26/05/2020 às 15:03

Indicadores fundamentalistas dos bancos: aprenda a analisá-los

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Nesse texto, vamos falar um pouco acerca dos indicadores fundamentalistas específicos dos bancos. Para um melhor entendimento, dividimos o texto nos seguintes tópicos:

  1. Entendendo a operação bancária
  2. Indicadores básicos
  3. Exemplo prático
  4. Dicas para uma boa análise

Caso queira aprender mais sobre como analisar e como fazer valuation de instituições financeiras, especificamente o valuation de bancos, recomendamos que clique aqui.

Boa leitura!

Indicadores dos bancos

Entendendo a operação dos bancos

Antes de tudo, não podemos analisar uma empresa sem antes conhecer a fundo como ela gera caixa. Ou seja, é necessário estar por dentro de  todo o seu contexto operacional.

Acima de tudo, no caso em especial dos bancos, a sua estrutura operacional e financeira é bem diferente das demais empresas. Isso ocorre além de tudo, devido às questões regulatórias, como valores mínimos que os bancos devem manter em depósitos compulsórios ao Banco central, bem como a padronização de sua contabilidade através do COSIF.

Nesse sentido, vamos falar brevemente acerca da operação bancária, para assim podermos entender seus indicadores de análise específicos.

A operação dos bancos

A príncipio, você já refletiu sobre como os bancos geram receitas? Utilizando como exemplo, as empresas não financeiras, sabemos que elas têm como atividade principal a venda de mercadorias (Estoque) ou a prestação de serviços, podendo também ser um mix de ambos para uma mesma empresa. Do mesmo modo, podemos pensar assim também para os bancos. Entretanto, o “estoque” do banco, nada mais é do que o dinheiro em si. Pensando dessa forma, fica mais fácil para quem está tendo um primeiro contato, ler e interpretar os números que estas empresas reportam em suas demonstrações contábeis.

O “estoque” dos bancos

Como a “mercadoria” dos bancos é o próprio dinheiro, essa mercadoria é “vendida” aos clientes, basicamente através dos empréstimos (operações de créditos). Ou seja, o banco disponibiliza para o cliente o recurso total hoje, e recebe esse recurso no decorrer do tempo, gerando a receita para o banco por meio dos juros incorridos nos empréstimos.

Os recursos que o banco disponibiliza aos seus clientes podem ser de diversas origens: Depósitos à vista de seus clientes, poupanças, CDB’s emitidos pelo banco, entre diversos outros.

O custo e a margem de lucro desse “estoque”

Tudo bem, mas afinal, se é um estoque, qual é o custo dele? Novamente, em uma empresa que vende mercadorias, o custo do estoque é o valor de aquisição e de formação das mercadorias, certo?

Do mesmo modo, no caso dos bancos é essencialmente da mesma forma. O custo do “estoque bancário”, é basicamente a taxa de juros que o banco precisa pagar para remunerar esse recurso que está disponível para empréstimos. Podemos verificar isso no lado do passivo do balanço patrimonial, ou seja, quais as origens desses recursos.

Nesse sentido, podemos ver facilmente que a margem de lucro de um banco, é, em essência, o spread (sobretaxa) que se aufere entre a captação x empréstimo. Por exemplo:

spread dos bancos

Fonte: Autor

Em outras palavras, podemos verificar de uma forma bastante simples, como o banco gera receita: ele toma um recurso emprestado a uma taxa x% e empresta esse mesmo recurso a outra taxa y%, existindo aí um spread, fazendo o banco ganhar nesta operação. Lembrando que, há diversos produtos bancários para se gerar receita e, consequentemente spread: Empréstimos para pessoas físicas e jurídicas, cartões de crédito, financiamentos, arrendamentos e vários outros.

Pensando dessa forma, fica um pouco mais fácil de se analisar um banco pela primeira vez. Nesse sentido, vejamos alguns indicadores fundamentalistas bem simples, sendo obtidos a partir de suas demonstrações contábeis.

Indicadores elementares dos bancos

Vamos verificar alguns indicadores específicos para a avaliação de performance financeiras e de liquidez destas instituições.

Índice de Basiléia

Esse índice, na verdade é um indicador regulatório. Ele é obtido através da relação entre o patrimônio líquido e os saldos em empréstimos. Sua intenção é determinar a relação do capital próprio que está exposto ao risco da carteira de crédito. Sem entrar nos detalhes regulatórios e históricos, para um indicador de 15%, podemos inferir que, para cada R$ 100 emprestados, o banco dispõe de R$ 15 de patrimônio. No Brasil, o Banco central estabelece o mínimo de 11% para este índice.

Margem financeira bruta (MFB)

A MFB, indica a relação entre o resultado bruto de intermediação financeira e a receita de intermediação financeira do banco. Podemos aqui, fazer uma analogia com a margem bruta auferida pelas empresas não financeiras:

Indicadores fundamentalistas de bancos: Margem financeira bruta

Margem financeira dos ativos (MFA)

A MFA por sua vez, indica a relação entre o resultado bruto e o ativo médio. Podemos interpretá-la como a capacidade do investimento na geração de resultados.

Indicadores fundamentalistas dos bancos: Margem financeira dos ativos

Custo médio de captação (CMP)

O CMP indicará, na média, o custo dos recursos que foram captados pelo banco. Ou seja, qual a taxa de juros média destas captações.

Indicadores dos bancos: Custo médio de captação

Retorno médio das operações de crédito (RMOC)

O RMOC pode ser lido como a taxa média de todas as operações de crédito realizadas pelo banco. Podemos estimá-lo a partir da relação entre a Receita de operação de crédito e os valores a receber das operações de crédito.

Indicadores dos bancos: Retorno médio das operações de crédito

Spread médio

Lembra da “margem de lucro” que comentei acima? Podemos fazer uma estimativa razoável dessa margem, ao verificar a sobretaxa entre o retorno médio das operações de crédito e o custo médio de captação, ambos comentados anteriormente.

Indicadores dos bancos: Spread médio

Índice de eficiência (IE)

As despesas representam os dispêndios necessários para se obter receitas. Dessa forma, o IE nos dá uma ideia da eficiência das despesas na geração de receitas. Como trata-se de uma relação gasto/receita, sua inferência é de quanto menor, melhor.

Indicadores dos bancos: Índice de eficiência

Imobilização do PL (IPL)

Por sua vez, o indicador IPL, pode ser utilizado em empresas de outros setores. Este índice, nos informa quanto do capital próprio está aplicado em ativos de natureza permanente (imobilizado, intangível, investimentos em outras empresas etc.). Nesse sentido, quanto maior esse índice, maior a chance da empresa necessitar de financiamento adicional ao capital próprio.

Indicadores dos bancos: Imobilização do PL

Índice de Perdas estimadas nas operações de crédito (IPE)

Enfim, o IPE também pode ser aplicado às empresas de outros setores, visto que demonstra a eficiência da empresa na sua gestão de riscos com inadimplência, ao relacionar as perdas estimadas com o saldo a receber de clientes. Um aumento nesse índice no decorrer do tempo, pode indicar uma deterioração na qualidade da carteira de crédito.

Indicadores dos bancos: Provisões para perdas

Leia também o nosso texto sobre os efeitos do COVID-19, no balanço dos grandes bancos nesse primeiro trimestre de 2020.

Vamos a prática

Para facilitar o nosso entendimento sobre os indicadores dos bancos, vamos a um exemplo prático. Utilizaremos os dados das demonstrações financeiras de 2019 do banco Itaú.

Valores extraídos da demonstração de resultados:

indicadores dos bancos: Demonstração de resultados

Fonte: DFP 2019, adaptado

Alguns valores obtidos no balanço patrimonial:

Indicadores dos bancos: Balanço patrimonial

Fonte: DFP 2019, adaptado

Com base nessas demonstrações, chegamos aos seguintes indicadores desse banco. Para simplificar a análise, utilizei apenas as informações de 2019, não aplicando valores médios para as contas patrimoniais.

Indicadores fundamentalista dos bancos

Fonte: Autor

A interpretação de cada índice deve seguir o que já comentamos anteriormente. Importante salientar que, todos esses valores nos retornam à média de determinada situação. Portanto, sugiro que para uma análise mais detalhada, deve-se verificar também as informações adicionais divulgadas pela empresa, como por exemplo, em suas notas explicativas.

Dicas para uma boa análise com indicadores de bancos

Por fim, lembro que este é um texto de caráter bastante introdutório. Tratamos apenas do básico e focamos somente nos indicadores dos bancos. A análise completa envolve diversas outras variáveis como governança, ciclo de vida, perfil de risco e distribuição da carteira de crédito do banco.

Importante também acompanhar a evolução desses e de outros indicadores dos bancos com o decorrer do tempo, para avaliarmos a solvência, performance financeira, qualidade da carteira de clientes, dentre outros.

Ainda assim, ressalto para o cuidado ao realizar comparações entre diferentes empresas. Os índices podem falar um pouco sobre a realidade de cada banco, mas podemos nos deparar com bancos mais ou menos conservadores em sua política de concessão de crédito, influenciando de forma relevante os seus índices. Por exemplo, bancos dispostos a correr mais riscos na concessão de crédito podem apresentar maiores spreads, quando compararmos com outros mais conservadores, o que caracterizará suas respectivas formas de atuar no mercado.

Para saber mais sobre o assunto, clique aqui.

 

Arlindo Souza
Arlindo Souza
Analista de conteúdo | Mercado financeiro no TradersClub
Contador, Mestre em Ciências Contábeis. Foi professor/pesquisador do departamento de contabilidade da UFRN e atuou em contabilidade de S.A. É investidor com base em análise fundamentalista.

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