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Último Copom antes da eleição deve assumir tom mais severo em meio à pressão nos emergentes

Postado por: TC Mover em 18/09/2018 às 13:06

Nesta quarta-feira, dia 19 de setembro, o comitê de política monetária do Banco Central deve manter a taxa de juros básica Selic no menor patamar histórico, mas com um tom mais drástico no comunicado que segue o final da reunião. A estratégia do BC, segundo analistas, gestores e contribuidores TC, deve refletir maior preocupação com o impacto da alta do dólar nas expectativas inflacionárias e a perspectiva para o ajuste fiscal que o país precisa fazer após a eleição de outubro.

 
Grande parte dos economistas com que falamos acha que a desvalorização do real, que atingiu na última quinta-feira seu menor patamar desde o Plano Real, ainda não está afetando as projeções futuras da inflação, fator fundamental para uma mudança de direção na política de juros da autarquia. Assim, o comitê de política monetária do banco, conhecido como Copom, deve manter a Selic em 6,50% ao ano, de forma unânime. Entre as 16 instituições com as quais colhemos informações, somente um banco espera uma alta na taxa básica, de 25 pontos-base, para 6,75%.

 
Trajetória da taxa Selic desde Janeiro de 2017

 
Para Jankiel Santos, economista-chefe para o Brasil do banco Haitong, o movimento do câmbio não é o suficiente para mudar a trajetória dos juros – nem na próxima semana e nem nas reuniões até o final do ano: “Esse ajuste tem prazo para acabar, que é dia 28 de outubro, às 19h00″, a data em que se deve conhecer o vencedor do segundo turno da eleição presidencial. Para ele, o BC “não vai se dispor a mudar a taxa de juros antes de saber quem é o presidente no ano que vem, e o que ele pretende fazer com a economia do país”.

 
O BC nega a existência de uma relação direta entre suas decisões de política monetária e o câmbio. Mesmo assim, para Santos, apesar da volatilidade do câmbio ter chances de diminuir após a resolução do segundo turno, a indefinição de quem será o vencedor da disputa mantém o BC de mãos atadas – adiando a decisão para elevar a Selic.

 
Paradoxalmente, foi justo a desvalorização do câmbio em outros emergentes que fez os bancos centrais argentino, turco e indonésio elevarem seus juros de referência.

 
O movimento acendeu algumas poucas luzes de alerta do mercado de que isso poderia se repetir aqui, uma cautela desnecessária, segundo o economista José Francisco Gonçalves, do Banco Fator: “Na hora do risco, os estrangeiros e os brasileiros misturam o Brasil com os outros, mas tem muita coisa para acontecer antes de mexer na taxa de juros”, disse à TC News.

 
Gonçalves defende que, além de estar em uma situação diferente de seus pares, a economia brasileira pode olhar para outras sinalizações vindas do exterior para reiterar que o cenário desenhado pelo Copom nas últimas reuniões ainda não mudou. O presidente do BC, Ilan Goldfajn, e sua equipe fizeram “um esforço nos últimos meses de convencer o mercado de que uma coisa é meta, outra é taxa de câmbio. Eles não podem voltar atrás nisso, a não ser que tenha uma mudança grande”, diz.

 
Ao longo dos seus dois anos de mandato no BC, Goldfajn tem se mostrado disciplinado na forma como analisa e age ante cenários turbulentos como o atual. Mas essa eleição é a mais incerta e competitiva em três décadas, tendo como pano de fundo uma taxa de desemprego de dois dígitos, uma retomada econômico fraca e uma inflação relativamente mansa, o que coloca o mercado em dúvida quanto ao posicionando da autarquia.

 
No entanto, o comunicado do Copom deve assumir um tom mais severo. Primeiro, porque é provável que os sinais iniciais de maior inflação por conta do dólar mais caro comecem a contaminar a dinâmica dos preços no atacado, deixando os preços ao consumidor mais sensíveis a altas – mesmo com uma economia fraca. Outro argumento é porque a turbulência global que impacta grandemente as economias de países emergentes está deixando o Brasil mais vulnerável a uma corrida. E terceiro, porque a incerteza ao redor do resultado da eleição pode influenciar negativamente a percepção sobre o futuro do país, especialmente em matéria fiscal, o que também influencia a inflação futura.

 

CÂMBIO E ELEIÇÃO

 
A moeda brasileira, que acumulou alta de 10% ante o dólar americano desde a última reunião do comitê, continua sob pressão com a divulgação de sondagens eleitorais que mostram os candidatos da esquerda – menos comprometidos com um ajuste fiscal drástico e uma agenda de reformas que garanta a sustentabilidade da economia brasileira no longo prazo – ganhando força diante do eleitorado.

 
Trajetória do risco-país e do câmbio desde Janeiro de 2017

 
O BC frequentemente cita como riscos ao redor da inflação o comprometimento do governo em relação à redução do déficit fiscal, à obtenção de uma reforma abrangente da Previdência e a uma simplificação de tributos, além de outras medidas que garantam maior crescimento da produtividade no país.

 
Por isso que há quem defenda que, mesmo sem mudanças previstas para a reunião desta quarta-feira, o comunicado do BC pode trazer elementos mais claros sobre o posicionamento da autarquia em relação à volatilidade com as eleições.

 
Mauricio Molan, economista-chefe do Santander Brasil, escreveu em relatório recente que o Copom deve ser mais enfático, tanto no comunicado como na ata, de que está pronto para fazer o que for necessário para manter as expectativas de inflação ancoradas, mesmo em cenários políticos mais adversos.

 
Gonçalves, do Fator, também acredita que a comunicação do BC deve entrar em território levemente mais severo com as incertezas políticas, mas provavelmente sem sinalizar que isso poderia antecipar alguma alta de juros.

 
Para Gustavo Rangel, economista do ING Bank em Nova Iorque, alterar a orientação do cenário de neutro para severo daria ao BC maior flexibilidade em meio à forte incerteza e volatilidade, segundo disse em relatório recente.

 
Como as pesquisas entre sexta-feira passada e segunda mostraram, o único ponto que parece estar definido, por enquanto, é que o candidato de direita Jair Bolsonaro deverá enfrentar a esquerda no segundo turno, representada tanto por Fernando Haddad do PT como Ciro Gomes do PDT. Bolsonaro quer um ajuste forte; já os outros parecem ser mais dúbios nesse quesito.

 
O Copom volta a se reunir entre os dias 30 e 31 de outubro, quando o ganhador da eleição já será conhecido por todos.

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