03/06/2020 às 15:00

Mensurando a performance da empresa: regime de competência x caixa

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Nesse texto, o Professor Fernando Dal-Ri Murcia da FEA-USP, comenta sobre os regimes de competência e de caixa, mostrando os cuidados que devem ser tomados em nossas análises. Abordaremos os seguintes tópicos:

  • Competência x caixa
  • Exemplificando os dois regimes
  • Entenda o modelo contábil e de negócios

regime de competencia

Boa leitura!

A princípio, em uma definição simples, o lucro é a diferença entre o que você colocou e o que retirou ao final de qualquer operação. Você colocou 10, retirou 20: lucrou 10. Se foi no mesmo período, seu lucro será igual ao aumento do caixa. Mas como analisar isso em uma grande empresa?

Regime de Competência vs Regime de Caixa

O problema de mensurar o desempenho das empresas é que uma empresa é um organismo vivo. Assim, só conseguimos saber o lucro “exato” quando a empresa acaba. Assim, o lucro será a diferença entre o que eu coloquei (capital) e o que eu retirei (dividendos e Juros sobre capital próprio) e o que sobrou (após vendidos os ativos e pagos os passivos).

Entretanto, os stakeholders (acionistas, credores, fisco etc.) não podem esperar o “fim” da empresa para apurar o lucro exato. Então – ao longo dos anos – estabeleceram-se “regras” (normas contábeis) para mensurar de forma “aproximada” este lucro. Então lucro é “proxy“, uma aproximação, para o desempenho da empresa.

Essa proxy pode ser “boa” ou “ruim” dependendo da empresa, do modelo de negócios etc. As normas contábeis “tentam” estabelecer regras para que esse lucro (aproximado) reflita de forma verdadeira a performance da empresa em dado período (mês, trimestre, ano etc)

Mas alguém poderia dizer: “Pra que gastar tempo com normas contábeis seu eu posso apenas olhar as entradas e saídas de caixa da empresa???

Exemplificando o regime de competência e de caixa

Considere o exemplo abaixo onde a empresa vendeu durante quatro meses mercadorias por 1.000 que tiveram custo de 500, sendo que:

  • 1: Não pagou os fornecedores no mês e vendeu a prazo (vai pagar e receber em M2)
  • 2: Pagou fornecedor do mês e vendeu a vista (e pagou e recebeu de M1)
  • 3: Pagou o fornecedor do mês, vendeu a vista e recebeu adiantamento das vendas de M4.

Competência e caixa

Oba! Lucros crescentes não? É Buy….rsrs. Neste simples exemplo, fica claro que a performance econômica da empresa foi a mesma nos três meses: lucro de 500 nos três meses, pois vendeu 1.000 mercadorias que custaram 500.

No regime de caixa, quando você deixar de pagar uma despesa, o lucro aumenta. Se o cliente paga adiantado, também. Sabe aquele amigo que não tem despesa de juros porque não paga a fatura do cartão; ou se sente mais rico quando pega um empréstimo e o dinheiro entra na conta?

Por isso, as regras contábeis privilegiam o regime de competência para apurar a performance da empresa. Entende-se que ele é melhor para pagar dividendos, tributos, remunerar executivos, estipular covenants etc. No jargão contábil, Accounting follows Economics – ou a contabilidade segue os fundamentos econômicos da empresa.

Modelos contábeis

Isso não quer dizer que existe um único modelo contábil para se reconhecer o lucro. Incorporação imobiliária: reconhecer ao longo da construção (POC) ou na entrega da chaves? Atividade agrícola: reconhecer o lucro durante o crescimento de eucalipto ou só no corte?

Mensurar um título de dívida na curva ou pela marcação à mercado, ganho na demonstração de resultados ou no outros resultados abrangentes? E assim vai. Apurar o lucro pelo regime de competência está longe de ser uma ciência exata: envolve uma série de regras e estimativas feitas pela administração da empresa.

Desnecessário dizer que ao alterar esse modelo contábil, o lucro será alterado. E não quer dizer necessariamente que um esteja errado e outro certo. São diferentes “tentativas” de refletir adequadamente os resultados da empresa.

Conheça o modelo contábil (e de negócio) da empresa

Por fim, quando for analisar o balanço é importante sempre – além de conhecer o modelo de negócios – conhecer o modelo contábil da empresa:

  • Quais as políticas contábeis que ela utiliza?
  • Quais as estimativas mais “relevantes” que afetam os números?
  • Os principais riscos etc.

E cuidado sempre com a “falsa” dicotomia de que não afeta o caixa. Pode não afetar hoje, mas já afetou no passado ou irá afetar no futuro. Até porque, como já discutido, é tudo uma questão temporal: o lucro e o fluxo de caixa se encontraram no final da empresa. Por outro lado, nenhuma demonstração financeira deve ser analisada isoladamente; óbvio que o fluxo de caixa é importante.

Por isso, as normas contábeis exigem a divulgação da Demonstração do Fluxo de Caixa, que apresenta o fluxo de caixa operacional (ah, que não é o EBITDA rs).

Leia também:

Texto produzido com material divulgado pelo Professor Fernando Dal-Ri Murcia, da FEA-USP, autor de vários livros e artigos sobre contabilidade.

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