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Hedge viraliza nas tesourarias e deve aliviar impacto do dólar alto nos balanços

Postado por: TC News em 24/09/2018 às 17:02
Crédito: Germano Lüders/Exame

Tesoureiros das maiores companhias listadas brasileiras apelaram para o uso da proteção cambial no terceiro trimestre para proteger o balanço de suas companhias, em meio à escalada mais forte no dólar em 15 anos e à maior incerteza política local e global.

 
A menos de duas semanas para o final do terceiro trimestre, o investidor já se prepara para a temporada de balanços, que terá como epicentro o impacto da alta do dólar nas companhias listadas na B3 e a pior turbulência de mercado em quase três anos. A largada das divulgações acontecerá simultaneamente ao segundo turno da eleição presidencial, quiçá a mais competitiva em trinta anos.

 
No entanto, de acordo com gestores, analistas e contribuidores TC, a volatilidade de mercado exercerá um impacto pontual sobre os resultados. Isso porque as companhias brasileiras listadas estão cada vez mais utilizando mecanismos de proteção cambial (hedge). Para o investidor, a adoção de maior proteção cambial tende a dar mais tranquilidade aos balanços. O cenário é diferente do trimestre anterior, quando a alta do câmbio derrubou as ações de empresas como Suzano, Fibria e Gol, que amargaram perdas financeiras significativas.

 
A escalada do dólar, que já acumula alta de 17,80% no ano, perdeu força no terceiro trimestre. No período entre abril e junho, a disparada da moeda americana ante o real atingiu 16,4%, enquanto neste trimestre soma 2,8%. Mesmo assim, o câmbio alcançou a máxima histórica de fechamento de R$4,1952 em 13 de setembro, o que manteve o apetite por hedge. Desta forma, empresas que estavam subprotegidas meses atrás contrataram mais instrumentos de proteção cambial desde junho.

 
Naquele mês as compras de dólares via instrumentos de derivativos chamados de NDFs atingiram US$17,73 bilhões, o maior em 13 meses, de acordo com dados da B3. Nos últimos três meses até agosto, a média de compras de NDFs aumentou consideravelmente.

 
NDFs

 
A maior colocação de contratos de swap cambial por parte do Banco Central e a renegociação, rolagem antecipada e recompra de dívida externa por parte de algumas companhias devem marcar um trimestre menos caótico. Daniel Alberini, gestor da CTM Investimentos, considera que o processo de desalavancagem iniciado em 2015, e que acelerou no último ano, ajudou a mitigar a alta do dólar nos balanços. O nível de endividamento bruto de 250 companhias listadas na B3 passou de R$1,4 trilhão três anos atrás para R$805 bilhões no final de 2017, segundo dados da Economatica.

 
A dívida menor deve dar fôlego extra para que muitas empresas renegociem sua dívida após o fim da eleição. Assim, a maior parte do impacto do câmbio nos balanços deste trimestre deve ser apenas contábil, ele aponta.

 
NDFs

 
Mas o grau de eficácia destas estratégias “dependerá da velocidade da gestão para se antecipar aos movimentos do mercado e do nível de contratação do hedge realizada pelas empresas,” diz Adeodato Volpi Netto, estrategista-chefe da Eleven Financial e contribuidor TC.

 

CORRENDO ATRÁS DO PREJUÍZO?

 
Ao longo deste trimestre, companhias como a Braskem e a Ambev aceleraram planos de recompra de dívida externa e hedging de insumos dolarizados como alumínio; outras, como a Petrobras, criaram mecanismo de proteção cambial para se proteger das fortes oscilações dos preços dos combustíveis no mercado internacional. Banqueiros relataram à TC News o esforço de varejistas e importadores, como as Lojas Renner, para atualizar seus contratos de hedge para incorporar estimativas de um câmbio mais desvalorizado ante o dólar.

 
O gestor Dany Rappaport, da Investport, espera que empresas médias e grandes com dívidas em dólar pouco hedgeadas sejam as mais impactadas pela alta do dólar. Alberini vê como exemplo deste caso a Cemig, cujo papel PN avançou apenas 0,27% de julho até agora. Azul e Gol podem mostrar, mais uma vez, algum prejuízo na linha de hedging de combustíveis e dólar, enquanto Hypera, Smiles e CVC também podem sentir algum baque na linha operacional, já que parte dos seus custos são dolarizados.

 
Já na outra ponta, companhias exportadoras ou com receita dolarizada, a exemplo de Vale, Klabin, Unipar Carbocloro, devem ter maior geração de caixa operacional. As três acumulam ganhos respectivos de 26,3%, 8% e 3% no período.

 
O processo de correção cambial atual se estende desde fevereiro, por temores de uma alta mais rápida e agressiva nos juros americanos e reflexos das disputas comerciais empreendidas pelos Estados Unidos. Entre abril e maio a incerteza política local e as preocupações relacionadas à sustentabilidade das economias de países emergentes elevaram a pressão sobre o real.

 
Para companhias e investidores, o “x da questão” parece ser quanto tempo a pressão cambial durará. Nossas fontes se preocupam com um prolongamento da alta no dólar, diante da possibilidade de um candidato pouco comprometido com o ajuste fiscal ganhar a eleição de outubro.

 
O componente eleitoral tem sido mais preponderante desde julho e, em setembro, se tornou fundamental para o câmbio, que vem oscilando de acordo com as pesquisas. Na visão de Rappaport, uma vez que o cenário eleitoral se esclarecer, o câmbio tende a voltar a R$3,70”, patamar que o gestor considera justo para a moeda brasileira ante a norte-americana. O dólar futuro negociava hoje na B3 a R$4,0405, queda de 0,3%, pela manhã.

 
Nelogica
Crédito: Nelógica

 

JANELA DE OPORTUNIDADE

 
A volatilidade no câmbio e na bolsa, sintoma do cenário eleitoral indefinido, gerou uma redução do volume negociado: a média caiu de R$9,7 bilhões no trimestre passado para R$7,6 bilhões no atual.

 
Isso se reflete nas ações das empresas listadas, dificultando a predição de valorização dos papéis, diz Volpi Netto. No entanto, ele vê um cenário propício para a especulação. “Este é um momento conveniente para quem tem uma visão de investimento a longo prazo”, avalia. A janela de oportunidade, ressalta o analista, é grande para companhias que têm fundamentos sólidos.

 
Investidores que têm segurado o capital à espera de mais previsibilidade devem ser mais seletivos quando o cenário clarear. Nesse momento, os resultados das empresas que reagiram mais rápido às questões macroeconômicas devem se destacar, expondo distorções gritantes entre companhias do mesmo setor, diz Volpi Netto, da Eleven.

 
Um caso concreto seria o da construção, no qual o analista cita Tenda, MRV e Direcional como nomes que se prepararam muito bem para este momento adverso do câmbio: no trimestre, acumulam alta de 6,6%, 2,1% e 9,7%, respectivamente. Já companhias como Even e Tecnisa, que ele cita como casos negativos do setor, registram perda de 15,6% e 18,3%. Em comparação, o índice Bovespa avançou 8,8% no período.

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