18/05/2020 às 20:05

Adoção das IFRS e o custo de capital das empresas

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Neste artigo, vamos explicar o que é Custo de Capital, abordar brevemente como se calcula, e discutir o impacto da adoção das normas internacionais (IFRS – International Financial Reporting Standards) no custo de capital de empresas latino americanas.

Sendo assim, trataremos dos seguintes tópicos:

O que é Custo de capital?

De uma forma bem simples, é o custo que a empresa tem em captar recursos. Esses recursos, podem vir de fontes privadas, via sócios (emissão de capital), e o custo desses recursos é conhecido como custo de capital próprio (KE), ou por meio de terceiros via emissão de debêntures e/ou contratação de empréstimos, cujo custo deste capital é conhecido como custo da dívida ou custo do capital de terceiros (KD).

O custo de capital próprio seria então o quanto os investidores requerem de retorno para investir seu capital em uma empresa. Já o custo de capital de terceiros é quanto os bancos ou outras instituições requererem de juros para conceder um financiamento para a empresa.

De onde vem os dados?

O custo de dívida é o mais fácil de averiguar, pois os bancos, terceiros e/ou debêntures têm uma taxa de juros que é informada nos contratos.

No entanto, e o custo de capital próprio? Seria viável então perguntar para cada investidor por quantos % de retorno eles estariam dispostos a investir em determinada empresa? Você já deve ter concluído que isso não é viável.

Portanto, ao contrário do custo de dívida que é observado nos contratos, o custo de capital próprio terá então que ser estimado.

Como se calcula o custo do capital?

Interessante que, para o custo de dívida (custo de capital de terceiros), basta olhar a demonstração do resultado do exercício (DRE) e observar a linha despesa de juros e observar no Balanço e notas explicativas o total do montante do empréstimo a qual estes juros se referem. Dessa forma, teremos uma simples fórmula que se resume a Juros/Dívida.

Porém, para o custo de capital próprio, precisaremos estimá-lo. Uma aproximação que podemos fazer sobre como os investidores pensam antes de investir em uma empresa listada em bolsa, é olharmos para a previsão dos analistas financeiros.

Ou seja, os analistas financeiros fornecem projeções de crescimento das empresas em termos de lucros futuros, taxas de crescimento de longo prazo, assim como outras informações de balanços futuros.

Dessa forma, podemos considerar que o investidor se baseia nas projeções dos analistas para fazer suas projeções e estimar o valor atual da empresa via o método de fluxo de caixa descontado.

Portanto, podemos estimar o custo de capital próprio implícito tomando como base a previsão dos analistas financeiros.

Farei um post posterior sobre os modelos na literatura de quais fórmulas e modelos são utilizadas nesse cálculo. Enquanto isso, você pode ler sobre o beta clicando aqui.

Adoção das IFRS foi boa ou ruim?

Muito tem se discutido ao longo dos anos sobre o impacto da adoção das normas IFRS ao redor do mundo. Estudos científicos datam desde 20 anos atrás, quando a adoção de tais normas ainda eram voluntárias. No entanto, investigar o efeito das normas internacionais para os investidores tem sido uma tarefa árdua para os pesquisadores ao redor do mundo.

Isso se deve ao fato de fatores concomitantes a adoção das normas, como melhoria do enforcement legal (sem tradução direta, mas entendido como sendo uma fiscalização, ambiente de normas eficientes), proteção aos investidores, incentivos das firmas para mostrar mais qualidade que outras empresas e dessa forma atrair mais investimentos.

Nesse sentido, é difícil dizer que qualquer efeito das IFRS na redução do custo de capital, esperado por conta da possível redução de assimetria de informações, pudesse ser atribuído a adoção das normas e não aos outros fatores em conjunto.

Em 2008, o Brasil iniciou o processo de migração das normas locais para as normas IFRS, tendo sua adoção feita de maneira quase total em 2010. No entanto, a pergunta após 2010 prevalece, adotamos as normas, e aí? Qual o impacto disso para os investidores?

Pesquisas na área ajudam a responder

O estudo de Moura e Gupta (2019) mostra que o enforcement e a proteção aos investidores não melhorou significativamente no período pré-IFRS para o período pós-IFRS em países da América Latina (Argentina, Brasil, Chile, México e Peru).

Os autores fizeram um questionário para as respectivas Comissões de Valores Mobiliários dos 5 países, que você encontra nas referências. Dessa forma, os autores conseguiram isolar o efeito exclusivo da norma, controlando também através de modelos quantitativos pelos incentivos das firmas.

Por outro lado, Moura, Altuwaijri e Gupta (2020) estimaram o custo de capital próprio por meio de 4 modelos que utilizam como premissa a previsão de analistas financeiros (dados de lucros por ação futuros, taxa de crescimento e outras variáveis), e o de custo da dívida analisando-se as taxas de juros dos contratos de dívidas.

Os autores mostram que o custo da dívida (KD) reduziu em aproximadamente 0,5% após a adoção do IFRS na América Latina e de cerca de 2% do custo de capital próprio (KE).

Ou seja, tivemos um efeito positivo de redução de assimetria informacional que diminuiu o risco percebido tanto por credores quanto por investidores, sendo o efeito para investidores mais acentuado que o dos credores.

Espero que essa informação seja relevante para os leitores e não esqueçam também de ler mais sobre o custo médio ponderado do capital, ou Weighted Average Cost of Capital (WACC). Saiba mais também sobre a relação entre Relato Integrado e custo do capital clicando aqui.

Obrigado pelo tempo dispensado na leitura.

Referências

Moura, A. A. F., & Gupta, J. (2019). Mandatory adoption of IFRS in Latin America: a boon or a bias. Journal of International Financial Markets, Institutions and Money, (60), 111-133.

Moura, A. A. F., Altuwaijri, A. & Gupta, J. (2020). Did mandatory IFRS adoption affect the cost of capital in Latin American countries? Journal of International Accounting, Auditing and Taxation, in press.

 

André Aroldo
André Aroldo Freitas de Moura, PhD
CFO da Upthinkr
Professor Associado de Contabilidade e Finanças da FUCAPE Business School.

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