16/10/2019 às 15:46

5 – Como usar as demonstrações contábeis para fazer uma boa análise fundamentalista

Felipe Pontes Felipe Pontes

Então você decidiu se tornar um investidor fundamentalista, mas ainda não sabe bem por onde começar? Neste artigo, trouxemos o conteúdo básico da análise das demonstrações contábeis para Análise Fundamentalista. Diferente da nossa seção de Contabilidade Financeira, o foco deste artigo é cobrir a Demonstração de Resultados do Exercício e o Balanço Patrimonial, observando o básico da análise vertical e horizontal.

Essa análise fará com que o investidor tenha um melhor entendimento do impacto das decisões corporativas. Por fim, reforçamos a lógica de que os números contábeis sinalizam o atual estado da empresa, e devem ser interpretados segundo uma análise conjuntural das suas estratégias e do mercado.

Nos próximos textos trataremos de indicadores mais específicos que devem também ser usados na análise fundamentalista, em complemento ao que apresentamos aqui, como:

  • Indicadores de custos e atividades
  • Indicadores de margens e rentabilidade
  • Indicadores de solvência e endividamento
  • Múltiplos de mercado usados para avaliação relativa

Dados contábeis: o combustível da análise fundamentalista

Para começar a análise de uma empresa, você terá que obter dados do Balanço Patrimonial e da DRE. Embora existam outras demonstrações que são igualmente importantes, vamos focar nestas duas por serem as mais conhecidas e mais utilizadas pelo mercado em geral.

Os dados contábeis são públicos e podem ser obtidos no site de Relações com o Investidor (RI) mantido pela empresa (busque no Google pelo nome da empresa, adicionando RI), por meio do site da B3 ou por meio de bases de dados proprietárias. O ideal é que você consiga obter pelo menos de 5 até 10 anos de dados.

Como analisar os números contábeis?

Quando falamos de análise das demonstrações contábeis para análise fundamentalista, estamos partindo do pressuposto de que as demonstrações contábeis foram auditadas e não existem fraudes ou números errados. Ou seja, os números refletem a realidade. Se tudo isso estiver OK, existem duas formas de realizar a análise financeira inicial:

  1. A análise horizontal é feita levando em consideração um determinado número de anos. Tal análise define uma tendência e ajuda a observar as mudanças nas variáveis financeiras ao longo do tempo. Nesta análise é possível observar tendências e sazonalidades.
  2. A análise vertical é feita para entender o peso de uma conta ou grupo de contas em um determinado ano. Esse tipo de análise mede certas posições de elementos patrimoniais da empresa em determinada data, sendo útil para comparar várias empresas pertencentes ao mesmo setor ou várias unidades pertencentes à mesma empresa.

O Caso base da Magazine Luiza S.A. (MGLU3)

Vamos usar como exemplo a empresa varejista Magazine Luiza S.A. A empresa tem suas ações negociadas na B3 com o ticker MGLU3. Foram obtidos dados de 26 trimestres para estudar a sazonalidade e a tendência das suas contas (de 31 de dezembro de 2013 até 30 de junho de 2019).

Análise Horizontal

Como já abordado, a análise horizontal estuda as contas ao longo do tempo. Decidimos usar trimestres para observar as possíveis sazonalidades e tendências. Porém, depois que o investidor estiver familiarizado com a dinâmica das contas da empresa, ele pode partir para uma análise em bases anuais, já que durante os trimestres podem ocorrer variações que não são tão relevantes para o investidor de longo prazo.

A tabela abaixo apresenta de forma simplificada as principais contas da DRE (em bilhões de Reais). Note que neste exemplo, por uma questão de espaço, só estamos usando dados de 2017 e 2018. Mas essa análise deve ser feita por um período maior.

Como usar as demonstrações contábeis para fazer uma boa análise fundamentalista

 

Agora vamos responder a duas perguntas:

  1. Como essas contas evoluem de um trimestre para os trimestres subsequentes?
  2. Como essas contas evoluem do trimestre do ano fiscal t contra trimestre do ano fiscal t+1?

A resposta da primeira pergunta permite a visualização de possíveis tendências de crescimento ao longo do tempo. A Tabela 2 responde à primeira pergunta. O primeiro trimestre de 2017 (T1 2017) é classificado como a data base, igual a 100 (você pode também fazer ano a ano, caso queira). Em seguida, são comparados o trimestre base com os trimestres seguintes.

Como usar as demonstrações contábeis para fazer uma boa análise fundamentalista

 

Por outro lado, a resposta da segunda pergunta permite a visualização de possíveis sazonalidades de crescimento ao longo do tempo. A Tabela 3 responde à segunda pergunta. O primeiro trimestre de 2017 (T1 2017) é classificado como a data base, igual a 100. Em seguida, são comparados os trimestres do ano de 2017, com seus respectivos trimestres no ano fiscal seguinte.

Como usar as demonstrações contábeis para fazer uma boa análise fundamentalista

 

Obviamente, a comparação de um ano com o outro não permite uma visão ampla da evolução. Por isso, os gráficos abaixo apresentam a evolução trimestre contra trimestre (dentro do ano fiscal e ano-a-ano) das principais contas da DRE.

Note que a Magazine Luiza apresenta variações estáveis nas contas de Receita, Custo das Mercadorias Vendidas (CMV), lucro bruto, despesas e lucro operacional tanto trimestre-a-trimestre (dentro dos anos), quanto ano-a-ano.

 

Como usar as demonstrações contábeis para fazer uma boa análise fundamentalista

 

Análise Vertical

Os índices da análise vertical são calculados de forma semelhante aos índices da análise horizontal. A diferença é que na análise vertical são analisadas as variações de uma conta em relação a outra conta (base) do mesmo período (ano ou trimestre).

A análise vertical é realizada mediante a extração de relacionamentos percentuais entre itens pertencentes à demonstração financeira de um mesmo período. Estes percentuais podem ser comparados entre si ao longo do tempo e podem ser comparados entre diferentes empresas (você verá mais sobre isso na avaliação por meio de múltiplos de mercado, como o índice P/L e P/VPA). Exemplo: “o quanto o lucro líquido representa da receita?”

Vamos tomar como base o caso da Magazine Luiza S.A (MGLU3) mais uma vez e determinar que as receitas serão a base de comparação – esse é o padrão da análise vertical da DRE, enquanto que no Balanço Patrimonial é o Ativo Total. A tabela abaixo, apresenta cada uma das contas expostas anteriormente em relação aos valores das receitas para os anos de 2017 e 2018.

Como usar as demonstrações contábeis para fazer uma boa análise fundamentalista

 

Veja que o CMV representa aproximadamente 70% das receitas, as despesas operacionais representam aproximadamente 23% das receitas etc. O objetivo aqui é saber se alguma conta apresenta variação fora do normal ao longo do tempo. Essa variação nos índices pode ser tanto positiva quanto negativa. Por exemplo, a empresa está pagando mais impostos em relação à receita. Porém, o lucro líquido também apresenta uma variação positiva!

Além disso, no T4 2018, o lucro bruto da Magazine Luiza representou 28,11% da receita da empresa. Esse percentual representa a famosa margem bruta. O LAJIR representa o lucro antes dos juros e imposto de renda, que também é conhecido como lucro operacional (ou EBIT), logo, 6,46% representa a margem operacional (ou margem EBIT) da empresa, enquanto que a margem líquida é de 4,11% (percentual que sobra da receita para gerar lucro).

O mais importante é aliar essa análise quantitativa dos números contábeis com uma análise qualitativa, baseando-se sempre no negócio e estratégia da empresa. Por isso é importante conhecer bem a empresa e o negócio antes de olhar para os números contábeis.

Como combinar a análise horizontal com a análise vertical na análise fundamentalista

Por fim, o analista pode combinar as duas análises. Veja que a empresa apresentava receitas estáveis até 2016. O lucro líquido durante o período também se mostrou negativo. A empresa crescia pouco. Porém, a partir de 2016, o lucro líquido voltou a ser positivo e as receitas cresceram com o tempo.

O que mudou?

Para saber qualitativamente, o investidor deve procurar as notícias e os relatórios dos administradores no período. Mas, quantitativamente, qualquer decisão corporativa que agrega valor vai impactar os números. A tabela abaixo apresenta uma comparação das médias dos trimestres de 2014-2015 com os trimestres de 2017-2018.

Como usar as demonstrações contábeis para fazer uma boa análise fundamentalista

 

Podemos notar que houve uma pequena queda no CMV, Despesas Operacionais e Despesas Financeiras. Neste caso, é possível presumir que a empresa ficou mais eficiente na gestão dos seus custos, como também melhorou o uso do endividamento (menor índice de pagamento de juros).

O que isso quer dizer no final?

Isso tudo quer dizer que durante o período analisado, a Magazine Luiza S.A. (MGLU3) apresentou aumento substancial das suas receitas, melhoria na eficiência dos custos e despenas e aumento dos lucros ao longo do período. Isso pode ser visto na evolução trimestral e ano-a-ano.

No geral, empresas que apresentam lucros crescentes, também apresentam um bom desempenho nos preços das suas ações (explicamos essa ideia no texto sobre “valor intrínseco”. O gráfico abaixo apresenta o valor de mercado da Magazine Luiza S.A no período estudado. Neste caso, no longo prazo, os dois gráficos (lucros e preços das ações) acabaram convergindo.

 

Como usar as demonstrações contábeis para fazer uma boa análise fundamentalista

 

Conclusão sobre a análise vertical e horizontal na análise fundamentalista

Ambas as análises, vertical e horizontal, podem ser indicadores de possíveis mudanças estruturais nas empresas. Vale lembrar que usamos apenas a DRE como exemplo, mas a análise pode ser feita usando dados do balanço, como ativos, passivos e nas demais demonstrações contábeis.

Geralmente, as decisões tomadas impactam diretamente os números contábeis e alteram as expectativas do mercado quanto ao valor das ações. Vale à pena estudar o assunto e incorporá-la no processo decisório.

Em postagens subsequentes, estudaremos os diversos indicadores que foram desenvolvidos para fornecer uma análise rápida da saúde financeira da empresa e permitir a comparação do crescimento, gestão de custos, endividamento e rentabilidade.

Lucas Nogueira
Mestre em Finanças pelo PPGA/UFPB
Contribui com textos educativos para o TC SChool

Felipe Pontes

Felipe Pontes

Diretor Educacional do TradersClub

Doutor em Contabilidade com foco em informações contábeis para o mercado de capitais pelo Programa UnB/UFPB/UFRN.
Professor de Contabilidade e Valuation.
Gestor de Clube de Investimento.

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