Super-Homem ou Clark Kent? O que esperar da relação de Bolsonaro com um Congresso renovado - TradersClub
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Super-Homem ou Clark Kent? O que esperar da relação de Bolsonaro com um Congresso renovado

Postado por: TC News em 29/10/2018 às 18:11

Por: Equipe TC News

 

SÃO PAULO, 29 de outubro — Reunidos às vésperas do segundo turno da eleição presidencial, gestores de vários fundos de investimento explicavam para investidores em São Paulo que o êxito do governo Jair Bolsonaro depende de como ele engajará o Congresso na aprovação de pautas relevantes, porém polêmicas. Em Brasília, onde tudo se negocia no “toma lá, dá cá”, isso não deve ser tão simples.

 

Nem a esmagadora vitória de Bolsonaro, 63 anos, nem a aura de “Super-Homem” perante seus eleitores garantem a passagem de seus projetos mais caros, como o desmonte do Estatuto do Desarmamento, a Escola Sem Partido e o pacote de ajuste fiscal. Parlamentar não negocia com mandões e Bolsonaro, que por 28 anos foi um deles, sabe bem disso.

 

O temor de quem está em Brasília é que, na primeira dificuldade, Bolsonaro se torne unilateral, desdenhe as formas tradicionais de negociação com o Congresso e busque a comunicação direta com o eleitor para constranger o parlamento – um trunfo do qual tem lançado mão ao longo da campanha.

 

A meta é ambiciosa: convencer, no mínimo, três a cada cinco congressistas de que não vão perder seus mandatos se aprovarem a impopular reforma da Previdência, dessem seu aval às privatizações ou autorizarem a ressuscitar um Estado esclerosado. Como contrapartida, ele pode dividir com o parlamento os créditos por tirar a economia de uma crise que se alastra por quase cinco anos.

 

Assim, em vez de partir para o embate, o melhor é se intrometer o mínimo possível no andamento do Legislativo, disseram aliados do novo presidente. O analista político Alexandre Bandeira, da consultoria Strattegia, concorda: Bolsonaro precisará assumir um papel institucional com o Congresso, menos como um Super-Homem “e mais como se fosse Clark Kent, para conseguir passar as principais pautas”.

 

Essa versão parece ser consenso, inclusive entre os parlamentares que, por anos, transitaram em calçadas opostas. Num Congresso tão fragmentado, ele precisa oferecer mais do que cargos e ministérios para evitar ter seu mandato sabotado desde cedo.

 

 

Para gestores, as incógnitas quanto ao seu estilo de governo e comprometimento com a visão liberal causam apreensão, e impediram que bolsa, câmbio e juros tivessem um desempenho ainda melhor desde seu triunfo no primeiro turno, em 7 de outubro. Mesmo assim, desde que ele despontou como o favorito nas pesquisas, em agosto, o investidor acredita na capacidade de Bolsonaro de equilibrar quaisquer discursos dissonantes dentro da própria equipe e manter a promessa de não rifar o país em troca de apoio político.

 

Estrategistas do BTG Pactual, Bradesco BBI e XP Investimentos esperam que a eleição do ex-capitão dê impulso para o índice Ibovespa ultrapassar os 100 mil pontos antes do final do ano. Se a reforma da Previdência for aprovada e o pacote de ajuste fiscal aprovado pelo Congresso, a bolsa pode tocar até 125 mil pontos.

 

‘TESTADOS’

 

No entanto, “a eficácia com que o novo governo pode usar a lua de mel com o eleitorado e o Congresso para priorizar e aprovar sua agenda econômica permanece incerta,” disse Shelly Shetty, analista sênior do risco soberano da Fitch.

 

Militar da reserva e ex-capitão do Exército, Bolsonaro sempre foi conhecido em Brasília como um político de viés nacional-desenvolvimentista. Suas defesas no Congresso como deputado federal incluíram propostas de anistia de multas a militares por irregularidades imobiliárias, permitir o aplauso à bandeira brasileira após a execução do hino nacional e proibir palavras estrangeiras na identificação de estabelecimentos comerciais. Muitos viram sua aproximação ao liberalismo econômico como oportunismo para ganhar votos do antipetismo. Isso pode criar, em algum momento, um embate ideológico dentro do seu partido, o Partido Social Liberal.

 

Em 2019, o PSL terá o maior número de parlamentares de sua história no Congresso Nacional: serão 52 na Câmara dos Deputados e quatro no Senado. Isso já deve ser mais que suficiente para que Bolsonaro forme uma coalizão simples, explica Leandro Gabiati, da Dominium Consultoria.

 

 

Para ele, o presidente eleito pode ter, no mínimo, 330 deputados ao seu lado no início do governo – o que já seria suficiente para a aprovação de uma eventual reforma da Previdência, que precisa de pelo menos 308 votos da Câmara. As bancadas evangélica e ruralista, que o apoiam desde a campanha, também devem ajudar.

 

A dúvida, no entanto, é o quão afinados esses parlamentares estarão com as intenções do próximo presidente e de sua equipe econômica – e o quanto ele mesmo está disposto a usar de seu capital político para aprovar matérias econômicas fundamentais, mas impopulares.

 

“Estamos cientes que seremos testados, que haverá tensões e desencontros”, disse à TC News um parlamentar do PSL, que pediu para não ser citado. “Mas sabemos da responsabilidade histórica e da oportunidade única que temos para mudar o país. Estamos fechados nas questões mais fundamentais.”

 

ESPERAR PARA AGIR

 

De qualquer forma, qualquer rali de mercado só deve se materializar com mais segurança a partir de notícias concretas.

 

Para Daniel Alberini, gestor da CTM Investimentos e contribuidor TC, sinais mais claros do que Bolsonaro deve fazer como presidente e de como ele convencerá o Congresso a cooperar com as pautas urgentes podem levar o Ibovespa dos atuais 85 mil pontos para 100 mil pontos no fim do ano. Mas o caminho não será livre de percalços.

 

Dada a incerteza em relação aos possíveis anúncios, muitos fundos devem continuar posicionados de forma tímida. Uma estratégia é a de ficar expostos a opções sobre ações – uma oportunidade de aproveitar a tendência de mercado colocando pouco capital em risco – até estarem mais convictos do que veem, disse José Carlos Carvalho, sócio e economista-chefe da Paineiras Investimentos.

 

“Enquanto todas as cartas não estiverem na mesa, o melhor é apostar no lado otimista, com estratégias de perda limitada”, disse Carvalho a investidores na sede do BTG Pactual na semana passada.

 

Tanto Carvalho quanto Alberini recomendam que o investidor fique atento às movimentações, tanto de Bolsonaro quanto do núcleo duro da gestão, e analise como ele irá persuadir parlamentares a dar prioridade à agenda econômica.

 

 

PRIORIDADES DO CONGRESSO

 

Ancorado em propostas para a segurança pública durante a campanha, Bolsonaro precisará segurar o ímpeto de seus aliados para não desgastar sua força política logo nos primeiros meses.

 

“Teremos que ver como ele fará para diminuir o ímpeto desse Congresso mais conservador e conseguir temas importantes para a saúde fiscal do Estado. Pautas mais políticas podem gastar energia e tirar o foco”, diz Gabiati.

 

A questão é que, inclinado a fazer um “ministério de notáveis”, com nomes de fora da esfera tradicional e de fora do Congresso, Bolsonaro precisará buscar capital político em algum lugar para conseguir negociar com os parlamentares – e isso poderia vir das pautas discutidas em plenário, disse César Carvalho, analista político da CAC Consultoria em Brasília.

 

“Para trazer para o seu lado, precisa ceder em alguma coisa, e ainda não sabemos o que vai ser”, aponta, indicando que um dos caminhos talvez seja intercalar ambas as discussões, econômica e social, para manter seus aliados na mesma página.

 

O Congresso sabe que nem todos os 57 milhões de eleitores de Bolsonaro acreditam ou gostam dele. Para Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset, a opção foi um “voto pragmático”, o que não significa que eleitores e investidores estejam 100% confortáveis com todas as variáveis do cenário.

 

DISSONÂNCIAS NA EQUIPE

 

Nos últimos meses, algumas falas do ex-capitão sinalizaram uma possível rota de colisão com o pensamento liberal que emana de Paulo Guedes, seu assessor econômico e provável titular do superministério da Economia que Bolsonaro cogita criar.

 

Vago em seus posicionamentos antes da vitória, o presidente eleito já autorizou sua equipe a dizer aos quatro ventos que sua prioridade política mais imediata será a reforma da Previdência. A dúvida é quem na sua base vai querer comprar briga com ele. Hoje o senador eleito Major Olímpio, do PSL, disse que a reforma da Previdência, “do jeito que está escrita, não passa.”

 

“Diferenças sempre vão haver, mas Jair sabe como manter o discurso uniforme”, disse o parlamentar entrevistado, sem detalhar quais os métodos para isso acontecer.

 

Em meio à lenta recuperação econômica, um ajuste fiscal centrado na reforma da Previdência e bem executado pode dar mais gás ao mandato. Para Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, o câmbio poderia chegar a R$3,40 com a aprovação do projeto no começo de 2019.

 

Com cenário adverso para os ativos de países emergentes, seguindo os temores de desaceleração do crescimento global, disputa comerciais entre as grandes potências e aumento de juros no mundo desenvolvido, as reformas precisam acontecer o quanto antes, ressalta Vieira.

 

Sabemos que o Super-Homem Bolsonaro terá pouco controle do exterior, mas dependerá da versão Clark Kent que a agenda local funcione. Uma demora na aprovação do pacote de ajuste fiscal e das reformas vai gerar um impacto sobre o mercado, disse Alberini, que destaca que pode sensibilizar as autoridades em Brasília a dar celeridade ao processo.

 

“Se a negociação demorar mais que seis meses, vejo problema, o que não quer dizer que isso inviabiliza o governo. O mercado pode ter uma azia e aí a turma acorda”, disse.

 

Outros preferem ser mais prudentes.

 

“Resta saber se Bolsonaro terá longevidade e força para pautar o que importa para a economia”, diz Vale da MB Associados.

 

Entenda como funcionará o próximo governo

 

Quem é o próximo presidente do Brasil?

 

Jair Bolsonaro (PSL) foi eleito presidente da República com 55,13% dos votos válidos. Obteve 10 pontos percentuais a mais do que no primeiro turno, disputado em 7 de outubro, derrotando Fernando Haddad, do PT, que teve 44,87% dos votos válidos no último domingo. A diferença de votos entre os dois candidatos foi de 10,7 milhões.

 

Quais seus desafios?

 

* Implementar um forte ajuste fiscal sem descuidar do gasto social
* Manter ou ajustar o teto de gastos votado pela atual administração
* Devolver a sensação de segurança para todos os brasileiros
* Passar a reforma da Previdência e outras reformas estruturantes
* Pacificar o país após dez anos de intensa polarização política
* Garantir a governabilidade com um Congresso fragmentado
* Estabelecer uma ponte de diálogo com um Judiciário desacreditado
* Repensar a política externa e comercial do Brasil
* Atacar a pior crise econômica e de desemprego da história do país

 

Quais suas propostas?

 

* SEGURANÇA: Reformular o Estatuto do Desarmamento e reduzir a maioridade penal.
* EDUCAÇÃO: Priorizar a educação básica e o ensino médio e técnico; mudar a Base Nacional Comum Curricular.
* ECONOMIA: Aprovar as reformas estruturantes, estabilizar o rombo das finanças públicas e reviver a economia após longa recessão.
* INFRAESTRUTURA: Desburocratização em massa, atração de investimento estrangeiro e ajudar o Nordeste a melhorar sua matriz de crescimento.
* DIREITOS HUMANOS: Combater a política de gênero e redirecionar recursos para ajudar vítimas da violência.

 

Qual será a pauta da equipe de transição?

 

* Reforma da Previdência: A equipe econômica de Bolsonaro precisa negociar com o governo Temer e o atual Congresso a aprovação, pelo menos em primeiro turno na Câmara, do projeto de reforma da Previdência ainda neste ano. Há, no entanto, divergências quanto ao texto.
* Orçamento da União para 2019: Terá de ser aprovado até o fim deste ano e poderá sofrer algumas alterações, a pedido do presidente eleito – especificamente no quesito pautas bomba.
* Teto remuneratório: Projeto já aprovado no Senado e em análise na Câmara, é fundamental para o ajuste fiscal, pois proíbe pagamentos acima do teto constitucional no serviço público.
* Privatização da Eletrobras: O projeto está na Câmara, mas Bolsonaro e sua equipe precisam se posicionar de forma mais clara se são a favor ou contra a proposta.
* Cessão onerosa: O leilão do excedente do petróleo do pré-sal já foi aprovado na Câmara e precisa ser votado no Senado.
* Autonomia do Banco Central: O projeto de lei está na Câmara.
* Tributação de Fundos de Investimento: O projeto de lei está na Câmara.
* Pauta imobiliária: O projeto já foi aprovado na Câmara – mudança nas regras de distrato nas operações de compra e venda de imóveis.
* Lei das Telecomunicações: A reestruturação do setor já foi aprovado na Câmara e aguarda votação no Senado.
* Agências reguladoras: Já aprovado no Senado, o projeto aguarda análise na Câmara.

 

Quais os possíveis integrantes do ministério de Jair Bolsonaro?

 

O que sabemos sobre a administração até agora:

 

Bolsonaro já declarou que pretende ter, no máximo, 15 pastas. No Facebook, ele disse pretender um ministério “enxuto, com no máximo 15 ministros, que possa representar os interesses da população, não de partidos”. No entanto, essa posição pode ser revista – em vista dos acordos que deve fazer para criar uma base congressional sólida e para garantir o funcionamento da máquina estatal. Durante a campanha, disse pretender extinguir os ministérios das Cidades, do Meio Ambiente (incorporando-o ao ministério da Agricultura) e Cultura (que passaria a funcionar dentro do ministério da Educação).

 

 

Quem integra o círculo mais próximo do presidente eleito?

 

Não se conhece uma mulher que pertença ao círculo mais próximo de Bolsonaro, além da sua esposa, Michelle Bolsonaro. Segundo informações da imprensa, ela tem 36 anos, é natural de Brasília e chama a atenção por seu jeito simples e durão com a família.

  • É uma mulher engajada no trabalho da igreja que frequenta e dos programas sociais. Sua presença será importante criar uma ponte entre Bolsonaro e o eleitorado feminino – que o rejeitou bastante ao longo da campanha.

 

Paulo Guedes: Paulo Guedes, carioca de 69 anos. Cursou a graduação em Economia na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e tem doutorado em Economia pela Universidade de Chicago.

  • Em 1994, Guedes acreditou no sucesso do Plano Real e orientou seus colegas do Banco Pactual, que ele ajudou a fundar 11 anos antes, a apostar contra o dólar, ou seja, na valorização da nova moeda, algo inimaginável na época. A aposta deu certo.
  • Guedes nunca ocupou cargo político nem sequer fez parte de equipe econômica de governo algum. Mas sempre flertou com o poder: no Pactual, fez fama por suas críticas ácidas à política econômica.

 

Onyx Lorenzoni: deputado federal pelo DEM/RS desde 2003, deve se tornar o articulador de Bolsonaro com o Congresso Nacional como ministro-chefe da Casa Civil.

  • Reeleito nas eleições de 2018, sua meta será construir e manter em pé uma base de pelo menos 320 parlamentares na Câmara e de no mínimo 35 senadores.

 

General Augusto Heleno: Nascido em Curitiba, o General Augusto Heleno construiu uma carreira sólida no Exército Brasileiro como comandante militar da Amazônia e chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia.

  • Ele liderou as tropas brasileiras em missões de paz da Organização das Nações Unidas (ONU) no Haiti.
  • Trabalhou por quatro anos na Presidência da República, nos governos Collor e Itamar Franco. Deve ser escolhido como titular da Defesa.

 

General Oswaldo Ferreira: Militar da reserva, é cotado para ser o ministro dos Transportes.

 

Eduardo Bolsonaro: Terceiro filho de Bolsonaro a ser eleito a um cargo público, Eduardo Bolsonaro, de 34 anos, foi reeleito como o mais votado deputado federal por São Paulo da história.

  • Ex-policial federal, Eduardo atua na chamada bancada da bala, que defende liberar porte de arma para a população, e é porta-voz das corporações policiais.
  • Às vésperas do segundo turno, um vídeo em que Eduardo aparecia defendendo o fechamento do Supremo Tribunal Federal “por um cabo e um soldado” obrigou Bolsonaro a enviar carta de desculpas ao Supremo, por meio do decano da Corte, ministro Celso de Mello.

 

Flávio Bolsonaro: Eleito senador pelo Rio de Janeiro. Flávio foi quem transmitiu as primeiras informações e imagens via internet do atentando sofrido por seu pai em 6 de setembro, em plena eleição, em Juiz de Fora, Minas Gerais.

 

Antonio Hamilton Martins Mourão: Vice-presidente eleito, Mourão tem 65 anos e é natural de Porto Alegre. Ingressou na Academia Militar das Agulhas Negras, com 18 anos. Permaneceu na ativa durante 46 anos, até fevereiro deste ano. Ele possui nove condecorações como militar e foi a quarta opção de Jair Bolsonaro para compor a chapa.

  • Na campanha, colecionou declarações polêmicas sobre uma possível Assembleia Constituinte, o 13º salário e a herança afro-indígena do povo brasileiro.
  • É visto como um liberal mais convicto que o próprio Bolsonaro, porém com pouco conhecimento de como funciona uma economia e o meio financeiro e empresarial.

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