TC School / Análise Fundamentalista

Análise estratégica e contábil: analisando bancos

15/07/2020 às 12:00

TC School TC School

Neste texto, abordarei de forma prática os conceitos que envolvem as análises estratégica e contábil em bancos, fornecendo dessa forma, diretrizes para a identificação dos principais direcionadores de valor e os riscos do negócio. Tratarei dos seguintes tópicos:

  • Análise estratégica: conhecendo a concorrência, riscos envolvidos e o ambiente de negócios dos bancos
  • Vantagens competitivas: como identificar vantagens competitivas na análise dos bancos?
  • Fechando a análise: interpretando o relatório de auditoria e as notas explicativas

Quer saber mais sobre análise e valuation de bancos? acesse o nosso curso completo no TC School.

Boa leitura!

Análise de bancos

Leia mais sobre análise de bancos:

Análise estratégica

Em primeiro lugar, você já parou para refletir sobre a importância da análise qualitativa? Boa parte das pessoas a desconsideram, ou não dão o devido valor a essa parte da análise, o que acaba sendo um grande erro. Nesse texto, você entenderá a importância da análise qualitativa.

Antes de tudo, ao tomar uma decisão de investimento, nos interessamos em determinada empresa, devemos avaliar os aspectos relacionados ao seu negócio e ao setor de atuação. Então como conhecer o negócio? Aqui falarei em específico sobre as instituições financeiras.

Análise de bancos

Primeiramente, a análise do negócio, consiste basicamente em você entender o que faz a empresa gerar caixa. Em outras palavras, qual ou quais atividades geram dinheiro para a empresa? Tomaremos como exemplo o banco Bradesco.

No site de relacionamento com o investidores (RI), você encontrará o necessário para entender os fatores geradores de receita para o banco, sendo possível analisar em que nível percentual a influência de cada tipo de receita. Ou seja, quais dos produtos e serviços disponibilizados pela empresa, são responsáveis pela geração de caixa. De certa forma, isso acaba também nos dizendo muito sobre risco. Vejamos no exemplo abaixo, as operações do banco Bradesco:

análise de bancos

Fonte: autora

Composição da Receita com Serviços do Bradesco do primeiro trimestre de 2020:

análise de bancos

Fonte: DFP

No site de RI do banco, além de saber quais são os produtos e serviços oferecidos, conseguimos entender a sua diversas informações, tais como:

  • Trajetória
  • Data de IPO
  • Estrutura acionária
  • Políticas diversas
  • Estatuto social
  • Modelo do negócio
  • Fatos relevantes

Nesse sentido, compreender o seu portfólio de produtos e serviços, também nos ensina sobre fatores de riscos associados ao negócio. Como exemplo clássico, geralmente a maior parte da receita dos bancos são provenientes de operações de créditos, e um dos riscos associados é, por exemplo, um cenário de recessão econômica com altas taxas de desemprego e desaceleração da economia. Nesse cenário, podemos esperar aumento na inadimplência dos clientes, o que naturalmente afetará os resultados dessas instituições.

Em contrapartida, num cenário de hiperinflação, como mostra o estudo de Assunção (2013), que ao medir os efeitos da hiperinflação sobre o setor bancário, encontrou que o processo de hiperinflação se mostrou muito lucrativo para os bancos, além de ter impulsionado sua expansão.

Análise dos riscos

Além de tudo, devemos analisar acerca dos riscos em que um banco está exposto, também no RI da instituição, encontramos um relatório de gerenciamento de riscos, e nele existe um mapeamento dos riscos que envolvem o negócio. Vejamos abaixo, no caso do Bradesco, uma lista de riscos mapeada pela própria instituição:

Risco de Crédito Possibilidade não cumprimento de obrigações pelo tomador ou contraparte.
Risco de Mercado Possibilidade de perda financeira proveniente de oscilação de preços e taxas de juros.
Risco Operacional Chance de perda pela deficiência de processos internos.
Risco de subscrição Incerteza de estimação de provisões atrelado a atividade de seguros.
Risco de liquidez Incapacidade financeira de arcar com obrigações
Risco Socioambiental Indiretos, advindo das relações de negócios.
Risco de Estratégia Incerteza no alcance de objetivos estabelecidos.
Risco de Reputação Perda de credibilidade.
Risco de Modelo Possibilidade de perdas em razão de modelos com falhas.
Risco de Contágio Possibilidade de ocorrência de perda decorrente de relacionamentos com empresas do grupo.
Risco de Conformidade, Conduta e Ética Possibilidade de perda com sansões legais ou administrativas.
Risco Cibernético Possibilidade de incidentes cibernéticos.
Fonte: RI Bradesco (adaptado)

Sabendo disso, você deve se perguntar: estou disposto a assumir todos os riscos do negócio? O fato é que, quando temos ciência dos riscos que estamos expostos, temos uma maior capacidade de investir em proteção, ou até mesmo uma maior sensibilidade para eventos que poderão vir a ocorrer, e assim sermos proativos na estratégia de investimento.

Dessa forma, no site do Banco Central do Brasil, está disposto as projeções para inflação, e demais taxas de juros da economia, além das metas estabelecidas de forma atualizada. Lá você poderá acompanhar o cenário econômico atual e, dessa forma, ter ideia do que pode vir a afetar o negócio através de mudanças na economia de modo geral. Segue abaixo os gráficos com a projeção da inflação e Taxa Selic:

Dessa forma, antes de aplicarmos nosso dinheiro de fato, devemos tomar conhecimento sobre os riscos associados, pois de forma direta, esse conhecimento influenciará nossa estratégia de investimento conforme as mudanças no cenário econômico. Lembre-se! Assumir mais risco, nos favorece a uma chance de maiores obtenção de retornos. Mas cuidado! Um negócio ruim é muito ariscado e isso não significa dizer que você terá bons rendimentos.

Conhecendo a concorrência

Depois de conhecer o negócio, é o momento de entendermos o setor, analisando o seu tamanho, as empresas participantes, o cenário do setor no país, além de novos entrantes. Essas informações, irão fornecer o entendimento sobre perspectivas para o setor no longo prazo. Será que há espaço para crescimento?

Atualmente, existem 26 bancos listados na B3. Dentre eles, temos a segregação entre grandes bancos (large banks) e bancos digitais (digital banks). Além de descobrir quais empresas estão presentes num mesmo setor, podemos obter informação acerca do tamanho, em termos de número de clientes e total de receita de cada um. Vejamos abaixo um exemplo de coleta dessas informações:

Fonte: BTG

Large Banks x Digital Banks

Uma dúvida bastante comum, é sobre a comparação entre os bancos digitais e os grandes bancos. Sempre questionam sobre a chance de os bancos digitais ganharem o espaço dos grandes bancos. Vejam na imagem acima, que existe uma discrepância muito significativa entre a quantidade de clientes e receita entre esses dois grupos.

Todavia, a grande desvantagem dos grandes bancos em relação aos digitais, é o espaço para crescimento. Atualmente, uma das principais vantagens em investir nos grandes bancos, são suas políticas de distribuição de dividendos, o que é justamente uma forma do banco segurar e cativar a entrada de novos investidores. Em especial, pelo fato de que não podem proporcionar muita expectativa em relação a valorização dos papeis, pois já não possuem muito espaço para crescer.

Por outro lado, no caso dos bancos digitais, apesar de demostrarem grande potencial e espaço para crescimento, ainda não é muito confiável a constância de resultados positivos. Por exemplo, temos o Nubank, que apesar de não ter ações negociadas na bolsa, vem reportando prejuízo ao público de forma recorrente. Da mesma forma, é possível que esse risco também esteja presente nos demais bancos digitais com negociação em bolsa.

Todavia, a entrada dos bancos digitais representa abertura de novas concorrentes para os grandes bancos, o quais se viram na necessidade de investir na desburocratização das suas operações, investindo em soluções digitais e redução das suas agências físicas. Para os usuários, foi um grande passo para a liberdade.

Novamente, nesse tipo de análise, verificamos informações importantes sobre riscos presentes no negócio. Mas aí vem a pergunta clássica: É melhor investir em bancos grandes que são mais sólidos, ou em bancos digitais com maior possibilidade de crescimento? A resposta para essa pergunta é condicionada ao seu perfil de investidor e na sua estratégia de investimento. Você prefere mais segurança com remuneração em dividendos, ou foca na busca por grande valorização dos papéis?

Vantagens competitivas na análise dos bancos

Um dos fatores que nos fazem decidir sobre qual empresa iremos investir, sem dúvidas é a análise das vantagens competitivas. Nesse tipo de análise, você fará uma comparação sobre as vantagens de cada banco. Por exemplo, vejamos logo abaixo as diferenças entre as vantagens competitivas entre os grandes bancos e os bancos digitais:

Fonte: BTG

Veja que, basicamente as vantagens entre os dois tipos de bancos são opostas. De forma clara, observamos que os grandes bancos possuem larga vantagem na facilidade de acesso ao crédito, além de que possuem uma alta recorrência de uso, representando uma grande fatia da economia em geral.

Por outro lado, olhando para os bancos digitais, as vantagens estão ligadas ao uso recorrente; a entrega de experiências customizadas, com mais eficiência, além de possuir grandes vantagens em termos de inovação tecnológica. Porém, suas desvantagens incluem a dificuldade de acesso ao crédito e ainda não possuem presença relevante na economia. Ou seja, possuem aí um campo aberto para crescerem (vantagem ou desvantagem?).

De fato, esse exemplo de análise qualitativa nos dá mais embasamento para escolher os tipos de ativos antes de aplicar nossos recursos. Aqui podemos, escolher nossas preferências, além de conhecermos melhor nossos potenciais concorrentes.

Análise Contábil

Para quem ainda não sabe, a análise das Demonstrações Financeiras (DFs) tem por objetivo avaliar o grau da realidade econômica da instituição. Fazendo uma análise contábil eficiente, podemos obter mais confiança nas previsões que iremos construir. Além disso, esse tipo de análise sintetiza na forma de números, todos os acontecimentos dentro da organização.

Além disso, sabemos que as DFs são variadas e requer um mínimo de conhecimento da área para obter um entendimento adequado no momento da análise. No caso dos bancos, devemos voltar nossa atenção, principalmente para as Provisões para Créditos de Liquidação Duvidosa (PCLD), como também ao valor justo nos níveis 2 e 3.

Relatório da Auditoria na análise dos bancos

A análise contábil consiste numa avaliação inicial necessária para verificar dos fundamentos de uma empresa. Nesse sentido, essa necessidade está relacionada com a qualidade da informação contábil presente nas demonstrações financeiras. Perceba que se os números reportados nas DFs não forem confiáveis, nossa análise financeira (que utiliza dados das demonstrações), também não será confiável.

Dessa maneira, o primeiro passo da análise contábil, inicia com uma avaliação do parecer do auditor independente. O relatório ou parecer do auditor encontra-se disponível tanto no RI da instituição, como no site da B3. Essa é uma análise relativamente simples, porém desconsiderada por muitos. Veremos adiante a sua fundamental importância.

Quando avaliamos o parecer, devemos olhar primeiramente para a opinião da auditoria sobre as demonstrações financeiras. Nesse sentido, precisamos entender que um parecer sem ressalva sugere a adequação das DFs com as normas contábeis adotadas no País, indicando que as informações reportadas pela empresa são “limpas”.

Todavia, existe a possibilidade de ocorrência de inconsistências mesmo com um parecer sem ressalva. Lembre-se, o trabalho da auditoria não é focado na descoberta de fraudes e outras anomalias desse tipo. Quando ocorre uma descoberta, nada mais é do que a consequência do seu trabalho em analisar as informações internas.

E agora, em quem confiar? O parecer da auditoria existe principalmente para assegurar aos interessados que aquelas informações seguiram, de modo adequado, as normas vigentes de contabilidade.

Vejamos por exemplo, o parecer da empresa de auditoria Deloitte sobre as demonstrações contábeis do Banco do Brasil referente ao 1T20. O parecer do auditor foi sem ressalva, indicando que os interessados podem ter razoável confiança nas informações contidas nas demonstrações do banco.

Parecer com ressalva

Por outro lado, veremos o caso do Banco Cruzeiro do Sul. Quem lembra, o banco passou por uma série de problemas, mais fortemente em meados do ano de 2012 e acabou indo à falência. No exemplo abaixo, podemos verificar no relatório da auditoria um ano antes, que já havia indícios de problemas relevantes:

Fonte: DFP cruzeiro do Sul, 2011

Esse é um exemplo claro de análise contábil que poderia ter mudado a decisão de muitos investidores e evitado muitas dores de cabeça. Um acréscimo de R$ 197 milhões, para um banco do tamanho que era o Cruzeiro do Sul, faz uma diferença relevante. Além disso, o aumento foi justamente na conta de PCLD, um dos principais pontos de análise em bancos. Nesse sentido, uma simples análise do relatório de auditoria pode se útil para a proteção dos investidores de modo geral.

Notas explicativas

Após a leitura do relatório do auditor, o segundo passo é visitar as notas explicativas. Para quem ainda não sabe, as notas explicativas, como o próprio nome já diz, vai demonstrar de forma mais detalhada, os saldos apresentados nas demonstrações financeiras.

Encontrando no relatório dos auditores, assuntos apontados como relevantes, devemos analisar as informações junto a nota explicativa, com o intuito de mensurar os possíveis impactos dentro da demonstração. No caso do Banco Cruzeiro do sul, a auditoria apontou o acréscimo na conta de PCLD. Observe o exemplo abaixo referente a nota explicativa do banco no mesmo período:

Fonte: DFP cruzeiro do Sul, 2011

Veja que o montante de provisão reportado foi de R$ 51.381 milhões, e a auditoria indica no seu relatório, que a PCLD no próximo período iria aumentar em R$ 197 milhões. Foi de certa forma, muito claro que algo não estava sendo bem encaminhado.

Assim por diante, sempre que apontado pela auditoria um evento relevante, partimos para a análise da nota explicativa, com vistas a avaliar o grau do impacto do evento nos números da empresa.

Fechando a análise de bancos

Por fim, após as análises discutidas nesse texto e como resultado da análise de bancos, podemos ter informações suficientes para prosseguir com nossa estratégia de investimentos. investindo nos fundamentos, ou até mesmo desistindo do ativo após obter conclusões suficientes sobre um investimento muito ariscado.

Após a análise prévia da contabilidade, o próximo passo é entrarmos na análise financeira do banco. Para isso, veja os demais artigos que comentei no início do texto. Leiam e prossigam com suas análises.  Em resumo: investimento certo é aquele em que conhecemos a fundo. Entenderam a importância da análise qualitativa? Tenho certeza que sim. Até a próxima!

Referências

ASSUNÇÃO, Juliano Junqueira. Efeitos da hiperinflação sobre a expansão do setor bancário brasileiro. 2013. Dissertação de mestrado. PUC-Rio.

Mariângela Araújo
Mariângela Araújo
Contadora e Mestranda em Ciências Contábeis pelo PPGCC/UFPB.
Monitora de cursos no TC School.

TC School

TC School

Disclaimer: Este material é produzido e distribuído somente com os propósitos de informar e educar, e representa o estado do mercado na data da publicação, sendo que as informações estão sujeitas a mudanças sem aviso prévio. Este material não constitui declaração de fato ou recomendação de investimento ou para comprar, reter ou vender quaisquer títulos ou valores mobiliários. O usuário não deve utilizar as informações disponibilizadas como substitutas de suas habilidades, julgamento e experiência ao tomar decisões de investimento ou negócio. Essas informações não devem ser interpretadas como análise ou recomendação de investimentos e não há garantia de que o conteúdo apresentado será uma estratégia efetiva para os seus investimentos e, tampouco, que as informações poderão ser aplicadas em quaisquer condições de mercados. Investidores não devem substituir esses materiais por serviços de aconselhamento, acompanhamento ou recomendação de profissionais certificados e habilitados para tal função. Antes de investir, por favor considere cuidadosamente a sua tolerância ou a sua habilidade para riscos. A administradora não conduz auditoria nem assume qualquer responsabilidade de diligência (due diligence) ou de verificação independente de qualquer informação disponibilizada neste espaço. Administradora: TradersNews Informação & Educação Ltda. Todos os direitos reservados.

TradersClub

O app essencial para investidores do mercado financeiro brasileiro.

Uma comunidade com milhares de investidores, ferramentas e serviços que vão ajudar você a investir melhor!

TradersClub