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Mercados vislumbram impasse longo com o petróleo, que recua; Bolsonaro, Petrobras e início das reuniões do Fed e BC no radar

Postado por: TC Mover em 17/09/2019 às 9:10

O petróleo recuava nesta terça-feira com o investidor à espera de uma resposta aos ataques terroristas à infraestrutura petrolífera da Arábia Saudita, que cortaram a produção do maior exportador mundial da commodity pela metade e levaram os preços a sua maior alta intradiária na história no pregão de ontem. No entanto, a volatilidade na cotação do petróleo deve imperar com a falta de visibilidade, dizem analistas. Os ativos de risco operam em tom de cautela, com as bolsas europeias e os futuros dos índices acionários americanos oscilando entre o azul e o vermelho, e as commodities metálicas recuando. Em uma amostra adicional de prudência do investidor, os rendimentos dos Treasuries recuavam por mais um dia, enquanto o dólar americano avançava ante divisas pares e de países emergentes. As ações em Xangai e Hong Kong recuaram após o Banco Central do Povo da China manter a taxa de empréstimos interbancários de médio prazo inalterada – o que anula, parcialmente, o efeito das recentes reduções nas alíquotas dos depósitos compulsórios.

 

Em resumo, o mercado está mais preocupado com o potencial impacto geopolítico dos atentados no complexo de Abqaiq, do que com um problema de oferta ou demanda de petróleo, disse um economista sediado em Nova Iorque. A maior interrogativa é qual será a reação dos Estados Unidos e de aliados caso se comprove a participação do Irã na coordenação ou na execução dos ataques. Teme-se uma reação antecipada do Irã que piore o risco geopolítico no Oriente Médio, via um ataque surpresa a Israel. A deflagração de um conflito armado pode ser “o último prego no caixão da economia global”, disse o economista, que vê grandes riscos não só por conta do maior preço do petróleo decorrente do evento, mas pelos efeitos colaterais – como inflação, recessão, iliquidez e pânico. Um contraponto, que pode estar ajudando a tirar pressão das cotações dos petróleos tipo Brent e WTI é a notícia da viagem do vice-ministro da Economia da China aos EUA para conversas sobre a guerra comercial entre os dois países.

 

Mas o investidor no Brasil está mais focado no reflexo da situação no Oriente Médio na Petrobras e no compromisso do presidente Jair Bolsonaro com uma política econômica responsável em um momento tão crítico para a economia nacional e global. Por um lado, quiçá uma leitura mais positiva, alguns jornais destacam que o potencial leilão de sobras da Cessão Onerosa, marcado inicialmente para novembro, pode ser um ímã de investidores na procura por destinos de exploração de petróleo mais seguros do que o Golfo Pérsico. Com a Saudi Aramco levando semanas ou meses até que consiga restabelecer plenamente sua produção de petróleo em Abqaiq, falta ver como a Petrobras se organiza para elevar sua produção ou repensar sua estratégia. Do lado menos positivo, surge aquele questionamento que, por anos, assombra o acionista da estatal: a liberdade que a empresa tem, ou não, para decidir se e como reajustará os preços domésticos dos combustíveis em eventos raros – como o do fim de semana na Arábia Saudita.

 

Bingo! A Petrobras não vai reajustar imediatamente os preços dos combustíveis, mesmo com a disparada de ontem do petróleo no exterior, disse Bolsonaro em entrevista à TV Record na noite de segunda-feira, em mais um episódio que promete ser um teste em relação à governança da estatal. Bolsonaro disse que a companhia não agiria de forma apressada em meio à incerteza causada pelos atentados contra as instalações petrolíferas na Arábia Saudita, apesar de a tendência natural ser de os preços domésticos caminharem na mesma direção que as cotações no mercado internacional. Após conversa com o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, para Bolsonaro ficou claro que não haverá reajuste imediato. “Como é algo atípico e a princípio tem um fim para acabar, ele não deve mexer nos combustíveis”, disse. São tantas lembranças amargas para o investidor quanto à governança e a independência da Petrobras para fixar os preços dos combustíveis dentro do país que é inevitável não ficar com um pé atrás, disse o membro experiente do TC Rafael Ferri.

 

Em maio do ano passado, a greve dos caminhoneiros forçou a empresa a absorver fortes perdas no segmento de abastecimento em meio à escalada do dólar e dos preços do petróleo. Ontem, a Petrobras esteve entre as empresas de energia se beneficiaram da alta nas cotações do petróleo: a ação ordinária fechou em alta de 4,66%, enquanto os papéis PN, os mais líquidos, avançaram 4,52%. Para o gestor do fundo Cosmos e membro experiente do TC, Pedro Albuquerque, o episódio traz à tona o maior dilema do investidor da Petrobras: a capacidade da estatal de ajustar os preços da gasolina e do diesel em linha com a variação no petróleo e no câmbio. Os combustíveis estão, em teoria, atrelados às cotações do petróleo – uma medida tomada em 2016 para reverter o uso político da estatal nos governos dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, do PT. Mas as declarações de Bolsonaro põem em xeque essa política e devem testar o compromisso do governo com esse modelo, disseram analistas do UBS em relatório ontem. Também preocupa a pressão inflacionária que um repasse possa gerar na economia brasileira, que aguarda uma nova decisão do comitê de política monetária do Banco Central, o Copom, sobre a taxa básica de juros Selic, amanhã.

 

Começa hoje, em Brasília, a reunião do Copom, e que definirá a Selic pelos próximos 45 dias. A decisão será divulgada amanhã, após o fechamento dos mercados. Nossa pesquisa preliminar mostra um consenso de queda de 0,5 ponto percentual, para 5,00% ao ano – em linha com as expectativas da própria pesquisa de mercado do BC, a Focus. A reunião em Brasília acontece simultaneamente à reunião do comitê homólogo no Federal Reserve americano – que, espera-se, também reduza a taxa-alvo básica. Ao longo da semana, Suíça, Japão, Reino Unido e outros três países devem dar continuidade, majoritariamente, ao processo de afrouxamento da política monetária global. Entretanto, as reuniões desta semana ganharam um contorno diferente com a inesperada situação do petróleo: o investidor se pergunta qual será a mensagem dos BCs quanto a esse episódio e suas consequências. Fique de olho nos comunicados das decisões, em especial às mensagens de como o balanço de riscos para a inflação e o crescimento econômico pode mudar no cenário pós-ataques.

 

No cenário político local, fique de olho na volta antecipada de Bolsonaro à Presidência, após a cirurgia da semana passada. A poucos dias do anúncio oficial do descontingenciamento de recursos do Orçamento Federal, os jornais destacam o incômodo da área econômica com a postura de ministros e até do vice-presidente, Hamilton Mourão, de se comprometer com novos desbloqueios nos próximos meses. Outras manchetes de destaque incluem a fala do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de que a Reforma Tributária pode ser aprovada em pelo menos uma das duas Casas do Congresso neste ano. Há uma perda de interesse do governo na iniciativa, após os embates que levaram à queda do secretário da Receita Federal, Marcos Cintra, na semana passada. Fique de olho na reação à matéria de ontem do jornal O Estado de S. Paulo, que disse que o Ministério da Economia estuda autorizar o congelamento do salário mínimo em situações de aperto fiscal, e a do Valor Econômico sobre a possibilidade de reabertura do Refis – desta vez para produtores rurais, para cumprir promessas de campanha de Bolsonaro e a contragosto do ministro Paulo Guedes.

 

Hoje o dia mostra uma agenda fraca: em relação aos EUA, serão divulgados dados de produção industrial de agosto. Na Zona do Euro, teremos indicadores de confiança. Duas companhias devem precificar ofertas de ações na B3 na noite de hoje: a Sinqia, antiga Senior Solution, deve conseguir colocar o volume ofertado a preço perto da cotação atual do papel, disseram fontes à TC Mover. Já o Banrisul, o banco estadual gaúcho, ainda tem problemas para emplacar a oferta subsequente a um preço atrativos, disseram algumas dessas fontes. Na oferta, o governo do Rio Grande do Sul tenta vender ações ordinárias do banco, que correspondem a uma fatia excedente ao controle e que não são líquidas, como são as ações PNB. A conferir. Fique de olho no Twitter do presidente americano Donald Trump, na cotação do Brent e no noticiário geopolítico.

 

O maior destaque da última sessão foi para as ações de energia, que ganharam tração com o aumento do preço do petróleo. A ação ON da Petrobras subiu 4,52%, enquanto a PN subiu 4,39%. Enauta avançou 3,9%, Petrorio, 2,7% e Dommo Energia, 1,48%. Na ponta oposta, Vale recuou 2,41%, refletindo os dados fracos de produção industrial da China na véspera e o recuo do minério de ferro. Também afetada pela alta nos preços do petróleo, as ações de companhias aéreas tiveram quedas acentuadas. Gol PN caiu 7,48%, Azul PN caiu 8,36%. A Notredame Intermédica informou a compra do grupo SMEDSJ por R$105 milhões, que serão pagos à vista na data de fechamento. A BR Properties celebrou cessão de imóvel a um fundo imobiliário no valor de R$306,8 milhões. Em relatório, o BTG Pactual recomendou compra de São Martinho ON e Cosan ON, além de elevar os preços-alvo a R$25 e R$65, respectivamente.

 

(Foto: Jair Bolsonaro/ Agência Brasil)

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