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No mês do “venda e caia fora”, a equipe dos fundos macro da Opportunity Asset fez o contrário – e se deu bem

Postado por: TC Mover em 03/06/2019 às 12:14

Enquanto gestores no Brasil e mundo afora aceleravam a busca por ativos mais seguros em meio à incerteza quanto à tramitação da Reforma da Previdência e à escalada na disputa entre os Estados Unidos e seus parceiros comerciais mais importantes, Marcos Mollica e a equipe que o ajuda a gerir as estratégias Opportunity Total FIC FIM e Opportunity Market aproveitaram o pessimismo reinante para reposicioná-los para um cenário mais otimista. Assim, a casa fundada pelos lendários investidores Daniel Dantas e Dório Ferman acrescentou suas posições direcionais em bolsa e em juros domésticos – com Mollica e seu Opportunity Total entregando retornos de 11,61% no ano até final de maio, mês visto como o mais desafiador nos mercados.

 

Em entrevista ao programa TC Gestor, da TC News, Mollica disse que parte dessa aposta bem-sucedida se deve à complementariedade que existe entre a estratégia macro, que ele gere, e a dos fundos de ações da casa, geridos por Ferman. Essa “avenida de duas mãos”, em que ambas as estratégias discutem cenários macroeconômicos e setoriais permitiu que os gestores antecipassem a desaceleração das economias brasileira e americana após um janeiro de fortes ganhos acima dos 4%, e esperassem o melhor momento para comprar barato. Esse momento se concretizou a partir de meados de abril.

 

“Fevereiro e março foram meses de muita luta para tentar manter o resultado que tínhamos obtido em janeiro,” disse. “Em maio, a gente aproveitou o pessimismo e reposicionou o fundo para um cenário mais promissor, com preços mais atraentes.”

 

Para ele, a leitura clara e bem fundamentada de um cenário complexo como o atual permite que o gestor tenha maiores chances de acertar como os preços dos ativos se comportarão. Tendo como pano de fundo um governo novo no Brasil, com uma equipe econômica com um programa consistente, mas com um mandato de mudar a forma de negociar com o poder Legislativo e com pouca experiência administrando o país, Mollica e sua equipe foram se posicionando com o objetivo de não devolver os ganhos aferidos na alta do mercado.

 

Do lado internacional, o desafio de calibrar a velocidade com que as maiores economias desaceleravam e com os ruídos trazidos pela guerra comercial entre os EUA e a China, transformou-se em ganhos por terem acreditado que a solução ao impasse não viria no curto prazo – na contramão do que o mercado pensava.

 

“É muito importante que você tenha uma equipe que seja uma sólida estruturadora de cenários”, afirmou. Mollica tem um time de cinco economistas, que dividem a cobertura em cinco regiões. Ele aproveita sua longa experiência em tesourarias de bancos como o antigo UBS Pactual – atual BTG Pactual – para gerir as posições de forma dinâmica. “O gestor tem que estar respondendo ativamente às informações que recebe do mercado”.

 

Beta é o mais importante para as estratégias

Os fundos Total e Market dividem basicamente a mesma estratégia, com o primeiro sendo o carro-chefe da estratégia e com objetivo de gerar retorno equivalente à taxa CDI acrescida de 5% a 5,5%, aproximadamente. Já o Market tem 40% do risco do Total e está no mercado desde 1996. O Opportunity Total FIC FIM, criado em 2003, rendia 5,8%, ou 225% do CDI, até final de maio.

 

Mollica disse que, no começo do ano, os fundos tinham posições muito grandes em Brasil – o que lhes rendeu retornos altos. A partir daí, antever a dificuldade política do governo do presidente Jair Bolsonaro em avançar com as reformas levou a equipe a assumir uma postura mais defensiva – evitando entregar o resultado obtido em janeiro. Essa conexão sólida com o time de Ferman permitiu a Mollica, que diz estar aprendendo a analisar ações, identificar de forma mais rápida que as projeções de crescimento do PIB brasileiro estavam infladas no começo do ano.

 

A tese estava certa: nas últimas 14 semanas, analistas cortaram suas previsões de crescimento do PIB para 1,13%. O insight dos quase 20 analistas que Ferman tem à disposição para estudar companhias e setores no Brasil foi fundamental nessa empreitada.

 

De maneira geral, Mollica está muito otimista com o Brasil: vê o cenário para as reformas avançando, a agenda econômica do governo sendo conduzida de forma extremamente positiva e de forma coerente “talvez como nunca vi na minha carreira.” Mesmo assim, ele invoca a prudência para sustentar sua tese: “esse avanço é lento e cheio de idas e vindas.”

 

No final de maio, os principais riscos das estratégias Total e Market estavam concentradas na bolsa, com 25% das posições alocadas em uma carteira comprada da mesa de renda variável do Opportunity e o restante numa aposta de beta direcional via futuros de índice Bovespa. “Neste momento achamos que o beta é o mais importante”, disse. No começo de maio, a posição em juros era bem agressiva, mas Mollica está reduzindo-a gradativamente porque o mercado validou a tese do fundo. “Existe chance grande de cortes de juros no Brasil, e a curva ainda tinha muito prêmio, precificando até altas na Selic”, destaca.

 

De olho em EUA e China

Com os EUA possivelmente mais perto de algum estímulo monetário em virtude dos dados econômicos cada vez mais frouxos da economia e a Europa estagnada, ele vê como um mistério a China – que sempre oferece uma dificuldade adicional para analisá-la por ser “um ambiente mais opaco, com muito intervencionismo”. Ele aposta que, desta vez, o governo chinês será menos arrojado na implementação de estímulos, na esteira da disputa comercial.

 

Segundo ele, o investidor precisa ficar de olho em junho com os desdobramentos da reunião entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping, que devem se encontrar no Japão na cúpula do G-20. Sem sinais concretos de que as negociações para resolver a disputa estejam sendo retomadas, é provável que haja situações que perturbem os mercados e causem alguma repercussão negativa nos países emergentes, como o Brasil. A guerra comercial tem elevado a aversão ao risco e retraído os fluxos de dinheiro para os emergentes em geral.

 

Carreira de gestor demanda humildade

Com mais de duas décadas de experiência no mercado, Mollica aconselha que quem deseja seguir uma carreira no setor persiga o aprendizado constante. “Estudo é importante, não só o livro, mas querer aprender todo dia, procurar trabalhar com pessoas muito boas, ter persistência.”

 

Ele, que já passou pelo Banco UBS Pactual e pela Rosenberg, alerta que não é do dia para a noite que alguém vira trader e toma riscos enormes. “Não tem como encurtar caminhos: tem que ter um conhecimento da vida, ter vivido situações desafiadoras e assumir uma postura mais científica ante a vida”. O gestor destacou ainda a importância de ser humilde quando se trata de discutir as perspectivas para os ativos da carteira ou as oportunidades à vista. A humildade inclui não ter medo de buscar as fragilidades dos próprios argumentos – como aprendeu nos anos de doutorado na Universidade de Chicago, onde teve aulas com seis prêmios Nobel.

 

(Foto: Marcos Mollica, em entrevista ao TC Gestor/Kauê Diacov).

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