16/12/2019 às 10:41

15 – Ciclo de Vida das Organizações: entenda a relação entre os fundamentos e o estágio de vida da empresa

Felipe Pontes Felipe Pontes

Diariamente, diversas ideias surgem para gerar lucro e atender demandas da sociedade. Partindo das ideias, empresas são criadas por seus idealizadores. Muitas dessas empresas fracassam nos primeiros anos. Algumas delas acabam sobrevivendo e gerando resultados satisfatórios no futuro.

Em seguida, é preciso de mais capital para continuar com o crescimento. Os fornecedores deste capital irão requerer um retorno no futuro. Se der certo, temos a história bonita, onde empreendedores ficam ricos, investidores ficam felizes, pessoas ganham empregos, consumidores são atendidos e a roda da economia e do progresso gira mais um pouco. Se der errado, temos a história triste.

Esses eventos acontecem diariamente e este é o ciclo de vida das organizações. Neste artigo iremos falar deste ciclo que serve de base para alguns modelos de avaliação de empresas e ações.

Acreditamos que este assunto é fundamental para o investidor fundamentalista, pois ele dará base para diversas premissas adotadas nos modelos de avaliação de empresas por desconto de dividendos e por fluxos de caixa descontado.

 

Conceito de Ciclo de Vida das Empresas

Na nossa série de artigos sobre análise fundamentalista, cobrimos assuntos que variavam desde a ideia que sustenta o valor intrínseco, temas relacionados com a informação contábil, até temas mais técnicos como a determinação do custo de capital e modelos de valuation por desconto de dividendos e por fluxos de caixa descontado.

Você pode ter percebido que muitos destes modelos de avaliação requerem suposições e premissas para funcionar: qual é taxa de crescimento das receitas da empresa e como determiná-la? Qual é o custo do capital e o que pode influenciá-lo? Como a empresa irá constituir o seu financiamento no futuro?

Usando o modelo e os dados passados você pode tentar estimar tudo isso. Porém, o modelo sempre vai te dar um número e este número pode não fazer sentido! O modelo tem que “modelar” um possível cenário futuro. Logo, é preciso fazer uma conexão entre os números do modelo e as perspectivas futuras da empresa.

O ciclo de vida das empresas reflete as oportunidades de crescimento e financiamento das companhias. O ciclo se inicia com uma ideia antes da fundação da empresa, que nem sempre é original ou prática, mas que busca atender a uma demanda do mercado.

A maior parte das ideias não vinga, fazendo com que poucas alcancem o estágio de protótipo ou investimento-anjo. Em seguida, se sobreviverem, essas empresas terão que competir com outras pelo marketshare, buscando maiores financiamentos e entregando maior crescimento. Nesse estágio, a empresa pode fazer uma abertura de capital (IPO) e crescer ainda mais.

Obviamente, nem tudo dura para sempre. São inúmeras as empresas que simplesmente acabaram – por causa da entropia. A Blockbuster, por exemplo, era a maior locadora de fitas VHS e DVDs do mundo (hoje, muitas pessoas nem sequer sabem o que é uma fita VHS).

Tudo ruiu quando surgiram os sites piratas e os serviços de streaming e vídeo on-demand. Abaixo temos a foto da última locadora de vídeos Blockbuster, localizada na cidade de Bend, Oregon, EUA.

Abaixo, temos o gráfico das ações da Blockbuster (o gráfico está em escala em  ). As ações simplesmente não valem mais nada. O investidor que não vendeu as ações antes de 2010, perdeu praticamente todo o capital investido.

 

Qual é o motivo disso ter acontecido com a Blockbuster?

Bem… empresas morrem por diversos motivos: excesso de endividamento, má gestão, investimentos pouco rentáveis ou até mesmo a destruição do modelo de negócios pelo avanço da tecnologia e mudança no comportamento do consumidor.

O gráfico abaixo apresenta uma simplificação dos estágios de ciclo de vida das organizações. Note que essa é uma representação geral. Alguns setores apresentam ciclos de vida distintos e, apesar da representação implicar que tudo tem um fim, as companhias podem se reinventar ao entrarem em novos modelos de negócio.

 

Em seguida, apresentamos uma tabela com as principais perguntas que norteiam a determinação do ciclo de vida das organizações em cada estágio.

Fonte: Damodaran, A. (2016). Narrative and Numbers. The value of stories in business. Columbia Business School.

 

Logo, enquanto diversas empresas passam por ciclos de vida que podem ser bem definidos, a duração de cada estágio e o formato do ciclo vai variar entre as companhias: algumas crescem mais que outras e a duração do crescimento pode se estender ao longo dos anos.

Sendo assim, existem basicamente três fatores que alteram o ciclo de vida das empresas:

  1. Barreiras de entrada nos mercados: alguns mercados têm barreiras de entrada, devido a requisitos de regulamentação ou devido aos altos investimentos de capital que precisam ser feitos. Pense no setor de energia elétrica e o de Óleo & Gás. Em outros negócios, a entrada é muito mais fácil, geralmente exigindo pouca ou nenhuma aprovação regulatória ou investimento intensivo de capital;
  2. Nível de escalabilidade do negócio: quando uma companhia entra em um negócio, a facilidade com a qual ela pode escalar varia. Alguns negócios exigem maior tempo e investimentos substanciais em capital para gerar crescimento. Pense no setor de tecnologia, onde diversos modelos de negócio surgem e rapidamente alcançam diversos mercados consumidores.
  • Inércia do mercado consumidor: em alguns mercados, os consumidores estão muito mais dispostos a mudar os hábitos de consumo, seja pelo baixo apego aos produtos ou porque os custos da substituição são baixos. Neste caso, veja como foi “fácil” substituir o VHS pelo DVD, e o DVD pelo streaming de vídeo. Note como as pessoas trocaram as máquinas de escrever pelos computadores e os aparelhos de fax pelo e-mail. Por outro lado, existe uma maior dificuldade em trocar as fontes de energia fósseis (carvão e petróleo) por energia limpa.

Sendo assim, tudo mais constante, se a entrada no mercado é fácil (I), se a expansão pode ser feita por baixo custo (II) e a inércia do consumidor é baixa (III), a fase de crescimento do ciclo de vida será muito mais rápida.

No entanto, estes mesmos fatores dificultarão a entrada de novos competidores, impossibilitando-os de seguir a mesma rota, fazendo a empresa atingir o declínio de forma rápida. A figura abaixo apresenta a comparação entre os negócios de tecnologia e os negócios tradicionais.

 

Conclusão

Neste artigo você pôde entender o conceito de ciclo de vida organizacional e quais são os direcionadores de valor em cada estágio do ciclo de vida das empresas. Entender o estágio de ciclo de vida no qual a empresa está inserida é muito importante para a análise fundamentalista. Nos próximos textos nós explicaremos em mais detalhes sobre como identificamos o estágio de ciclo de vida da empresa e quais são as implicações disso para a análise fundamentalista.

 

Lucas Nogueira
Mestre em Finanças pelo PPGA/UFPB
Contribui com textos educativos para o TC SChool

Felipe Pontes

Felipe Pontes

Diretor Educacional do TradersClub

Doutor em Contabilidade com foco em informações contábeis para o mercado de capitais pelo Programa UnB/UFPB/UFRN.
Professor de Contabilidade e Valuation.
Gestor de Clube de Investimento.

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