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Mercado torce por Guedes na CCJ, mas cai ficha de que governo carece de apoio para reforma

Postado por: TC Mover em 03/04/2019 às 17:46

Durou pouco o otimismo do mercado com a audiência do ministro da Economia, Paulo Guedes, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. O discurso duro do ministro evidenciou, por um lado, que seu compromisso com a reforma da Previdência é inabalável. “Temos de ter coragem de equacionar na nossa geração o problema do combustível desse avião que está caindo, e vai cair, se não quiserem que os filhos e netos e gerações futuras sofram esse problema”, afirmou, batendo de frente com o bastião dos grupos de interesses que é o Congresso Nacional. Com o dedo apontado aos próprios parlamentares, disse que o sistema de Previdência é uma “fábrica de desigualdades” e chegou a comparar a aposentadoria do INSS ao que os deputados e funcionários da Câmara recebem quando se retiram: relação de 1 a 20. Os parlamentares revidaram, como era de se esperar – uns por defesa de interesses obscuros, outros para enviar um claro recado ao governo do presidente Jair Bolsonaro, de que não vai ser fácil abrir mão do toma lá dá cá para aprovar o projeto. Enquanto Guedes era atacado e aplaudido na CCJ, Bolsonaro voltava ao Twitter para defender a “agenda de um novo pacto federativo”. Ante a aparente solidão do ministro-soldado, com o governo evidentemente sem base que o defenda no Congresso, não deu para o investidor fazer de conta mais uma vez e, de novo, o botão de venda foi acionado.

 

O câmbio futuro foi na contramão do dólar americano e de muitas das principais divisas emergentes e voltou a subir. A bolsa virou, puxada pela Petrobras e os bancos – principais veículos do aposta quanto à reforma. Os juros futuros mantiveram o viés de cautela e reforçaram a alta enquanto Guedes era forçado a se desculpar com deputados da oposição. “Eu errei ao interagir”, retrucou ao retomar a palavra, dizendo que “não cabe a mim entrar no debate político”. O sentimento piorou quando Guedes afirmou que a criação do sistema de capitalização depende de potência fiscal embutida na economia da reforma e que está nas mãos dos deputados. “Sem potência fiscal, não vou lançar capitalização.” Assim, pouco importou ao mercado o bom humor nos mercados internacionais, com Nova Iorque em alta e a aversão ao risco em queda. Inclusive, o fundo de índice EEM, que replica o índice MSCI Emerging Markets Index, avançou 1% ao longo da tarde e teria subido mais não fosse pela queda em São Paulo. A lição de hoje: a estrada para a aprovação da reforma da Previdência, como aquela melancólica música dos The Beatles, deve ser “longa e sinuosa”.

 

Assim, nos demos ao luxo de ignorar o otimismo global quanto à resolução da disputa comercial Estados Unidos-China, que segundo agências de notícias, não está longe de ser alcançada. Quando o mundo relaxa, a política no Brasil “bagunça tudo”, disse um gestor sediado no Rio. O que nos espera para amanhã? A agenda de divulgações e dados está relativamente vazia, permitindo que o mercado local dobre a atenção nos riscos da articulação política que Bolsonaro desenhou para a pauta mais relevante do Estado brasileiro em duas décadas. Anfavea deve soltar os números de produção, vendas e exportações de automóveis em março, a Índia decide se corta ou mantém sua taxa básica de juros e os EUA divulgam os pedidos iniciais de seguro-desemprego da semana – o que pode trazer alguma volatilidade mundo afora. Fique de olho na ata da última reunião de política monetária do Banco Central Europeu, mas não perca o olho do noticiário no Brasil. “Existe um risco relevante de articulação política e implementação da agenda reformista,” disse Dan Kawa, diretor de investimentos da TAG Investimentos.

 

(Foto: Paulo Gudes na CCJ/ José Cruz – Agência Brasil)

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