positiva, necessidade de capital de giro negativo e capital de giro positivo.
  • 2 – Sólido. É a classificação onde se encontra a maior parte das empresas (FLEURIET, ZEIDAN,2015).
  • 3 – Insatisfatório. Situação na qual o saldo em tesouraria é negativo, evidenciando que o capital de giro não é suficiente para cobrir a necessidade de capital de giro.
  • 4 – Péssimo. Acontece quando o capital de giro é negativo, sinalizando que as empresas que estão nessa classificação utilizam fontes do curto prazo para investimentos no longo prazo.
  • 5 – Muito ruim. São empresas que possuem um capital de giro negativo indicando que a empresa utiliza fontes de curto prazo para financiar ativos de longo prazo.
  • 6– Alto Risco. São as empresas que possuem saldo de tesouraria positivo, isso acontece devido a companhia possuir uma necessidade de capital de giro menor do que o capital de giro.

Exemplo prático do modelo de Fleuriet

Para fins de exemplo, utilizaremos duas empresas que foram a BRF(BRFS3) e a Via Varejo (VVAR3). Fiz a escolha destas empresas para evidenciar possíveis mudanças que aconteceram entre o período de 2015 ao 1T20, quanto ao modelo de Fleuriet na empresa.

Primeiramente, apresentamos os indicadores da BRF e em seguida apresentamos a classificação sugerida pelo modelo Fleuriet de acordo com esses indicadores.

modelo de Fleuriet

Fonte: autor

Conforme a figura, observamos que a empresa se manteve sempre classificada como sólida – Tipo 2 de acordo com modelo de Fleuriet.

Após observar os dados da BRF, analisaremos os dados da Via Varejo.

modelo de fleuriet

Fonte: autor

Conforme a figura acima, observamos que a classificação do modelo Fleuriet para a Via Varejo vem mudando com o tempo. Em 2015, o nível era de Excelente – Tipo 1. Em seguida, ficou classificada como “muito ruim” entre os anos 2016 e 2018– Tipo 5. Ao final de 2019 e no 1T20, a companhia ficou classificada como Péssima – Tipo 4.

Apesar do modelo classificar a gestão do capital de giro como péssima, observamos uma recuperação com o passar do tempo, condizente com o discurso da companhia, bem como o estágio de turnarround que a empresa vem passando. Além disso, a captação feita por meio do follow-on e das debêntures, poderão ajudar a companhia a melhorar sua gestão de capital.

Uso do modelo de Fleuriet pelo investidor

Assim, após entender os conceitos que envolvem o modelo Fleuriet, compreender suas classificações e observar exemplos da aplicação do modelo, falarei sobre algumas abordagens que evidenciam a importância do investidor utilizar o modelo Fleuriet no seu processo de análise.

De acordo com Cordeiro, Teles e Batista (2020), com base em uma amostra de empresas listadas na B3, entre os anos de 2014 a 2017, constatou que a maior parte dessass empresas B3 eram do Tipo 3 – Insatisfatória. Deve-se lembrar que no período analisado, o Brasil estava passando por um período de crise política/financeira o que pode ter afetado os indicadores analisados pelo modelo de Fleuriet.

Deve-se ressaltar ainda que, de acordo com Ribeiro, Camargos e Camargos (2019) o modelo Fleuriet é capaz de ser utilizado para avaliar o comportamento de empresas em períodos mais longos, pois assim, os efeitos de curto prazo são diluídos no tempo. Apesar disso,  não é sugerido para os investidores utilizar apenas esse modelo para analisar uma empresa, deve-se analisar outros fatores como o ciclo de vida, no processo de valuation da companhia.

Referências

CORDEIRO, Julie Tanara Ramos Oliveira; TELES, Mariana Caldeira; BATISTA, Alexandre Teixeira Norberto. Análise do Perfil Financeiro das Empresas de Capital Aberto de Acordo com o Modelo Fleuriet–2014 a 2017. RAGC, v. 8, n. 33, 2020.

FLEURIET, Michel; ZEIDAN, Rodrigo. O Modelo Dinâmico de Gestão Financeira—. Alta Books Editora, 2015.

MARQUES, José Augusto da Costa; BRAGA; Roberto. Análise Dinâmica do Capital de Giro: O Modelo Fleuriet. Revista de Administração de Empresas, RAE, v.35, n.3, p. 49-63, maio/junho, 1995.

RIBEIRO, Felipe Aprígio dos Santos Teixeira; CAMARGOS, Mirela Castro Santos; DE CAMARGOS, Marcos Antônio. Testando a Capacidade Preditiva do Modelo Fleuriet: Uma Análise com Empresas Listadas na B3 Testing Fleuriet’s Model Predictive Capacity: an Analysis with B3 Listed Companies. Revista BASE–v, v. 16, n. 1, 2019.

Ígor Leite
Ígor Leite
Contador e Mestre em Ciências Contábeis pelo PPGCC/UFPB
Contribui com textos educativos para o TC School

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