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“Um tiro no pé ou um tiro no escuro”: o dilema do acionista da Petrobras na eleição

Postado por: TC Mover em 10/10/2018 às 15:10

Por: Equipe TC News

SÃO PAULO, 10 de outubro de 2018 — O que não deixou a Petrobras dar certo nesses últimos anos? Para o investidor, a ingerência política.

A eleição presidencial deste ano, que será decidida entre o candidato de direita Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, do PT, no dia 28 de outubro, trouxe de volta o temor de que um novo governo trave o árduo e longo processo de reerguer a Petrobras, após anos de nefasta intervenção política no seu modelo de negócios.

O mercado se encaminha para a decisão dividido entre a esperança duvidosa e a certeza do desastre, disseram analistas, gestores e contribuidores TC. Para alguns deles, Bolsonaro se assemelha a um tiro no escuro, por seu passado estatizante, desconhecimento sobre como funciona uma economia de mercado e experiência limitada de gestão. Para outros, eleger um candidato pouco interessado com uma governança corporativa forte na Petrobras, como é Haddad, seria atirar no próprio pé.

Os altos e baixos causados pelo cenário binário estão por trás de desempenho das ações da companhia nos últimos meses. Em maio, na véspera da campanha eleitoral, o papel PN chegou a tocar R$27,49, a máxima desde abril de 2010. O início antecipado da eleição e o avanço do PT e da esquerda nas pesquisas de intenção de voto levaram o papel a perder 49% em menos de um mês.

O rali das últimas duas semanas, que fez com que vários bancos de investimento elevassem suas recomendações e preços-alvo nos papéis da Petrobras, indica que o mercado se sente um pouco mais de conforto com Bolsonaro no comando do país, mesmo sem ele acenar com tudo o que o mercado quer para a estatal.

Ajuda o fato que Haddad fala tudo o que o investidor não quer ouvir. O programa de governo do PT promete “devolver à Petrobras sua função de agente estratégico do desenvolvimento brasileiro, garantindo-a como empresa petrolífera verticalizada”. Os planos mirabolantes de desenvolvimento do PT fizeram que a Petrobras, em menos de cinco anos, se tornasse na petrolífera mais endividada do mundo.

“Aqui estamos, com um papel que subiu mais de 30% nos últimos dias com a esperança de um novo presidente, mesmo sem saber muito bem quais seus planos para a companhia,” disse David Pinsen, fundador de Portfolio Armor, uma consultoria de risco sediada nos Estados Unidos. “O investidor fica na defensiva pelo receio de uma surpresa negativa”.

Após dizer que poderia privatizar a área de refino, mas não a de exploração e produção da companhia, e insistir que a política de preços da Petrobras não pode ir na contramão do desenvolvimento do país, Bolsonaro deixou o mercado confuso. Hoje, as ações PN e ON recuavam mais de 4% por contas dos comentários.

Os papéis da petroleira negociam a um múltiplo de 6,9 vezes o lucro estimado para o ano, bem abaixo das 15,8 vezes da ação da americana Exxon Mobil, e 14 vezes da Chevron. A colombiana Ecopetrol, que tem 10% das reservas de petróleo que a Petrobras detém, negocia a mais de 13 vezes.

Com o inerente risco político, o desconto é natural. No entanto, o abismo poderia diminuir caso o novo governo sinalize que finalmente a Petrobras irá focar em lucros, e não em servir ao interesse político de curto prazo.

“A primeira coisa que vão olhar é se a governança vai ser mantida,” disse Ivan Kraiser, sócio-gestor da Garín Investimentos sem São Paulo e contribuidor TC.

 

FUNDAMENTOS MAIS SÓLIDOS

Nesta semana, o otimismo com a vantagem que Bolsonaro mostrou no primeiro turno da eleição levou vários bancos a elevarem seus preços-alvo para as ações da maior estatal do país: Santander, Bank of America, JPMorgan e a XP Investimentos. Isso elevou a dispersão dos preços-alvos, de um intervalo de R$16 a $28 na última semana de setembro para a faixa de R$19-R$40 nesta terça-feira.

O número de recomendações de compra entre as 11 equipes de análise que o TC segue passou de três para quatro, com o restante mantendo o viés neutro – sinal de que o mercado reconhece o potencial do ativo, mas tem dúvidas quanto ao que esperar para o ano que vem.

Mesmo com a alta incerteza política, a Petrobras é a ação blue-chip mais atrativa do Brasil no momento, em termos de risco e retorno, graças a seus fundamentos mais sólidos. Para Pedro Galdi, analista da Mirae Asset, a redução da dívida da Petrobras e a alta nos preços do petróleo devem continuar impulsionando os ganhos no papel assim que a eleição acabar.

“Passada a eleição, os fundamentos vão pesar,” disse Luiz Caetano, analista da Planner Corretora.

O fluxo de eventos futuros também é promissor para a estatal: o desentrave de uma série de vendas de ativos estratégicos após a eleição, que devem arrecadar até US$9 bilhões; o acerto com o governo para a renegociação da cessão onerosa, que deve trazer para a Petrobras algo em torno de US$10 bilhões em dinheiro; o avanço nas parcerias para elevar sua capacidade de refino; e os resultados do terceiro trimestre, que devem mostrar forte geração de caixa líquido e ganhos na eficiência.

Caso a suspeita de que Bolsonaro não interferirá na Petrobras se confirme, Kraiser vê o papel PN da estatal atingindo pelo menos R$27 em dezembro, perto da máxima do ano; Vicente Falanga, do Bradesco BBI é mais optimista: R$40 reais ao longo do próximo ano.

 

VIA CRUCIS

O via crucis da Petrobras começou em 2010, quando a União virou acionista majoritária da estatal graças a uma capitalização que permitiu ao então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, mudar o norte estratégico da companhia. Sua sucessora, Dilma Rousseff, forçou a Petrobras a se endividar descontroladamente para pagar pelos projetos políticos de seu partido, o PT, o que derivou nos escândalos de corrupção que quase acabaram com a empresa.

A Petrobras só se recuperou com um ajuste severo na governança e o desmonte das políticas de Lula, facilitado pelo impeachment de Rousseff, em 2016.

Semanas após o impedimento, o sucessor de Rousseff no Palácio do Planalto, Michel Temer, convidou o executivo Pedro Parente para comandar a reviravolta da Petrobras. Durante os dois anos que foi CEO, de junho de 2016 a junho de 2018, Parente reduziu a dívida líquida de US$130 bilhões para US$84 bilhões. Para Eduardo Guimarães, analista da Levante Investimentos, a atual meta de redução da dívida para US$69 bilhões no fim de 2018, apresentada no final de setembro, é factível por conta da manutenção das diretrizes impostas por Temer e Parente.

Parente também pegou carona da alta nos preços do petróleo e da retomada econômica que seguiu à saída de Rousseff. Neste ano, o Brent avançou 60% para US$85 o barril nesta semana, comparado com os US$53 estimados pela Petrobras no início do ano. Parente saiu por conta do enfraquecimento político de Temer e os desdobramentos da greve dos transportes que deixaram o país em caos no final de maio.

Qual a lição que o investidor aprendeu desse episódio? Segundo o contribuidor TC Guillermo Parra-Bernal, que a fraqueza ou a fortaleza de um governante pode impactar profundamente a companhia. Já uma Petrobras forte “aumenta o desejo dos políticos de ingerir na estatal para tirar proveito político no curto prazo”.

Um retrocesso para os tempos de controle artificial dos preços, endividamento descontrolado E investimentos pouco rentáveis e, claro, a corrupção de PT descoberta pela Operação Lava Jato desencadearia uma onda de negativismo para os papéis. “Se entrar a esquerda, o que o mercado mostra é que haveria tendência de queda”, disse Kraiser.

 

RESULTADO BOM?

Apesar da turbulência criada com a eleição, que fez o câmbio se desvalorizar 12% entre maio e setembro deste ano, Guimarães, da Levante, aponta que os resultados da empresa no terceiro trimestre “devem ser excelentes” na área de exploração e produção. Por outro lado, ainda é preciso medir os impactos na parte de refino, que sofre quando o real se desvaloriza.

A Petrobras deve provisionar o impacto não-recorrente de R$3,6 bilhões oriundo do acordo com as autoridades americanas para encerrar investigações no âmbito da Lava Jato. Os analistas consultados acreditam que o mercado já precificou esses elementos e deverá se focar na performance operacional.

A estatal divulgará seu balanço do terceiro trimestre no dia 6 de novembro. As estimativas de consenso apurado pela TC News apontam, até o momento, para lucro líquido de 86 centavos por ação, acima dos 78 centavos do segundo trimestre. A receita líquida deve atingir R$95 bilhões no período, quase R$10 bilhões acima do número registrado entre abril e junho deste ano.

Em relação à desalavancagem da companhia, um obstáculo ainda a ser enfrentado é a proibição da venda de ativos de estatais sem aval do Congresso, determinada pelo ministro Ricardo Lewandoswki, do Supremo Tribunal Federal, em junho. Kraiser, Guimarães e Caetano acreditam em uma potencial melhora das negociações, se houver vontade política do novo governo.

O mesmo vale para a cessão onerosa, acordo pelo qual a Petrobras pagou R$75 bilhões em valores da época pelo direito de exploração de áreas do pré-sal em 2010, acima do devido. O ressarcimento da companhia depende da aprovação de um projeto que tramita no Senado e um acordo com o novo governo.

Guimarães acredita que um desfecho para o impasse depende de quem for eleito no dia 28 de outubro: “se for um candidato contra as reformas, vai acontecer um retrocesso maior de toda essa negociação”.

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