11/06/2020 às 5:00

Análise fundamentalista: mensurando o valor econômico adicionado (EVA)

TC School TC School

Ao analisar uma empresa, você atenta para a sua capacidade de criação de valor econômico? Mas como medir essa criação de riqueza pela companhia? Para responder a esta pergunta, falaremos nesse texto sobre o valor econômico adicionado ou Economic Value Added (EVA). Para um melhor entendimento, dividimos o texto da seguinte forma:

  • Criação de riqueza – O que é criar valor?
  • Custo de capital – uma rápida revisão.
  • Lucro contábil – proxy para criação de riqueza?
  • Mensuração do EVA – Como podemos calcular este indicador.
  • Pesquisas empíricas em finanças – O EVA pode influenciar o retorno das ações?
  • Reflexões para os investidores.

Boa leitura!

Valor econômico adicionado

Leia mais sobre análise fundamentalista:

Criação de riqueza

Antes de comentarmos sobre o valor econômico adicionado propriamente dito, é importante entendermos o conceito de criação de riqueza. Quanto você estaria disposto a pagar por um metro de tecido composto por algodão? Entretanto, pense agora em uma camiseta fabricada por uma marca de renome internacional usando o mesmo material. A primeira vista, parece um tanto estranho pensar dessa maneira, mas o que quero dizer com isso é que o tecido é o mesmo, mas existe aí um valor agregado ao produto. Ou seja, o produto (camiseta) tem agora um valor superior ao seu custo.

Trazendo esse mesmo pensamento para a avaliação de empresas, podemos refletir acerca da real capacidade delas em usar a sua capacidade operacional para criar riqueza aos seus proprietários. Mas como poderíamos medir essa geração de valor?

Custo de capital

De uma forma bem simples e resumida, o custo de capital refere-se ao retorno exigido pelos fornecedores de recursos para que estes o disponibilizem para uma empresa. Nesse sentido, as empresas podem buscar financiamento basicamente de duas mandeiras: Recursos próprios e recursos de terceiros. Para um entendimento mais aprofundado, leia nosso texto sobre custo de capital.

Nesse sentido, o custo de capital tem uma relação muito importante com a capacidade de criação de riqueza de uma empresa, ao passo que a criação de valor só ocorre na medida em que se aufere retornos que sejam superiores ao custo de oportunidade do capital aplicado. Nesse contexto, vejamos como utilizar o custo de capital na análise da capacidade de criação de valor econômico.

Lucro contábil

A princípio, ao analisarmos os resultados de uma empresa, tendemos a enfatizar a última linha da DRE: o lucro líquido. Porém, temos de lembrar que o lucro evidenciado pela contabilidade, trata do confronto entre as receitas, custos e despesas seguindo o regime de competência. Entretanto, no que tange a avaliação da capacidade de criação de valor de uma empresa, o lucro contábil é uma medida bastante limitada. Para explicar melhor, considere o seguinte exemplo de demonstração de resultados:

Valor econômico adicionado

Fonte: autor

Veja que, a DRE evidenciada pela contabilidade apresenta apenas a remuneração do capital de terceiros (dívidas). Não apresentando assim o custo de oportunidade do capital do acionista. Para a avaliação da criação de valor, a DRE estaria de certo modo incompleta.

Evidenciação do lucro econômico pela contabilidade

Antes de criticar a contabilidade por não expressar a criação de riqueza de uma empresa, temos de lembrar que, conforme a estrutura conceitual (CPC 00) o objetivo da informação contábil é o de fornecer informações relevantes que subsidiem a tomada de decisão de uma extensa gama de usuários. Nesse sentido, os avaliadores devem ajustar a informação para que ela atenda aos seus objetivos específicos.

Mensuração do EVA

Para mensurar o EVA, vimos que a DRE contábil está “incompleta”. Vamos então adicionar a informação do custo de oportunidade do acionista, para verificar a real capacidade de criação de riqueza. Vamos considerar que o patrimônio líquido total da empresa é de R$ 1.584 e que o custo do capital próprio é de 8%.

Dessa forma, podemos mensurar a remuneração do PL, ou o custo de capital do acionista em R$ 127 (R$ 1.584 x 8%). Deduzindo então o custo de oportunidade do PL, teríamos:

valor economico adicionado

Fonte: autor

Ao fazer isso, adicionamos uma nova informação à DRE, ou seja, o custo do capital próprio. Assim, a demonstração de resultados evidencia agora o custo de todo o capital investido (próprio e de terceiros), além da capacidade de criação de riqueza.

Interessante notar que, se temos um EVA® postivo, inferimos que houve criação de valor, ao passo que, se negativo ocorreu destruição de riqueza.

Outras formas de cálculo do EVA

Na literatura, há várias formas de se mensurar o EVA. Em essência, todas buscam calcular o spread econômico entre o resultado gerado e o custo do capital investido. Algumas variações de cálculo do EVA:

  • Capital investido x (ROIC – WACC)
  • NOPAT – ((PL x Ke) + (Dívida x Ki))

Influência do EVA no retorno das ações

Na literautura nacional e internacional, várias pesquisas empíricas buscaram verificar a associação entre o EVA e o retorno das ações das empresas.

No Brasil, a pesquisa de Medeiros (2009), concluiu que o valor econômico adicionado afeta o retorno acionário das ações. O autor também evidencia que os retornos das ações é influenciado por EVAs passados.

Consoante a isto, o paper de SANTOS et al. (2018) também investigou essa relação analisando 178 empresas no período de 2010 a 2015. Os resultados apontam que a variável de criação de riqueza, medida pelo EVA, influencia de forma positiva tanto o retorno contínuo, como o retorno acima da médida de mercado (retorno anormal) das ações.

Nesse sentido, temos substância empírica para afirmar a importância da capacidade de criação de riqueza e seu efeito ser captado pelo mercado de capitais através do retorno das ações.

Reflexões para os investidores

O objetivo do texto é o de chamar a atenção dos investidores para que estes busquem informações além da contabilidade tradicional, visto que, para fins de avaliação de criação de riqueza, o lucro contábil pode não ser a melhor proxy. Não que as medidas contábeis tradicionais sejam irrelevantes, como margens de lucro e outras métricas de rentabilidade. No paper de Girão, Machado e Callado (2013), é demonstrado inclusive que outras medidas de avaliação têm mais relevância informacional para o mercado do que o EVA.

Entretanto esses indicadores podem não indicar a capacidade de criação de riqueza, sendo essa uma informação muito importante para os investidores que utilizam análise fundamentalista para subsidiar suas decisões de investimentos.

Dessa forma, espero que o valor econômico adicionado possa ajudar você em suas análises afim de montar uma carteira com empresas que, não só apresentem lucro, mas principalmente gerem riqueza acima de seu custo de oportunidade.

Referências

GIRÃO, Luiz Felipe de Araújo Pontes; MACHADO, Márcio André Veras; CALLADO, Aldo Leonardo Cunha. Análise dos Fatores que Impactam o MVA das Companhias Abertas Brasileiras: Será o EVA® mais Value Relevant que os Indicadores de Desempenho Tradicionais?. Sociedade, Contabilidade e Gestão, v. 8, n. 2, 2013.

MEDEIROS, O. R. DE. Evidências empirícas sobre a relação entre EVA e Retorno Acionário nas empresas brasileiras. Contabilidade, gestão e governança., v. 12, n. 1, p. 3–9, 2009.

SANTOS, J. V. J. et al. Relação entre o Retorno das Ações e o Economic Value Added (EVA): Evidências Empíricas em Companhias Abertas no Brasil. Revista Evidenciação Contábil & Finanças, v. 6, n. 1, p. 119–131, 2018.

Arlindo Souza
Arlindo Souza
Analista de conteúdo | Mercado financeiro no TradersClub
Contador, Mestre em Ciências Contábeis. Foi professor/pesquisador do departamento de contabilidade da UFRN e atuou em contabilidade de S.A. É investidor com base em análise fundamentalista.

TC School

TC School

Disclaimer: Este material é produzido e distribuído somente com os propósitos de informar e educar, e representa o estado do mercado na data da publicação, sendo que as informações estão sujeitas a mudanças sem aviso prévio. Este material não constitui declaração de fato ou recomendação de investimento ou para comprar, reter ou vender quaisquer títulos ou valores mobiliários. O usuário não deve utilizar as informações disponibilizadas como substitutas de suas habilidades, julgamento e experiência ao tomar decisões de investimento ou negócio. Essas informações não devem ser interpretadas como análise ou recomendação de investimentos e não há garantia de que o conteúdo apresentado será uma estratégia efetiva para os seus investimentos e, tampouco, que as informações poderão ser aplicadas em quaisquer condições de mercados. Investidores não devem substituir esses materiais por serviços de aconselhamento, acompanhamento ou recomendação de profissionais certificados e habilitados para tal função. Antes de investir, por favor considere cuidadosamente a sua tolerância ou a sua habilidade para riscos. A administradora não conduz auditoria nem assume qualquer responsabilidade de diligência (due diligence) ou de verificação independente de qualquer informação disponibilizada neste espaço. Administradora: TradersNews Informação & Educação Ltda. Todos os direitos reservados.

TradersClub

O app essencial para investidores do mercado financeiro brasileiro.

Uma comunidade com milhares de investidores, ferramentas e serviços que vão ajudar você a investir melhor!

TradersClub