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Indignação e raiva devem marcar eleição presidencial mais polarizada do século

Postado por: TC Mover em 05/10/2018 às 12:25

Por: Equipe TC News

 
SÃO PAULO, 5 de outubro de 2018 — A recepcionista Tatiana Fernandes, 36, moradora da comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, sempre gostou de personalidades fortes na política, mesmo sem se envolver com campanhas ou partidos. “Políticos em cima do muro não me convencem,” disse. Seu interesse na disputa presidencial deste ano cresceu pelo medo de que, sem uma liderança firme no comando do país, sua filha Bia herdará “um Brasil pior do que está.”

 
Os temores de Tatiana não são infundados: em meio à crise econômica mais longa desde os anos 1930, nove em cada dez brasileiros citam a insegurança como seu maior temor; 70% dos jovens reclamam da falta de oportunidades, mostrou recente pesquisa Datafolha. Desânimo e raiva entre ricos e pobres, citadinos ou interioranos, devem pautar a escolha do 38º presidente do Brasil, cujo primeiro turno será neste domingo.

 
Entre as 13 candidaturas presidenciais registradas, duas visões devem imperar: de um lado, a do ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro, líder da direita conservadora; do outro, a de Fernando Haddad, do PT, o partido de esquerda que governou o Brasil entre 2003 e 2016 e que foi tirado do poder na esteira dos desdobramentos da Operação Lava Jato.

 
As sondagens dão ampla vantagem na disputa a Bolsonaro, carismático deputado federal e cuja popularidade disparou na medida em que a Lava Jato e o desgaste que ela trouxe ao PT abateram mais a confiança dos brasileiros na política tradicional. Com mais de 40% dos votos válidos hoje, ele precisaria desidratar ainda mais os seus rivais na eleição e reduzir sua rejeição para faturar uma vitória no primeiro turno.

 

 
Os dados sugerem que isso ainda é remoto, mas o engajamento da sua militância está rapidamente capturando votos em todos os cantos do país, inclusive em lugares antes dominados pelo PT, de Haddad. Como muitos em Paraisópolis, Tatiana apoiará Bolsonaro para “dar um chega de vez nesse negócio de político que não presta e acabar com essa espera.”
Bolsonaro sabe que sua melhor chance é a de vencer no domingo, pois ele empataria com Haddad no segundo turno, marcado para 27 de outubro. “Nós devemos resolver essa fatura no primeiro turno para não termos o desgaste no segundo”, disse em transmissão ao vivo no Facebook na quarta-feira.

 
Essa ansiedade, que mostra o caráter binário da disputa e o protagonismo das redes sociais no embate político, também permeou no empresariado e no mercado financeiro. Para quem investe, um final antecipado da disputa seria ideal, em teoria, pois aceleraria o fim do clima de confronto e incerteza que imperou ao longo da campanha.

 
O rali de mercado desta semana refletiu, além da pressa por uma definição imediata, a preferência de muitos investidores pelo projeto mais liberal que Bolsonaro promete implementar, ante o que o PT representa. Aspectos do programa de Bolsonaro, como o porte de armas por civis, o conservadorismo nos costumes e a despolitização do ensino, também estão conquistando aos mais abastados.

 
Cada vez que Haddad teve desempenho bom nas pesquisas, o mercado fraquejou. A desconfiança do capital em relação ao PT reflete o discurso do ex-prefeito paulistano de querer mais controle político sobre as empresas estatais e, especialmente, sua relutância ao ajuste fiscal que o país precisa para que as contas públicas não colapsem de vez.

 
É por isso que, na esteira do rali e com Bolsonaro forte nas pesquisas, as ações das estatais como Petrobras, Eletrobras e Banco do Brasil dispararam. A férrea defesa das privatizações feita pelo economista Paulo Guedes, assessor de Bolsonaro cotado para assumir o ministério da Fazenda, é música para os ouvidos do investidor.

 
Na tarde de quinta-feira, Valor Econômico disse, citando fontes da campanha de Bolsonaro, que, se eleito, sua prioridade será cortar despesas do funcionalismo, acelerar as privatizações e agilizar a passagem da reforma da Previdência. A TC News não conseguiu confirmar as informações com a assessoria do candidato.

 

‘VITÓRIA POR NOCAUTE’

 
Mas nem todo mundo concorda que uma vitória de Bolsonaro por nocaute traria o fim da turbulência. De fato, ela pode abrir espaço para novos riscos.

 
“Uma decisão no primeiro turno pode reduzir o nível de incerteza que contamina o ambiente atual, mas a pergunta de como caminhará o país persistirá,” disse Lawrence Pih, ex-presidente do Moinho Pacífico e membro do Conselho Superior Estratégico da Fiesp.

 
Empresários consultados pela TC News, alguns deles acionistas de companhias listadas na B3, acham que Bolsonaro comandará um governo gerido por técnicos, e não afilhados políticos, apoiando privatizações e concessões que acabem com os gargalos seculares na infraestrutura brasileira. Esperam que ele acabe com a interferência política nas decisões do Banco Central e de outras agências reguladoras.

 
Mas, quando a esmola é muita, o santo desconfia.

 
O partido de Bolsonaro, o PSL, carece de estrutura para assumir um dos maiores quadros de funcionalismo público do mundo, disse Pih. Guedes e pessoas próximas ao candidato já demostraram ter visões díspares. Pih questiona o fato de que Bolsonaro “jura de pés juntos que agirá com rigor contra a corrupção”, mas deverá negociar a aprovação de importantes medidas no Congresso com partidos envolvidos em todo tipo de escândalos.

 
Para o presidente de um banco de investimento de São Paulo, que pediu para não ser citado, “é muito difícil saber como Bolsonaro governará pois, até agora, seu programa é confuso.”

 

VENDETA?

 
No entanto, ele teme que o PT de volta ao Palácio do Planalto desencadeie uma vendeta contra os membros do Judiciário que conduziram as investigações da Lava Jato que levaram à prisão do líder máximo do partido, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e contra os apoiadores do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016.

 
Propostas da campanha do petista, como a revogação do teto de gastos e da reforma trabalhista, são vistas com apreensão. Em recente enquete que a XP Investimentos fez com 187 gestores de recursos, uma vitória de Bolsonaro levaria o dólar para R$3,84 e a bolsa para os 88 mil pontos; já o trunfo de Haddad mandaria o dólar para R$4,45 e a bolsa para os 62 mil pontos, mostrou a enquete.

 
Mesmo com mais experiencia de governo do que Bolsonaro, Haddad também gera interrogações. Como exemplo, seu compromisso e o do seu partido com a sustentabilidade das contas públicas, ou qual seria o papel de Lula e outros líderes do PT envolvidos em escândalos de corrupção no seu governo, entre muitos outros pontos.

 
Para Pedro Tuesta, economista-chefe para a América Latina na Continuum Economics, “as questões de médio e longo prazo sobre a condução da economia deverão continuar para os dois candidatos, até termos sinais concretos de quando, como e quais coisas serão feitas.”

 
Prova disso é que os bancos consideram que o risco político atual é o mais difícil de mitigar com adoção de estratégias internas, segundo o Relatório de Estabilidade Financeira do Banco Central, divulgado nesta quarta-feira.

 

RISCOS DÍSPARES

 
“Os riscos políticos apontados pelas instituições referem-se basicamente às incertezas associadas às eleições presidenciais, como o resultado das eleições, o programa do candidato eleito e as condições de governabilidade”, apontou o relatório.

 
Já para Tatiana, a moradora de Paraisópolis, o verdadeiro risco é o país “continuar na mão de bandidos”, se referindo aos partidos envolvidos na Lava Jato. Ela disse que, além de falar claramente sobre segurança, o fato de Bolsonaro não estar envolvido no escândalo é mais um ponto a favor do candidato.

 

Manifestantes anti-Bolsonaro se reúnem em passeata em São Paulo (Crédito: Equipe TC News)

 
Para o diretor de cinema Lucas Fazzio, 36, o risco é outro: para ele, os dois projetos dominantes na eleição não oferecem perspectivas novas para o Brasil, embora o autoritarismo e despreparo de Jair Bolsonaro seja de longe o mais repudiável. Ele abre seu voto para Haddad num eventual segundo turno.

 
Lucas disse que o que mais assusta de Bolsonaro é seu gosto pelo confronto e seu desdém das minorias. “Não bastasse seu reacionarismo, machismo e tendências ditatoriais, ele é um verdadeiro mentecapto na acepção da palavra,” afirma.

 
Em votos totais, incluindo brancos, nulos e indecisos, Bolsonaro aparece com 35% na pesquisa Datafolha mais recente, de ontem. Para pesquisadores consultados pela TC News, um candidato precisaria ter perto de 45% dos votos válidos nas pesquisas para levar a eleição no primeiro turno, considerado o índice histórico de votos em branco e nulos próximo de 10%. Uma abstenção maior poderia acelerar o desfecho.

 
Desde a redemocratização, as únicas eleições presidenciais com vitórias em primeiro turno foram as de 1994 e 1998.

 
(Crédito da imagem principal: Adriano Machado/Reuters)

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