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Brumadinho, um ano depois: o investidor entre o lucro e a governança frágil

Postado por: TC Mover em 24/01/2020 às 16:43

Por Angelo Pavini, editor sênior TC Mover

 

Se demorou menos de um ano para a Vale recuperar no mercado as perdas provocadas pela tragédia com o rompimento da barragem de Brumadinho, em Minas, que matou cerca de 300 pessoas e provocou o maior desastre ambiental do país, a companhia ainda precisa superar o estrago provocado na credibilidade de sua governança, o que ainda impede uma valorização maior de suas ações.

 

A tragédia, pouco mais de três anos depois de outro semelhante em Mariana, da Samarco, joint venture com a BHP Billiton, revelou ao mercado uma estrutura de controles de risco no mínimo sofrível, que se preocupou mais em calcular os custos com um eventual desastre do que em mudar os procedimentos da companhia, e que permitiu instalar um refeitório para funcionários logo abaixo da barragem, responsável pela maioria das mortes. Uma explicação pode ser o fato de nenhum dos principais sócios da companhia, os fundos de pensão Previ, do Banco do Brasil, Petros, da Petrobras, Funcef, da Caixa e Funcesp, com 19% do capital, além da Bradespar, holding não financeira do Bradesco, com 5,7%, e BNDESPar, com 6,3%, não serem especialistas no setor. A japonesa Mitsui, dona de 5,6% da empresa, atua em um setor relacionado, mas de siderurgia.

 

A prioridade da gestão da empresa no período anterior ao segundo acidente foi uma reestruturação acionária que buscou pulverizar o capital da companhia e mudar seu foco, reduzindo o investimento em crescimento e diversificação e aumentando a geração de dividendos para os investidores, especialmente os fundos de pensão, que começam a pagar os benefícios de seus associados e precisam de mais recursos, via participação nos lucros ou pela venda das ações. Mudanças nos controles de riscos efetivas vieram em meio a pressão do Ministério Público e da Justiça, que interditaram minas e obrigaram a empresa a reduzir o uso das barragens a montante, que provocaram os dois acidentes. Mas a dúvida dos investidores persiste: a Vale realmente aprendeu a lição?

 

Para o Bradesco, este ano deve ser um ano de redenção para a mineradora, que continua tendo suas ações subavaliadas em relação aos concorrentes pois os investidores ainda atribuem um risco significativo relacionado ao acidente de Brumadinho. O passivo anterior, porém, não preocupa tanto o banco, que acredita que as provisões feitas pela empresa podem ser acrescidas em mais US$2 bilhões a US$3 bilhões, e a Vale poderá voltar a pagar dividendos no primeiro semestre de 2020, no valor de US$5 bilhões a US$7 bilhões, equivalentes a 8% a 10% de retorno ou dividend yield no ano. O banco tem recomendação outperform, e preço-alvo de US$21,00.

 

O cenário é positivo para a Vale, diz o Bradesco. Os preços do minério devem continuar em alta, em torno de US$80 a tonelada. O banco destaca os esforços da empresa em rever todos seus processos internos após Brumadinho e estabelecer novas metas ambiciosas de curto e longo prazo de sustentabilidade. O acordo de acionistas também termina em novembro de 2020, o que pode levar os fundos de pensão e o BNDES a reduzir suas posições, mas o Bradesco acredita que isso pode não ocorrer agora.

 

 

(Foto: Associated Press)

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