06/01/2020 às 20:56

19 – Atividades distintas de divulgação pelas empresas e investidores sofisticados: quem influencia o quê?

Felipe Pontes Felipe Pontes

São os investidores sofisticados que influenciam as atividades de divulgação das empresas ou são as atividades de divulgação que influenciam o nível de sofisticação dos investidores?

Para responder a essa pergunta, nós desenvolvemos uma pesquisa intitulada “Atividades distintas de divulgação e investidores sofisticados” (o link para a pesquisa completa está no final do texto), para esclarecer qual é a influência das projeções de lucro, dos comunicados emitidos ao mercado e a área de Relações com Investidores (RI) sobre a concentração de capital pelos investidores sofisticados no Brasil.

Nós procuramos descobrir se empresas que divulgam projeções de lucro, emitem comunicados ao mercado e apresentam uma melhor relação com investidores exercem uma influência maior sobre o interesse dos investidores permanecerem com o capital investido nelas.

A seguir, vamos explicar como desenvolvemos essa pesquisa e o que descobrimos com ela. Boa leitura!

 

1 Como a pesquisa foi desenvolvida

Nós separamos o intervalo de anos entre 2011 e 2016 para análise. Por que isso?  2011 foi o ano em que o regulamento fair disclosure, mais conhecido como RegFD, foi promulgado nos Estados Unidos da América (EUA).

O RegFD regulamentou as atividades de divulgação das empresas participantes do mercado de capitais estadunidense e inspirou a Instrução CVM n 358 [Comissão de Valores Mobiliários (CVM), 2002] que estabeleceu as atividades de divulgação das empresas participantes do mercado acionário brasileiro. Tomamos a Instrução CVM 358 como base para selecionarmos as atividades de divulgação das empresas em nossa pesquisa.

Para estudarmos 89 empresas da B3, inicialmente “miramos” nas 475 que existiam na bolsa de valores até aquele momento, depois retiramos as 200 empresas do setor financeiro e mais 186 empresas, por não possuir dados ou conter um número de investidores institucionais maior que o total de investidores existentes no Brasil (inconsistência de dados).

As empresas do setor financeiro foram retiradas, devido a exercerem atividades com características institucionais próprias, o que faria com que o resultado obtido com a análise entre as instituições financeiras e as demais empresas fosse muito discrepante.

Com base em uma série de estudos já desenvolvidos na área, consideramos o número de investidores institucionais das 89 empresas como os investidores mais sofisticados. O investidor institucional é uma pessoa jurídica (a exemplo de um fundo) e que negocia grande quantidade de ações em empresas de diversos segmentos nos mercados financeiros mundiais.

Além disso, o investidor institucional tem a capacidade de, teoricamente, melhor utilizar a informação divulgada e, com isso, aumentar o retorno de seu investimento com uma redução do risco. Foi por esses motivos que classificamos esse tipo de investidor como mais sofisticado.

Quanto as atividades de divulgação, transformamos cada uma delas em variáveis para verificarmos a relação estatística entre elas, por meio de modelos econométricos. Mensuramos a RI a partir da premiação da IR Magazine Awards Brazil às empresas com melhor programa de relacionamento com investidores.

Quanto à projeção de lucro, consideramos ela quando apresentada pela empresa, devido ao caráter voluntário desse tipo de informação. Por se tratar de uma variável dummy (que pode ser apenas 0 ou 1), consideramos “1” ao nos certificarmos de que a empresa tinha projeção de lucro e “0” quando não.

Cientes de que os comunicados ao mercado só devem ser emitidos quando ocorrem fatos que podem influenciar a decisão dos investidores, mensuramos essa variável pelo cálculo do logaritmo natural da quantidade de comunicados emitidos por cada empresa ao mercado no período investigado (2011 – 2016).

Seguindo o script das exigências econométricas, inserimos algumas variáveis de controle no nosso modelo: cobertura dos analistas, alavancagem financeira das empresas, valor devido ao acionista e retorno total das ações.

Adaptamos essas varáveis de controle com base no estudo de Kalay (2015), o único até o momento que havia sido desenvolvido próximo desse tema nos EUA. Com os outliers tratados, partimos para o cálculo dos modelos econométricos e descobrimos o que será apresentado a seguir.

 

2 Resultados da pesquisa

Com as três atividades de divulgação pesquisadas, descobrimos que:

  1. Somente o número de comunicados ao mercado foi relevante para os investidores mais sofisticados permanecerem com seu capital investido em grande parte das empresas brasileiras;
  2. Diferente dos investidores estadunidenses, os brasileiros não utilizam projeções de lucro para permanecer com seus investimentos nas organizações – talvez por falta de confiança nos números (sobre isso, assista a um vídeo no canal do youtube do TradersClub);
  3. A divulgação de comunicados ao mercado é a atividade que mais influencia a concentração dos investidores sofisticados em empresas brasileiras;
  4. Os investidores mais sofisticados também se concentraram em empresas com melhor RI;
  5. Diante disso, os investidores brasileiros utilizam mais a divulgação voluntária do que a discricionária para alocar recursos nas companhias.

 

3 Reflexões práticas acerca da pesquisa

Nem toda atividade de divulgação contribui para o investidor, seja ele sofisticado ou não. Sabemos, inclusive, que muitas empresas destacam números que não são regulados para passar uma impressão melhor sobre os seus resultados.

A dica é saber extrair o que há de melhor na informação, independente da atividade que a emitiu.  Mas, para isso, é preciso ter o estudo e a experiência adequada. Recomendo que leia os textos de contabilidade e análise fundamentalista no TC School para evitar ser enganado pelas empresas.

A pesquisa ainda nos fez refletir que nem todo investidor sofisticado utiliza informação discricionária para tomar decisões. Mesmo sendo sofisticado, o investidor pode ter disposição para investir e aportar recursos com base no conservadorismo, perfil comportamental ou costumes. Vale lembrar que esse cenário pode se tornar ainda mais complexo em ambientes com um nível alto de assimetria informacional.

Para ler o trabalho completo, publicado no volume 31, número 82 da Revista de Contabilidade & Finanças da USP clique aqui.

 

Natanael Liberalino
Davi Jônatas
Doutorando e Mestre em Ciências Contábeis
Contribui com textos educativos para o TC School

Felipe Pontes

Felipe Pontes

Diretor Educacional do TradersClub

Doutor em Contabilidade com foco em informações contábeis para o mercado de capitais pelo Programa UnB/UFPB/UFRN.
Professor de Contabilidade e Valuation.
Gestor de Clube de Investimento.

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