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Surpresa com Previdência, pressão nas ‘blue chips’ derrubam bolsa e puxam dólar; juros ignoram Ata, IPCA-15 e sobem

Postado por: TC Mover em 24/09/2019 às 13:32

Os mercados no Brasil operam em modo de aversão ao risco nesta terça-feira, em meio à surpresa com a decisão dos líderes partidários no Senado de postergar a votação do texto da Nova Previdência para semana que vem. Pouco após ter sido iniciada a sessão de votação do projeto, a presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Simone Tebet, acatou um acordo feito pelos líderes e encerrou a discussão, adiando-a para a próxima terça. O mercado reagiu feio à decisão da senadora, que segundo matéria da Folha de S. Paulo, contou com o apoio do presidente da Casa, Davi Alcolumbre: como há acordo de quebra de interstício entre a votação do primeiro e segundo turnos da reforma, o cronograma para a aprovação, em votação final, ficou para as primeiras semanas do mês que vem. O mercado ficou confuso com um tuíte de Alcolumbre, em que ele disse que a votação, em segundo turno, da proposta, “será na segunda quinzena de outubro.” O calendário com que todo mundo trabalhava era para a pauta ser votada até 10 de outubro.

 

Depois de ter retificado a informação do tuíte em entrevista com jornalistas em Brasília, Alcolumbre afirmou que o projeto será votado por volta de 10 de outubro. Ninguém ficou muito convencido. O índice ensaiou recuperação, mas estagnou, com o investidor apertando o botão de venda em todas as ações de maior capitalização do índice, as chamadas “blue chips.” Para o analista da IdealPolitik e membro experiente do TC, Leopoldo Vieira, o adiamento pode ser creditado a ajustes do entendimento entre parlamentares e destes com o governo, e ao impacto da ação da Polícia Federal contra o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho. Segundo agências, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, foi em busca do representante do judiciário para pedir pela independência dos poderes. O presidente da Corte, José Antônio Dias Toffoli, confirmou que estudará o pedido. O atraso também deve dar tempo ao governo de liberar mais emendas parlamentares, como mencionamos no Espresso de hoje mais cedo. Governo e Congresso precisam delas para 2020 e, dada a situação orçamentária, os dois lados vão ter que trabalhar juntos nessa liberação.

 

Outro fato que dominou as atenções, mas teve pouca, se não mínima, influência as cotações do câmbio e juros futuros e da bolsa foi a estreia, na Assembleia-Geral das Nações Unidas, do presidente Jair Bolsonaro. Ele fez um discurso belicoso, onde atacou o socialismo, o “ambientalismo radical” e o “indigenismo ultrapassado“. Além de mencionar a França, país que mais criticou a postura de Bolsonaro quanto às queimadas na Amazônia, ele atacou a imprensa por fazer narrações falaciosas sobre a tragédia, assim como Cuba, Venezuela e seus antecessores no governo. Se o discurso pouco vai servir, provavelmente, para tirar o país do isolamento diplomático, pelo menos não impactou as ações agrícolas e pecuárias na B3: SLC Agrícola ON, grande produtor de soja e grãos, acelerava alta para 1,5% às 12h30; a JBS ON registrava sua maior alta intradiária desde agosto, 4,4%, após Citigroup elevar a recomendação do papel para compra. Todas as ações do setor de proteínas subiam mais de 2,5% na média.

 

Em dia de volume muito fraco, o Ibovespa perdia 0,50% e estava a ponto de perder os 104 mil pontos, nesse horário. Liderando as quedas, estava Vale ON, que, além de sofrer pela forte queda do preço do minério de ferro na China, sentiu a fala do diretor financeiro da companhia, Luciano Siani, ao dizer que retomar o pagamento de dividendos não é prioridade e que a demanda por minério deve cair no médio prazo. Os bancos – muito sensíveis ao noticiário político nos meses recentes – recuavam com a notícia da demora na Previdência. A Petrobras caía, assim como a ação ON da B3. Embraer tinha a pior queda desde meados de agosto, após o sindicato dos metalúrgicos da empresa declarar greve por tempo indeterminado. Papéis de proteínas e algumas varejistas subiam, assim como as ações de educação: a Kroton foi mantida como favorita do setor pelo BTG Pactual, citando um múltiplo baixo e uma forte posição no segmento de educação básica. O dólar futuro se estressou com a Previdência e avançava 0,19% a R$4,1730, puxando consigo os juros para cima.

 

Mundo afora, os índices americanos passaram a cair perto das 13h00, com os rendimentos dos Treasuries aprofundando perdas após o presidente americano Donald Trump, que também discursou hoje na Assembleia da ONU, criticar a China – o que reduziu o otimismo em relação às conversas comerciais programadas para o começo do mês que vem. Dados de confiança do consumidor e dos índices de preços de moradias vieram abaixo do consenso – impactando o sentimento. No discurso, Trump acusou a China de manipular sua moeda e roubar propriedade intelectual americana. O índice Dow Jones recuava 0,09% e o S&P500 caía 0,22%; o yield do Treasuy note de dez anos cedia 6,4 pontos-base, refletindo preocupação com a atividade no setor de construção dos EUA, disse Victor Benndorf, da Benndorf Research e membro experiente do TC. Para ele, uma “pisada no freio mais brusca na construção civil pode exigir uma postura mais enfática” do Federal Reserve nas próximas semanas. O Fed se reúne de novo no final de outubro para decidir sua taxa de juros.

 

No âmbito corporativo, a notícia do possível adiamento da votação da Reforma da Previdência no Senado impactou as ações de estatais. Banco do Brasil ON cai mais de 2% na sessão de hoje, apesar da notícia de que o banco assinou memorando de entendimento para parceria com o UBS para banco de investimentos. O BB não confirmou oferta subsequente, nem alienação de papéis em tesouraria. A Eztec deve divulgar hoje, após o fechamento, a precificação da oferta subsequente de ações na B3. Após a agenda cheia da manhã de hoje, a tarde tem poucos eventos relevantes. O investidor deve se manter atento a falas de líderes do Senado sobre o cronograma de votações da Reforma da Previdência na Casa. É importante, também, acompanhar a agenda de Bolsonaro em Nova Iorque, que retorna a Brasília já na noite de hoje. O mercado já se prepara para os indicadores que serão divulgados na quarta-feira, o que inclui os dados de desemprego, medidos pelo Caged, de agosto.

 

(Foto: Bolsonaro na ONU – AFP/Johannes Eisele)

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