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Bancos centrais definem juros para reativar economia em meio a riscos

Postado por: TC Mover em 16/09/2020 às 12:24
Quatro grandes bancos centrais no mundo devem reiterar a necessidade de restaurar sua margem de manobra e criar ferramentas que evitem uma desaceleração econômica no futuro próximo.

Quatro grandes bancos centrais no mundo devem reiterar a necessidade de restaurar sua margem de manobra e criar ferramentas que evitem uma desaceleração econômica no futuro próximo. O Federal Reserve, o Banco Central do Brasil, o Banco da Inglaterra e o Banco do Japão devem anunciar em suas decisões de juros desta semana a necessidade de maior poder discricionário, mais ferramentas e metas de inflação mais flexíveis.

O tempo se esgota para esses ajustes, visto que a retomada econômica nos Estados Unidos, Brasil, Europa e Ásia mostra pontos de fragilidade e, pior ainda, os riscos de crises fiscais estão crescendo. Assim, garantir a confiança no crescimento econômico futuro agora acaba sendo uma necessidade para os bancos centrais, para evitar que esses riscos fiscais se agravem com uma onda de aversão ao risco e comprometam ainda mais a recuperação.

Fed deve incentivar outros bancos centrais

O Fed, sem espaço para mudança nos juros e em suas políticas de incentivos, já tomou a iniciativa de mudar sua política monetária, com o anúncio no mês passado de uma meta de inflação média, o que permitirá tolerar altas maiores de preços para compensar o período em que os índices tenham ficado abaixo de 2,0% ao ano. A medida, que deve servir de parâmetro para os demais bancos centrais, mira as expectativas dos agentes financeiros, ampliando o horizonte de tempo que os juros poderão ficar perto de zero.

Decisões dos juros X investidores em renda fixa

Trata-se de uma má notícia para investidores em renda fixa e para aqueles que querem proteger seu poder de compra, mas ótima para ativos reais, como ouro, ações e imóveis, que podem se tornar refúgio para a perda de valor das moedas.

É bom também para os governos, cada vez mais endividados, e que terão custos menores para rolar seus débitos, ao mesmo tempo que a inflação maior corrói o valor real das dívidas. E as empresas poderão aumentar seus preços e margens na retomada da economia esperada para o ano que vem, o que explica em parte a disparada das ações americanas mesmo com a queda vertiginosa do PIB.

A linha entre o incentivo à atividade e a especulação, porém, é muito tênue, por isso o investidor deve estar atento à supervalorização dos ativos e às bolhas. O risco de perda de confiança nas políticas dos bancos centrais e dos governos pode acelerar esse movimento em meio à disparada das dívidas públicas e dos déficits fiscais enquanto as economias encolhem.

Estimativas do Fundo Monetário Internacional apontam para um total de US$11 trilhões em medidas fiscais contra os efeitos da pandemia dos 20 países mais ricos, o G20, até julho, a maior parte em países desenvolvidos. A projeção do fundo é que o total da dívida pública desses países atinja o recorde de 101% do PIB em 2021, um aumento de 19 pontos percentuais sobre o nível atual. Já a média do déficit primário dos países, diferença entre seus gastos e receitas, sem juros, deve ficar em 14% do PIB em 2020, 10 pontos de crescimento sobre o ano anterior.

Novo sistema do BC americano gera dúvidas

Segundo a LCA Consultores, ainda restam dúvidas sobre o novo sistema do Fed, como a janela temporal para a média de inflação e se haverá metas para o mercado de trabalho. Não se espera, porém, que o presidente do Fed, Jerome Powell, responda a essas perguntas na coletiva de hoje após a decisão de juros, até porque a indefinição aumenta o espaço de manobra do banco central americano. Assim, o mais provável é que o Fed se comprometa apenas a manter os juros baixos por um longo período.

Além dos juros, o Fed também divulgará hoje suas projeções, que devem indicar que a taxa perto de zero deve continuar até 2023. Também deve garantir a continuidade das recompras de títulos e apontar para uma melhora nas estimativas para a economia americana em relação a junho, que eram de contração de 6,5% do PIB este ano.

Mas Powell deve alertar para o impacto que o fim dos incentivos fiscais terá na retomada americana nos próximos meses, o que pode reforçar a expectativa com as discussões no Congresso americano. Ele deverá ponderar que, no momento, o risco de reverter o crescimento econômico é maior que o do crescimento da dívida. Powell deve falar também sobre os riscos de novas ondas de coronavírus nos EUA e no exterior e riscos geopolíticos, como a tensão entre EUA e China, que se agravou com a campanha política.

Desemprego é problema maior do que inflação nos EUA

A mudança da política do Fed mostra que o maior problema nos EUA é hoje desemprego, e não a inflação como no passado, diz Luciano Sobral, economista-chefe da Neo Investimentos. A ideia é que a inflação ainda ficará baixa por muito tempo diante da atividade fraca. Mas, se houver uma mudança de cenário, o Fed vai ter de agir. “Temos um horizonte mais longo, de difícil visibilidade, por isso o Fed prefere manter uma maior discricionariedade para poder ajustar a política se as coisas mudarem, com mais espaço para decisões políticas”, diz.

Nada está escrito em pedra na nova política do Fed, diz Ivo Chermont, da Quantitas. “A própria regra é mais discricionária que tudo, tem termos vagos em relação a emprego, ao timing de inflação”, diz. Para ele, o Fed se deu muito grau de liberdade até para voltar atrás e, se inflação voltar, muda parâmetro. “No bom português, vale qualquer coisa.”

Situação dos juros no Brasil

No caso do Brasil, a situação é agravada pela fragilidade fiscal e pela disparada recente dos preços dos alimentos, em meio a um forte incentivo ao consumo popular via auxílio emergencial. O Comitê de Política Monetária deve reavaliar esses riscos, especialmente o cenário fiscal, diante de pressões para a revisão do teto de gastos com novos programas sociais compensados pelo envio das propostas de reformas Tributária e Administrativa para o Congresso.

O aumento recente do risco fiscal brasileiro aparece nas curvas de juros dos títulos públicos, com prêmios mais altos nas taxas mais longas, muito acima até do que a inflação projetada pelo mercado no relatório Focus, observa a LCA Consultores. O papel prefixado para 2023 paga hoje 4,20% ao ano, o dobro da Selic atual, e o para 2026, 6,73%, três vezes. Em agosto, as taxas eram de 3,74% e 5,76% respectivamente

Economia brasileira cresce mais do que o esperado

Do lado positivo, a atividade econômica brasileira deu sinais de crescimento mais acelerado em relação ao esperado na última reunião. Portanto, o mais provável é que o Copom interrompa o ciclo de cortes de juros, ao menos por enquanto, e volte a discutir se a taxa chegou ao seu limite, retirando o viés de baixa informal adotado na última reunião.

Em compensação, deve reforçar a projeção de manutenção da taxa de juros nesse nível mais baixo por um período mais longo, até como forma de compensar a redução do auxílio emergencial e o possível fim dele no ano que vem. O Copom contará com uma mãozinha do Federal Reserve e dos juros internacionais perto de zero até 2023.

A maior ameaça para esse cenário brasileiro, segundo o UBS, é uma solução não construtiva para os desafios fiscais do país, que poderia levar a uma taxa real de juros de equilíbrio mais alta e obrigando o Copom a abandonar suas projeções de estabilidade na Selic. O banco suíço diz que o mercado já trabalha com uma Selic mais alta para o fim de 2021, acima de 4%, enquanto as projeções do Focus estão em 3% ao ano.

Bancos centrais e políticas expansivas

O fato de todos os bancos centrais estarem adotando políticas monetárias expansivas simultaneamente, com juros perto de zero ou em suas mínimas históricas e intensas injeções de recursos nos mercados, diante do impacto sem precedentes da pandemia de coronavírus na economia, acaba por tornar os investidores mais lenientes com o forte aumento dos gastos públicos.

Essa aparente tranquilidade, porém, vai depender da confiança de que o aumento de gastos é temporário e que o crescimento econômico e os superávits fiscais necessários para pagar a conta da dívida serão retomados. Sinais de irresponsabilidade fiscal ou de estagnação econômica podem mudar esse cenário e devem servir de alerta para o investidor, que precisa ficar atento e buscar cada vez mais instrumentos de proteção e diversificação.

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