18/06/2020 às 12:00

Análise fundamentalista: aprenda a mensurar o fluxo de caixa livre

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Nesse texto, falaremos sobre a mensuração do fluxo de caixa livre, uma importante medida para avaliação do desempenho da empresa. Para um melhor entendimento, dividimos o texto da seguinte forma:

  • O que é o fluxo de caixa livre – principais conceitos
  • Mensuração – fluxo de caixa livre para a empresa e para o acionista
  • Exemplos práticos – calculando os fluxos de caixa para uma empresa listada na B3
  • Dicas de análise

Boa leitura!

fluxo de caixa livre

Leia mais sobre análise fundamentalista:

O que é o fluxo de caixa livre?

A princípio, para se analisar o fluxo de caixa, temos de lembrar que a demonstração de resultados é composta tão somente pelas receitas custos e despesas do período. Além disso, existem outros itens que afetam na geração do caixa de uma empresa, e que, se analisada isoladamente, medidas baseadas somente na DRE (como o EBTIDA por exemplo), não mostrarão a informação completa da geração de caixa.

Nesse sentido, o fluxo de caixa livre acrescenta itens que não transitam pela DRE (por não serem contas de resultado), mas que influenciam na geração de caixa da empresa. Em outras palavras, podemos interpretar o fluxo de caixa livre como o resultado de caixa da empresa, líquido dos novos investimentos. O fluxo de caixa livre também pode indicar se as empresas estão distribuindo muito ou pouco de seus resultados para os sócios.

Este indicador também serve de base para os laudos de avaliação de empresas, quando utilizada a metodologia do fluxo de caixa descontado. Ou seja, o avaliador projeta os futuros fluxos de caixa, e usa uma taxa de desconto para trazê-los a valor presente. Consulte diversos laudos de avaliação através do site da CVM.

Mensuração do fluxo de caixa livre

O fluxo de caixa livre pode ser mensurado de duas formas, uma complementar da outra:

  • Para a empresa (FCDE)
  • Para o acionista (FCDA)

Vejamos as características de cada um.

Fluxo de caixa para a empresa

Para a mensuração do fluxo de caixa para a empresa, começaremos pelo lucro operacional após impostos (NOPAT). Como falei acima, não transitam pela DRE os novos investimentos feitos pela empresa para manter e expandir suas operações. Entretanto, esses investimentos representam saída de caixa! Podemos resumir os novos investimentos em basicamente dois: o CAPEX e o investimento em giro.

CAPEX (Despesas de capital)

Trata-se basicamente da aquisição dos novos ativos da empresa, em virtude do desgaste do ativo operacional. Lembrando que os gastos com manutenção do ativo existente são contabilizados como despesa, então estes já estão reconhecidos da DRE.

Podemos mensurar o CAPEX através das notas explicativas da empresa, no campo de adições de novos ativos, como por exemplo, imobilizado e intangível.

Capital de giro

Trata-se do valor que a empresa deve manter aplicado em seu capital de giro para suas operações cotidianas. Exemplo: Se a empresa faz uma venda de mercadoria para recebimento em 30 dias, mas precisa pagar o fornecedor da mercadoria a vista, ela deve manter no seu capital de giro o valor a pagar para o fornecedor, visto que o recebimento só ocorrerá no futuro.

Para mensurarmos o investimento em capital de giro, podemos obter uma estimativa razoável pela variação da diferença entre as contas do ativo circulante e o passivo circulante, indicando o quanto foi investido em capital de giro de um período para o outro.

Exemplo prático da mensuração do FCDE

Para exemplificar, vou utilizar as informações financeiras das Lojas Renner (LREN3), obtidas através de suas demonstrações contábeis.

Para mensurar o CAPEX, somei as adições de imobilizado e intangível. Os valores obtidos através das notas explicativas que tratam desses itens em específico.

FCDE

Fonte: DFP 2019

Além disso, mensurei a variação do capital de giro conforme exposto acima. Ou seja, pela variação da diferença entre o ativo circulante e o passivo circulante. Como essa variação foi positiva, isto indica que a empresa aumentou o investimento em giro. Em nosso modelo, esse aumento figura uma saída de caixa, no mesmo valor da variação.

Fluxo de caixa para o acionista

Por sua vez, o fluxo de caixa para o acionista (FCDA), refere-se ao montante de caixa residual que pode ser destinado aos acionistas sem que o valor da companhia seja reduzido. Podemos interpretar esse indicador como o potencial de geração de caixa disponível para remuneração para dividendos ou recompra de ações.

Nesse sentido, se a empresa distribui resultados acima de seu FCDA, isso pode indicar que a empresa está utilizando o caixa pré-existente, ou tomando recursos para isso.

Por outro lado, a depender de diversas variáveis, como o ciclo de vida da empresa, um alto FCDA não representará necessariamente altas distribuições de resultados, visto que a empresa poderá utilizar esses recursos para outras finalidades, como expansão de seus negócios.

Exemplo prático da mensuração do FCDA

Para a sua mensuração, partiremos do FCDE explicado anteriormente, e adicionaremos os seguintes itens:

  • Despesas financeiras – remuneração das dívidas existentes
  • Benefício fiscal – redução na base de cálculo dos impostos sobre o lucro, ou seja, é a alíquota de IR/CS x Despesas financeiras.
  • Captação de novas dívidas – Lembre-se que nem todo o novo investimento é bancado por recursos próprios. Nesse sentido, as novas dívidas referem-se ao capital de terceiros necessário para manter suas operações, podendo ser definida de acordo com a estrutura de capital meta da empresa. Podemos mensurá-lo da seguinte forma.

fluxo de caixa para o acionista

Note que, na captação de novas dívidas, será considerado apenas o valor proporcional referente ao capital de terceiros da empresa na necessidade de reinvestimento. Ou seja, se a necessidade de reinvestimento for de R$ 100, e a estrutura meta da empresa seja de 40% de capitais de terceiros, a captação de novas dívidas será de R$ 40 (R$ 100 x 40%).

Para facilitar o nosso exemplo e entendimento, vamos assumir que:

  1. A estrutura de capital meta da Renner seja composta por 30% de dívidas e 70% de recursos próprios.
  2. A alíquota dos impostos sobre o lucro é de 34%

Dessa forma, prosseguindo com o nosso exemplo:

FCDA

Em tese, o valor de R$ 737 representa o valor disponível para a empresa remunerar os seus acionistas, sem comprometer de forma significativa os seus níveis de liquidez atuais, os quais podem ser analisados através do balanço patrimonial.

Dicas de análise do fluxo de caixa livre

Finalmente, como qualquer indicador, o fluxo de caixa livre não deve ser analisado de forma isolada. Como falei acima, o fato de o fluxo de caixa livre para o acionista ser positivo, não quer dizer que todo esse montante será distribuído para os proprietários. Importante analisar também a política de distribuição de resultados da empresa, bem como o seu ciclo de vida e possíveis projetos de expansão.

Além disso, a depender da empresa e do grau de profundidade da análise, pode-se ajustar os modelos para que eles reflitam de forma adequada a estrutura operacional e financeira de determinada empresa.

Sugiro também realizar uma análise em conjunto tanto dos fluxos de caixa livre, como do modelo de desconto de dividendos de Gordon.

 

Arlindo Souza
Arlindo Souza
Analista de conteúdo | Mercado financeiro no TradersClub
Contador, Mestre em Ciências Contábeis. Foi professor/pesquisador do departamento de contabilidade da UFRN e atuou em contabilidade de S.A. É investidor com base em análise fundamentalista.

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